Pluriplicante 12

Pluriplicante 12 (… sobre instituições)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» De vários comentadores, nas televisões, ouvi a espécie de confissão mística de que acreditam nas instituições. Confiam ou querem confiar nelas plenamente. Esquecem um pormenor, não despiciendo mas fundador: desde todos os tempos e para todos os tempos, as instituições são propriamente instituídas por seres humanos. Explicam tais comentadores que algum ou alguns destes seres, por comportamentos fraudulentos ou criminosos, mancharam ou conspurcaram esta ou aquela instituição, mas tais desvios ou crimes não são factores susceptíveis de minar a crença e a confiança nas instituições em causa, porque outros seres humanos impolutos e bons, substituindo os prevaricadores, farão esplender essas mesmas instituições.

»»»»» Estes propósitos vieram a propósito de um caso de contornos obscuros e guião detectivesco, que foi o roubo de material militar, guardado em paióis das Forças Armadas (FA), e posterior devolução do mesmo, caso em que, segundo se vem revelando, estão envolvidas altas patentes e chefias da Polícia Judiciária (PJ), da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia Judiciária Militar (PJM), e dele seria conhecedor o próprio ministro que preside ao Ministério da Defesa (MD). É mesmo assim: os criminosos e os coniventes e encobridores de criminosos, um dos quais revela que esteve em curso uma “encenação” no episódio de achamento das armas, situam-se no topo de algumas das mais determinantes e, diz-se, prestigiadas instituições da nação portuguesa.

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»»»»» PJ, GNR, PJM, MD — tudo siglas de instituições que, quais divindades contemporâneas, estariam acima da comum humanidade e, enfim, acima de quaisquer suspeições. Em contraponto, líderes de partidos à esquerda e à direita insistem, ajuizadamente, no necessário escrutínio das instituições. Creio, no entanto, que os escrutinadores serão seres humanos — logo, seres sujeitos a errar. Mas enfim, além de necessário tal escrutínio, eu acrescentaria que este fosse igualmente constante e ainda infinito… sabendo, embora, que há uma eterna mescla de ingenuidade, de invenção e de audácia humanas capazes de fintar todas as regras institucionais e todos os bons e maus escrutínios.

 

António Sá

15.10.2018

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Imaginação 9

Imaginação / 9 [O autómato]

 

»»»»» Sem pensar em que ponto estou, em fuga a momentos de paragem. Sempre em movimento no decurso de dias a passarem depressa.

»»»»» Estar a ser um autómato-dos-dias, sujeito a um sobressalto agónico sempre que alguma coisa faça parar esse movimento de acção-contínua.

»»»»» Autómato-dos-dias, vaga noção das coisas, da sua realidade, da realidade dos seres, o que contraria um desejo subliminar de confronto com os seres vivos, envolvimento com a substância de que sejam feitos.

 

António Sá

[década de 1990 / reescrito a 24.09.2018]

Imaginações 7 e 8

Imaginação / 7 [Despertar erótico]

 

»»»»» Um dos seus braços pousava abandonado sobre as minhas omoplatas. Seu corpo de músculos macios, firmeza terna, epiderme láctea. Achava-me num estado de entorpecimento dissolvente, na luz da manhã. Voltei-me para ele, deitava-se de bruços, face voltada para mim. As frontes húmidas tocaram-se, as respirações confundiram-se, a respiração dele adormecido.

»»»»» E o enleio desfez-se, eu abraçava a almofada, a luz amadurecia. A realidade daquele braço, pesado de sono sobre as minhas omoplatas, e o calor de um corpo desapareceu, transformou-se no desejo de o ver, mas não sabia exactamente quem era, parecia-me uma sobreposição de um rapaz que não via há muito, de outro que via algumas vezes, e de uma foto de postal onde um jovem, deitado em cama estreita, aparece seminu, em pose de abandono.

 

António Sá

[década de 1990 / reescrito a 19.09.2018]

 

 

 

 

Imaginação / 8 [Outro despertar]

 

»»»»» Outro tipo de sensação ao despertar: o meu corpo deixa de se conectar com a atmosfera. Os pulmões revestem-se de camadas de acrílico que os isolam da atmosfera.

 

António Sá

[década de 1990 / reescrito a 19.09.2018]

Flash 11

Flash / 11

 

»»»»» Hipótesis de lo que sea de lo que sea hipótesis.

»»»»» What will come, will come — what will be, will be. And is something that unhappens. Nothing happens anymore, except dreams of what happens and what happened before this happening now. Dreams of dreams of dreams — is what happens.

»»»»» Hipótesis de lo que ha sido — hypothesis of the nothingness — nothing happens, except the course of the matter in its course. Nada pasa salvo la vida de la materia en su curso — no es malo, no malo escuchar la materia en su curso, ni terrible ni nada, es eso tan solo — yo soy eso. Je suis ça — matière accélérée.

»»»»» Hipótesis de hipótesis, soy hipótesis de mí. Hipótese de mim, escrevo um flash — este issoflash eu-mesmo entre flashes.

 

 

»»»»» [Clues: o título do filme Things to come (William Cameron Menzies, 1936); a canção de Doris Day, Qué sera sera, cantada ao piano num momento paranóide de um filme de Alfred Hitchcock; a noção freudiana de isso.]

 

António Sá

[21.07.2018]

 

Flash 10

Flash / 10

 

»»»»» Hipóteses do que seja, coisas não por vir, antes vindas e já no futuro repetidas. Repetição de repetições, pastiche do que foi, do que seja hipóteses.

 

»»»»» [Clues: o título do filme Things to come (William Cameron Menzies, 1936); a máxima do Ecclesiastes: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.]

 

António Sá

[19.07.2018]

“O excesso de gozo é dor”

“O excesso de gozo é dor”

 

»»»»» À partida, existe a plenitude, ou o motivo para a sua existência, que seria “(…) esta imensa ternura / de que me enche o teu amor?”, e que, embora em modo interrogativo, o deveria deixar “contente”; e ainda “(…) este gozar sem fim / que me inunda o coração”. E a este amor de outrem, o sujeito corresponde com um tipo de adoração: “Absorto em tua beleza”.

»»»»» Mas tal plenitude que o inunda está acompanhada de um distúrbio emocional, que designarei por melancolia da falha obscura. A ideia da plenitude está formulada ou em modo interrogativo, ou em contexto de negatividade: para tanto gozo amoroso “não há ser bastante” e, diz o sujeito, “falta-me a vida”. Esta falha é uma falha de natureza ignota, uma falha obscura, um estado de “(…) tristeza / vaga, inerte e sem motivo”. Sublinho esta caracterização: trata-se de algo que não acede a uma realidade vital (“inerte”), e que é desprovido de uma razão apreensível pelo sujeito (“sem motivo”): nesse estado se desencontra. Traduzindo “tristeza” por “melancolia”, julgo deixar clara a formulação que propus: melancolia da falha obscura.

»»»»» É assim o poema de Almeida Garrett a que tenho feito recurso:

 

 

Gozo e dor

 

Se estou contente, querida,

com esta imensa ternura

de que me enche o teu amor?

— Não. Ai! não; falta-me a vida,

sucumbe-me a alma à ventura;

o excesso de gozo é dor.

 

Dói-me a alma, sim; e a tristeza

vaga, inerte e sem motivo,

no coração me poisou.

Absorto em tua beleza,

não sei se morro ou se vivo

porque a vida me parou.

 

É que não há ser bastante

para este gozar sem fim

que me inunda o coração.

Tremo dele, e delirante

sinto que se exaure em mim

ou a vida — ou a razão.

 

Garrett 1 001

Retrato de Garrett, datado de 1834

»»»»» A plenitude não deixa de ser um elemento primeiro para a inteligibilidade do sentido, mas ao se combinar com o tipo de melancolia expressa, torna-se um sofrimento outro: “o excesso de gozo é dor”. Entretanto a conclusão, dada nos dois últimos versos, resulta convencionalmente lírica: este excesso no amor condena-o a perder ou a vida ou a razão.

»»»»» Anoto em coda que, num passado recente, um professor de medicina francês, Felix Plater (1536-1614), estabelece uma classificação das doenças mentais, entre as quais inclui, na classe das “De mentis alienatione”, a mania, a melancolia e o amor.

 

 

»»»»» Nota:

»»»»» O poema de Almeida Garrett foi recolhido na antologia Folhas caídas e outros poemas, introdução, selecção e notas de António José Saraiva, Livraria Clássica Editora, 2ª ed., 1962. Tomei a liberdade, no entanto, de não usar por sistema a maiúscula no início de cada verso, apenas a usando em início de frase.

 

 

António Sá

[21.03.2018]

 

Romantismo tendência homo

Romantismo tendência homo (aproximações a um filme de Luca Guadagnino)

 

Aconselhamento paterno

»»»»» Ocorre um conselho, de entre vários numa conversa de pai para filho, já perto do final da película Call me by your name (Luca Guadagnino, 2017), quando, sentados num canapé da casa de verão, o pai arqueólogo desenvolve algumas reflexões, em forma de “educação sentimental”, para serem reflectidas pelo filho, adolescente de dezassete anos, em estado vulnerável: este rapaz acabara de sofrer a sua primeira perda amorosa, no adeus ao recente amante, que fora hóspede nessa casa de férias, na Lombardia italiana, durante o verão de 1983; recente amante que era um jovem adulto americano, arqueólogo-estagiário.

»»»»» Aquele conselho ocorre enquanto consolação possível: é importante que ele viva isso, ou seja, a experiência do sofrimento pelo termo de uma relação significativa, por isso mesmo irrepetível — por ser a primeira e por ser tão significativa. O pai percebe, pelo que viu acontecer e pela turbação em que vê o rapaz, que o que ele sentiu, ou eles sentiram, uma amizade, “ou mais que amizade”, concede benevolamente, foi algo que raramente acontece numa vida, ou nem chega a acontecer. Esse não-acontecer o pai reconhece consigo, na sua experiência, depreendendo-se, por essa revelação, que não inclui o seu casamento com a actual mulher no âmbito de tal “encontro” raro, acaso único, entre dois seres. E situa-se, neste seu aconselhamento: ele não é desses pais que prefeririam que o filho esquecesse tudo e depressa, tratando-se por acréscimo de um caso homoerótico, e se orientasse de preferência para as raparigas, com uma das quais passou por um envolvimento sexual, nessas férias. Demarca-se assim de uma visão normativa. Faz a revelação, que anotei antes, do não-acontecer passional ao longo do seu curso de vida, sem definir, no entanto, se os eventuais casos que lembra teriam sido hetero se homo, casos a que ele se furtou, ou que a ocasião não favoreceu.

»»»»» E é testemunha agora da emergência desse sentimento, algo para além da inteligência, diz ele, porque Oliver, o jovem arqueólogo, era constitucionalmente bom; e Elio, o adolescente, também, embora este considere o outro melhor, ao que o pai replica que o outro, reciprocamente, o considerará melhor…

»»»»» Perante a perda que testemunha, o pai expande a sua reflexão: Elio talvez preferisse sentir nada, quisesse esquecer, o que seria um desperdício, deixar de sentir o que essa experiência sentimental lhe proporciona — o sofrimento da perda e o prazer do que viveu, sendo este já memória. Daqui decorre que uma memória grata enriquece a sensibilidade, a capacidade emotiva: não dizendo isto, o pai diz, entretanto, que quem se esforça por “esquecer”, despende em tal esforço energias que o desgastarão e secarão emocionalmente a médio e longo prazo; só se tem um coração e um corpo, cada um decidirá o que fazer com eles; poderá o coração “esgotar-se”, e o corpo, esse, ao envelhecer, deixa de despertar atenção e desejo.

»»»»» O pai diz ainda, algo enigmático, mais ou menos isto: “a natureza tem um modo astuto de nos atingir no nosso ponto mais fraco”. A esta reflexão subjaz um propósito epicurista, de que a vida desta família judaica se aproxima. O modo serenamente “clássico” deste pai coaduna-se com a sua profissão de arqueólogo, desvendando fabulosos pedaços de membros e belos troncos sensualmente inclinados, atribuíveis a Praxíteles.

»»»»» Elio terá ponderado tais reflexões, e o último plano do filme, um longo plano fixo do seu rosto, iluminado pelas chamas da lareira, reflecte, pelos matizes emotivos, em milesimal underacting, e pelo que o espectador nesse rosto-espelho projecta, uma perceptível melancolia: estado de sofrimento, embora apaziguado pelo algum tempo que entretanto passou, do verão à paisagem de neve, descrição exterior dada previamente numa breve panorâmica.

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Tesão adolescente & ejaculação precoce

»»»»» O adolescente Elio passa por um envolvimento sexual com uma das raparigas que povoam essas férias, Marzia, e fala sobre isso com o pai e o jovem-adulto Oliver, mas utiliza-a um tanto como escape da sua frustração quanto às ausências nocturnas de Oliver, “traitor” pelo qual sente uma atracção-em-abismo. Aquele erotismo hetero do adolescente tem a sua máxima expressão narrativa na sequência em que ele conduz Marzia até ao sótão da casa. Esta sequência ocorre no contexto do que se afigura um avanço decisivo na aproximação que se ia delineando entre ele e Oliver: em resposta a um bilhete manuscrito, este último apraza encontrarem-se ali em casa, onde dormem em quartos contíguos, à meia-noite. Agora atento ao relógio, onde vai vendo durante o dia as horas ansiosas que faltam para esse encontro da meia-noite, Elio conduz Marzia até ao sótão, onde “passam o tempo” em actividades sexuais, mas já ficara explícito que, nas ocasiões de sexo entre estes jovens, tudo acontecia com algum descaso e ejaculação precoce do rapaz, que se desculpa por isso mesmo. Mais tarde, já numa das sequências conclusivas, Marzia entende a infelicidade de Elio e, não deixando ela de o amar de um amor sem retorno, concluem um pacto de amizade para-sempre.

»»»»» Também Oliver, por seu lado, dança com as raparigas, entra num jogo de sedução com a anterior namorada de Elio, para ambíguos ciúmes deste, mas tal flirt vai ter contornos fluidos, inconsequentes. De resto, as raparigas no filme representam um papel só decorativo, com excepção de Marzia, a tal jovem que confessa o amor a Elio. E é no âmbito hetero que Oliver se situa: na última sequência, já no inverno, ele telefona dos Estados Unidos, e anuncia o seu próximo casamento, desfecho de relações intermitentes com a actual noiva, ao longo de dois anos, diz ele.

»»»»» O campo que se define para Elio é o de uma sexualidade polimórfica, sendo a componente homo a que o domina, de modo sensualmente difuso e perverso: a vista do pescoço de Oliver, de onde pende a medalha judaica; o cheiro dos calções de banho do mesmo, deixados ao acaso, nos quais Elio envolve a cabeça; o toque com os dedos dos pés, já sentados ambos na beira da cama onde estão a tentear a primeira situação de sexo; a masturbação com o alperce a que tirara o caroço, em dia subsequente a esse primeiro envolvimento sexual. Mas antes de se chegar a este ponto de sexo acontecido, houve um quase hermético jogo de sedução e de hesitação da parte do jovem estagiário americano, enquanto Elio tendencialmente persiste sempre na aproximação sexual. Em algum momento em que eles se encaram, após uma conversa subtilmente reveladora conduzida pelo adolescente, e motivada à distância pelo comentário a uma passagem do Heptameron, Oliver diz “tu tornas as coisas difíceis para mim”, ou seja: ele encontra-se exposto ao desejo, mas quer furtar-se a uma situação socialmente comprometedora. E no entanto, tentara desportivamente uma sedução no campo-de-vólei, ao fazer-lhe uma massagem nos ombros, mas este gesto pareceu molestar o rapaz — Oliver confessa, quando a relação já era sexual, que tentara dar-lhe um sinal ao massajar-lhe os ombros, interrompendo a partida de vólei com as raparigas, na qual Elio não participava. Enfim, Oliver não quer envolver-se (“não me podes dizer essas coisas, não podemos falar disso”), mas não pode deixar de o fazer — o desejo prevalece e também, é possível induzi-lo tendo em conta o seu carácter, uma cedência generosa face ao apelo instante do rapaz, no qual percebe uma intensa angústia erótica.

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»»»»» Nesse momento de pequena perversão em que Elio, no sótão, se masturba para dentro de um alperce descaroçado, perversão que Oliver, entretanto aparecido, lhe descobre e lhe responde com outra perversão, que seria a de comer o alperce-masturbado, trava-se entre eles uma pequena luta, porque Elio lhe quer impedir esse gesto, luta defluindo numa quebra emocional do rapaz, que encosta a cabeça no peito do amante e diz-lhe a chorar: “I don’t want you to go”. Esta cena define uma inflexão no percurso do filme, que a partir daí vai conjugar a plenitude do prazer amoroso desabrochado com a melancolia prévia da separação prevista e por força inevitável. Espicaçado por esta melancolia, o prazer vai ganhar contornos de euforia exasperada na curta viagem que os dois fazem a uma estância alpina, viagem sugerida e proporcionada pelos progenitores de Elio, entendendo a amizade que liga o filho ao estagiário.

»»»»» E termino este texto no ponto onde terminei o texto anterior (Aconselhamento paterno, inserto neste sítio): o sofrimento frente à lareira, após o telefonema de Oliver, em que anunciava o seu casamento, e também constatava que o pai e a mãe de Elio sabiam o que houvera entre eles, felicitando-o pela sorte em ter tal pai, que o seu o internaria imediatamente numa “casa de correcção”; mas, mais importante, lhe diz que se lembra de tudo (“I remember everything”). Após estas palavras ao telefone, Elio curte frente à lareira o sofrimento, talvez rememore esse tudo que o outro diz lembrar, sendo aqui definível a sua melancolia enquanto essa mistura de memória do gozo e de sofrimento actual. Almeida Garrett define isto mesmo que entendo por melancolia na vertente sentimental, ou enquanto perda sentimental, por meio de um verso lapidar: “doce pungir de acerbo espinho”.

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Didactismos subjacentes

»»»»» Farei alguns reparos em relação a esta película, Call me by your name, a qual, apesar de agradável, apresenta limitações, quanto a mim, que decorrem da marca Ivory — James Ivory assina o argumento, mas creio que não só, a sua marca está impressa em vários aspectos do filme e, sendo marca, as tais limitações não serão limitações, serão fabrico-de-marca.

»»»»» Uma das facturas de marca reduz a atracção-em-abismo de Elio e o dilema moral de Oliver a uma correcta superfície, não por falta de recursos dos actores, mas por insuficiente densidade fílmica: a densidade, por exemplo, que Rossellini imprime aos abismos de Ingrid Bergman. Assim, a ideia que dá título ao filme, a de se nomearem os protagonistas em vertigem-amorosa pelos nomes trocados, fica-se por ideia-só, de que se rasurou boa parte da vertigem, simbolicamente figurada pela impetuosa queda de água das montanhas alpinas.

»»»»» Outra dessas facturas consiste em que, para lustrar essa mesma bela superfície, se afigure necessário utilizar a estatuária clássica como álibi da homossexualidade, recurso dos estetas dos séculos XIX-XX, e se torne inevitável incluir o diálogo justificativo sobre a inclinação dos corpos, apelo sensual, nas estátuas gregas atribuídas a Praxíteles,

»»»»» À marca Ivory acrescentaram-se uns propósitos didácticos: nada a opor a didactismos, não perturbando eles intrusivamente o fluxo ficcional, quando de ficções se trate, e aliás tais propósitos percorrem muito instrutivamente recentes filmes franceses de temática homossexual. Este filme de Luca Guadagnino, não sendo ostensivamente didáctico, distribui no entanto, pela sua trama narrativa, alguns ensinamentos para quem queira ou possa aprender com eles:

»»»»» Primeiro,) o da delicada teia que vem a ser a atracção física, nem sempre simétrica, e a revelação mútua da mesma, nem sempre fácil; revelação aqui moderada por uma passagem do Heptameron, lida num serão pela mãe de Elio.

»»»»» Segundo,) o do cuidado, na fronteira da insegurança, posterior à prática sexual — Oliver preocupa-se quase obsessivamente em saber se o adolescente não ficou sob alguma impressão traumática, e se continua com a vontade sexual intacta e desperta.

»»»»» Terceiro,) mais óbvio ensinamento, o proporcionado pela tranquila e longa conversa entre pai e filho, que vem mais longamente abordada no primeiro texto, sob o título Aconselhamento paterno, desta sequência de três.

 

 

 

NOTAS:

»»»»» 1. A obra Heptameron (publicação póstuma de 1559), colectânea de contos narrados em sete dias, da autoria de Marguerite de Navarre (1492-1549), é tema de uma conversa familiar, num serão chuvoso. Uma pergunta, feita pelo personagem de um dos contos, desempenha um papel significativo na revelação mútua do desejo entre os protagonistas do filme.

»»»»» 2. O verso de Almeida Garrett (1799-1854), cito-o de memória.

»»»»» 3. Os recentes filmes franceses muito instrutivos que me ocorreram são: Paris 05:59: Théo & Hugo (Olivier Ducastel e Jacques Martineau, 2016); Quand on a 17 ans (André Téchiné, 2016); 120 battements par minute (Robin Campillo. 2017).

 

 

António Sá

[31.01.2018 / 20.03.2018]

 

Desatino 82

Desatino / 82 [Areia-fruto]  

 

»»»»» Um repórter surge-me no ecrã televisivo, muito abrigado da chuva, de microfone em punho, e faz-me o ponto da situação:

»»»»» — A areia avançou para a estrada marginal, fruto da forte ondulação.

»»»»» Ele continuou, cheio de energia, a relatar a tempestade, mas eu já não ouvia o que ele estivesse a dizer. Fiquei para a manhã com aquela frase a pairar no pomar das lembranças, ia pensando que bom seria se todos os repórteres fossem assim poetas, ideando frutos das fortes ondulações.

 

 

António Sá

[03.03.2018]

 

notas & noções 15 (2ª série)

notas & noções 15 (2ª série)

 

“… ir acabar onde o ninguém visse.”

»»»»» Não está aqui em causa, neste “… ir acabar onde o ninguém visse.”, nenhum ser vivo, salvo seja … Trata-se do mar: vistos de terra, de um monte, as extensões marinhas vão acabar numa linha, a linha do horizonte, onde ninguém as pode mais ver para além…

»»»»» Se quisermos isolar-nos, para nos concentrarmos em coisas acaso nossas, e revermos o nosso curso planetário, não sendo nós embora estrelas, salvo seja… curso planetário nosso feito de muitas mágoas, escolhemos um “ermo” inabitado, monte, vales e mar, onde haja por ali uma casa nossa onde nos abriguemos e passemos as noites, talvez maldormidas. Podendo escolher um monte, entre alguns montes sitos na mesma região, escolhemos aquele monte, uma tal topografia de onde emane uma “saudade”, que melhor se ajuste ao nosso turvado ânimo.

»»»»» Assim foi com a Menina e Moça, ou que assim o fora, por esta denominação a conhecemos, outra não nos será facultada, e que vem a ser a primeira narradora a introduzir a novela de Bernardim Ribeiro, novela justamente e abreviadamente conhecida por esse mesmo nome, mas cujo título, com que foi impressa, é Hystoria de menina e moça (1ª impressão: Ferrara, 1554).

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»»»»» Por essa natureza inabitada deambula a personagem e narradora Menina e Moça, ou que assim o fora, porque ela se apresenta como estando já distante dos tempos de meninice, e de tais deambulações leia-se a reportagem da mesma:

»»»»» Nesse monte mais alto de todos que eu vim buscar pela saudade diferente dos outros que nele achei, passava eu minha vida como soía [= segundo este costume]: ora em me ir pelos fundos destes vales que o cingem em derredor, ora em me pôr do mais alto dele a olhar a terra como ia acabar ao mar, e depois o mar como se estendia logo após ela, para se ir acabar onde o ninguém visse.

»»»»» E mais adiante esta narradora volta a situar-se:

»»»»» E ainda bem que não foi alto o dia, quando eu (…) determinei ir-me para o pé deste monte que de arvoredos grandes e verdes ervas e deleitosas sombras cheio é, por onde corre um pequeno ribeiro de água de todo ano, que nas noites caladas o rugido dele faz no mais alto deste monte um saudoso tom que muitas vezes me tolheu o sono a mim (…).

»»»»» Assim seria. E se, numa caminhada, tal como o referi em notas imediatamente anteriores, eu tenderia a uma ordenação das ideias e, por eventual acréscimo, a um apaziguamento e a um sono sossegado, a Menina e Moça, tal como o declara entre estas duas descrições de paisagem, obtém, por força dos seus “cuidados”, ou seja, sofrimentos trazidos pela rememoração de males anteriores e perspectiva de males continuados — obtém uma redobrada inquietação que, junto com o “rugido” da água do ribeiro, lhe impedem um sono sossegado.

»»»»» Assim que, para um sono sossegado, abstracção feita do “rugido” da água, nem todos os remédios serão bons. Haverá quem defraude um banco em milhões, e durma, ou assim o declare, um sono sossegado, quaisquer que venham a ser os “rugidos”. Proponho então uma pequena “filosofia”: nem sempre os mesmos remédios são recomendáveis para diferentes doentes com os mesmos males.

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. Para a novela de Bernardim Ribeiro (1482 ?-1552 ?), utilizei a fixação do texto de Helder Macedo, Publicações Dom Quixote, 1999 (1ª edição: 1990). Os fragmentos transcritos constam das páginas 79-81.

»»»»» 2. A foto mostra uma perspectiva da estátua Bernardim Ribeiro (António Alberto Nunes, 1891), exposta no Museu de Évora.

António Sá

[13.02.2018]

notas & noções 14 (2ª série)

notas & noções 14 (2ª série)

 

a auto-reflexão e as impossibilidades

»»»»» Há uma capacidade que uns têm e outros não — constato-o, não o julgo — de produzirem uma reflexão sobre si mesmos e seus respectivos lugares no mundo, constituindo o conhecimento daí adveniente a possibilidade de serem — e de abrirem a outrem a possibilidade de ser. Essa capacidade, quando existe, acontece pelo menos desde a adolescência, funda-se simplesmente na educação vulgar e na experiência vivida, também ajudando alguns genes herdados (conceda-se que a inteligência herdada não é uma igual herança para todos os seres humanos).

»»»»» Trata-se tão-só da experiência vivida e sua filtragem emocional e racional ou emotivo-racional. As comuns actividades sociais, as conversas, as leituras certas (que não o de há muito invasor “lixo ocidental”, na fórmula de Marguerite Duras) e a fruição das várias modalidades artísticas que a cidade oferece — tudo é útil e necessário para a lúcida auto-reflexão e consequente autoconsciência. E, para estas, a psicanálise é um modo privilegiado, mas não indispensável. Também não são indispensáveis a caminhada-sem-objectivo, nem a meditação zen, nas quais centrei as notas & noções 13. Em suma, basta filtrar, com a sensibilidade e a inteligência disponíveis, a experiência vivida, analisá-la e reflecti-la (em todos os sentidos), para se ter uma noção aproximadamente justa sobre si-mesmo, e uma eventual relação justa com outrem.

Giorgio de Chirico 001

»»»»» Nessas notas & noções 13, apontei a inviabilidade dos seres obtusos, que tanto intrigaram Gustave Flaubert, e sobre cuja imbecilidade Baudelaire fez um mordaz poema-em-prosa, acederem a um conhecimento de si-mesmos e sua inserção no mundo. Quando muito, acedem a um autoconhecimento qualitativamente mais distorcido que no comum dos mortais (porque há sempre margens de distorção em todos os humanos). Tal decorre de uma incapacidade congénita que não sei entender: filtram a experiência vivida circunscrevendo-a a mecanismos e esquemas de funcionamento vital mais ou menos inflexíveis, e aí ficam enclausurados. Esta estrutura cognitiva da estupidez também ocorre nos neuróticos e nos psicopatas, mesma não sendo estúpidos, que podem não sê-lo.

»»»»» Nessa minha síntese comportamental e caracterial dos seres obtusos, anotei: a surdez-mental, ou seja, a incapacidade de escutar outrem, sendo que ouvir ouvirão, mas não escutam; anotei também as certezas inamovíveis, ou movivelmente dependendo das ditaduras e derivas da doxa, da qual, aliás, se alimenta o ser obtuso. Claro que a psicanálise lhes passa ao lado — só elaborariam a sua irremediável estupidez. Caminhada ou meditação, práticas relativamente minoritárias, também não lhes seriam úteis. Mas enfim, é certo que vivem felizes e contentes consigo mesmos; e são partícipes, para grande estrago, de parte substancial do governo do mundo — o mundo em rotação de que todos somos parte.

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. Registei, de há muito, esta feliz fórmula de Marguerite Duras, “lixo ocidental”, referindo-se a livros e filmes nulos, que invadem massivamente o espaço dito cultural. Tanto quanto lembro, ocorre numa entrevista.

»»»»» 2. O texto referido de Charles Baudelaire intitula-se Un plaisant, integrando a sequência Petits poèmes en prose (1855-1866).

»»»»» 3. Doxa é um termo cunhado por Roland Barthes para significar as mil e uma ideias~feitas, farrapos de ideias, inércias de ideias, tanto irreflectidas quanto correntes, que se impõem, nos espaços mentais das classes médias e populares, enquanto verdades tão “naturais” e “essenciais”, que nem é viável questioná-las: à doxa todos se devem submeter.

»»»»» 4. Para melancolizar estas notas, uma iconografia possível é a melancólica tela Mistério e melancolia de uma rua (Giorgio de Chirico, 1914). Um convite a uma caminhada ao longo das arcadas.

»»»»» 5. Para facilitar o confronto entre estas observações e as referidas notas & noções 13, constantes neste sítio, insiro-as a seguir.

 

António Sá

[06.02.2018]

 

 

 

 

notas & noções 13 (2ª série)

 

caminhar enquanto modo de silêncio e de autoconsciência, quando esta é viável

»»»»» Caminhar enquanto modo de buscar o silêncio ou, se acaso, a ressurgência interior. A acção, aqui, não tem outro objectivo senão o mesmo caminhar, ao contrário do comum das acções, essas que se realizam com um objectivo, e que são, quando não um modo de sobrevivência básico, uma forma de escape.

»»»»» O próprio silêncio, se ele existe, e ao qual procuram aceder os que praticam meditação zen; esse silêncio, se tal existe, seja ao menos uma aproximação ao silêncio, proporciona uma ordenação ou reordenação mental. Mas, bem-entendido, tal labor mental só é viável caso não se seja de todo estúpido, essa categoria tão inexplicável e misteriosa para Gustave Flaubert — e tão vastamente expandida.

»»»»» O silêncio interior entende-se enquanto modo de escuta atenta ao ser e ao mundo — e não é viável para os seres obtusos, que estão submetidos a uma inescrutável surdez-mental e a flácidas certezas; em consequência da surdez e das certezas, são judicativos, imperativos, invasivos, tão implacáveis quanto imunes a observações alheias; e são sempre inabalavelmente contentes e convencidos-de-si.

»»»»» E regressando ao caminhar sem outro objectivo que não seja o mesmo caminhar: Jean-Jacques Rousseau, Ralph Waldo Emerson, Arthur Schopenhauer, entre tantos outros, faziam e refaziam ideias caminhando.

 

António Sá

[28.12.2017/30.01.2018]