Desatino 84

Desatino / 84 [Cabelo d’óculos]       

 

»»»»» À saída de uma tasca, numa rua íngreme e fadista desta medieval Lisboa, um velhote, adernando como barca em procela, inclina-se para um compincha como ele em regime instável, e grita-lhe ao ouvido:

»»»»» — Foi aquele gajo!

»»»»» — Quem? — grita o outro.

»»»»» — Aquele gajo! O cabelo d’óculos!

 

 

António Sá

[27.04.2019]

 

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Imaginação 11

Imaginação / 11 [A agitação de Lok]

 

»»»»» Lok retorquia de modo atabalhoado, espumava da boca fios de espuma branca, entre as gretas dos lábios multiondulados e castanhos. Argumentava em estado de agitação disparada em todas as direcções, mas em movimentos frustres, bloqueio inerente a um estado de paroxismo. Discorria contra qualquer outro argumento defendido por Glok, que tartamudeava e girava sobre si mesmo. E tanto quanto Lok argumentava, e enquanto argumentava, como um irado deputado parlamentar, os órgãos internos atravessavam-lhe as paredes da epiderme. Gesticulava, e o coração, os pulmões, o fígado, os rins entravam a flutuar à sua volta, estremeciam ao ritmo a que ele produzia os seus movimentos frustres, e afastavam-se ao sopro das suas vociferações.

 

António Sá

[18.04.2019 (retomando uma nota solta da década de 1990)]

 

Desatino 83

Desatino / 83 [Um voto de morte pacífica]           

 

»»»»» Nesta hoje medieval lisboeta urbe, dois amigos, num passeio fronteiro a um bar nocturno, conversam, e a conversa parece enveredar por zonas de conversação insolúvel. Um deles, em colapso de palavras, desce para o meio da estrada com dois sentidos, mas trânsito raro àquela hora, e estende os braços em pose de crucificado; o outro, placidamente estacionado na berma, diz-lhe:

»»»»» — Morre em paz.

 

 

António Sá

[05.04.2019]

 

Pluriplicante 14

Pluriplicante 14 (…sobre emigrantes)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

 

»»»»» A vida da espécie dita humana sobre o planeta que lhe aconteceu é vida de migrações. Nunca foi de outro modo desde que a espécie se diferenciou enquanto tal, nem o é nos nossos dias, em que as migrações são fonte de dissensão e de violência em todos os continentes. Os Estados Unidos da América e alguns países europeus fecham, ou pelo menos tentam fechar as fronteiras, mas há-de ser o mesmo que levantar barreiras litorais contra o Oceano Pacífico, como explicou Marguerite Duras a outros propósitos. Podem dirigentes autocratas levantar muros e muralhas, que servirão, no longo devir dos povoamentos, para serem derrubados, quando não se tornem trágicos monumentos históricos com algum interesse turístico. Os fluxos migratórios são inerentes à espécie mamífera humana, não só devido a conflitos armados ou a insustentáveis governos entregues a derivas mais ou menos tresloucadas e cruentas, mas muito pela incessante, compulsiva busca de lugares onde sobreviver e viver melhor, mais expansivamente. Processo infinito que se continuará ainda quando a espécie emigre para outro planeta em busca de melhor vida, por ser já este nosso inabitável.

»»»»» Ocorreu-me este considerando ao longo da longa projecção da película Os emigrantes (Utvandranarna, Jan Troell, 1971), cuja acção se situa no ano de 1844 e seguintes, até 1850, quando na Europa amadureciam já quer o movimento romântico, quer o estilo neoclássico, como rezam e juram os muito informativos manuais de literatura e arte. Entre parênteses anoto que o drama histórico Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, tivera a sua primeira apresentação justamente no ano de 1844, e Portugal saía de longa guerra civil, que seguramente de guerras civis e outras, mais ou menos tresloucadas e cruentas, se fizeram e refizeram, se fazem e refazem, se farão e refarão os países, as nações e os estados, assim há-de ser enquanto existir a espécie animalhumana, por inevitabilidade congénita.

»»»»» Situados na Suécia campesina de 1844, familiarizamo-nos com duas famílias, a de um agricultor e a de um padre.

»»»»» Família ortodoxa a do camponês, ortodoxa do ponto de vista das relações intrafamiliares, no contexto da geral pobreza, se não miséria, do campesinato europeu à época. O pater familia (Max von Sydow), tem dificuldades tendencialmente insuperáveis para obter os rendimentos capazes de assegurar a sobrevivência dos seus: a legítima mulher (Liv Ullmann) e os filhos, que se sucedem uns aos outros, porque a vontade sexual não esmorece entre marido e mulher que se querem. As secas e as invernias; os maus tratos sofridos pelo filho varão da parte de um camponês vizinho, de quem era assalariado, e a subsequente perseguição judicial de que é alvo, por se recusar a cumprir o prazo do contrato, tornando-o um fugitivo: tudo concorre para que este filho e o pai coincidam no projecto de partir para a América.

»»»»» Família heterodoxa a do padre protestante, que gere em modo de rebelião pacífica os seus paroquianos, pequena comunidade de crentes heterodoxos, no sentido de visceralmente críticos do poder representado pelo presbítero, que é o tipo de superior hierárquico vilão e venal: fabrica e vende aguardente; e rege, segundo os seus interesses, as populações rurais a seu cargo. Esta família, heterodoxa em relação ao poder eclesial instituído, centra-se assim em redor do padre visionário e radical, desde logo perseguido e acuado, e compreende: a sofrida esposa deste, alguns párias talvez mentecaptos talvez só raivosos, além de duas prostitutas convertidas à virtude.

 

Troell 1 001 (2)

»»»»» Em algum momento, estas duas famílias comunitariamente vizinhas se aliam no projecto de partir, e o longo movimento segundo deste filme é a longa viagem de meses numa estreita caravela da primeira metade do século XIX. Do meu muito antigo anterior visionamento deste filme, que revejo agora-entretanto, com impacto atenuado pela percepção do evidente carácter programático das sequências, são breves episódios desta viagem que me ficaram e relembro, em particular o da infestação de piolhos a bordo, primeiro detectada com patética expressividade pela bergmaniana Liv Ullmann, nesta prestação oscarizável de mulher campónia.

»»»»» Enfim, o terceiro movimento é o das lentas, progressivas impressões do desembarque, o primeiro contacto com a negritude e os destroços humanos do caos portuário, os mercados frutícolas, os prados acolhedores; mais tarde, a progressão território adiante, de comboio e barco-a-vapor, até ao Minnesota e à pobre cabana do desvalido jovem-adulto sueco, que os precedera na aventura migratória.

»»»»» O filme tem um fôlego de epopeia, as imagens avançam, no seu registo realista, apalpando terreno, acumulando apontamentos de modo elíptico e aéreo. Este modo de progressão narrativa, que acusa no entanto uma fidelidade programática linear, torna-se patente nas vinhetas semeadas em todas as sequências do desembarque na “América”. O realismo minucioso na reconstituição histórica, bem como o lento mas fluente curso narrativo, são características, talvez herança que passa para o cinema de Kelly Reichardt: penso sobretudo nesse minudente filme (Meek’s cutoff / O atalho, 2010) em que, no século XIX norte-americano, uma caravana de pioneiros avança para o nada, numa viagem sem chegada nem retorno, por infinitos territórios do mítico Oeste.

 

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1, Marguerite Duras escreveu um livro sobre o materno trabalho, ingente e baldado, de erguer, na propriedade agrícola que comprara, barreiras contra o avanço das marés, na Indochina à época francesa: Un barrage contre le Pacifique (1950).

»»»»» 2. O referido filme de Jan Troell teve estreia em Portugal a 8 de junho de 1973.

»»»»» 3. Não tenho memória de quando e onde vi o filme de Kelly Reichardt, datado de 2010, mas guardei-o na memória, ao contrário de outros muitos filmes de que memória nada ou pouco ficou.

 

 

António Sá

31.03.2019

 

 

Pluriplicante 13

Pluriplicante 13 (… para reflexão universal dos juízes)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Há quem considere que os juízes enveredaram por maus caminhos, não distinguindo o que é importante do que é insignificante, Para esclarecimento e edificação dos ditos, proponho-lhes um meritório texto, produzido pelo eminente reverendo Charles Lutwidge Dodgson, também emérito professor de Matemática. Escreve ele o seguinte, a páginas tantas: “(…) o juiz era o Rei. Usava a coroa sobre a peruca (…), não parecia sentir-se muito confortável (…)”. Algumas páginas adiante, ocorre então o texto, no qual o Rei-juiz interroga a menina Alice, com intervenção do Coelho Branco e, se bem reflectirem sobre os ensinamentos aí contidos, os magistrados encontrarão motivos inspiradores para emendar a mão e ganhar de novo a merecida consideração pública que, como é voz corrente, se encontra pelas ruas ditas da amargura:

 

»»»»» — O que sabes deste caso? — perguntou o Rei a Alice.

»»»»» — Nada — respondeu Alice.

»»»»» — Nada mesmo? — insistiu o Rei.

»»»»» — Nada mesmo — confirmou Alice.

»»»»» — Isso é muito importante — disse o Rei, voltando-se para os jurados.

»»»»» Estes começaram imediatamente a escrever nas lousas, quando o Coelho Branco atalhou:

»»»»» — Insignificante, é o que Vossa Majestade deve querer dizer.

»»»»» O Coelho Branco usou de um tom muito respeitoso, mas não deixou de franzir o sobrolho e de fazer caretas enquanto falava.

»»»»» — Insignificante, claro! Era isso mesmo que eu queria dizer — apressou-se o Rei a admitir.

»»»»» E continuou, em voz baixa, como se procurasse a palavra que lhe soava melhor:

»»»»» — Importante… Insignificante… Insignificante… Importante…

»»»»» Uns jurados escreveram “importante” e outros “insignificante”. Alice apercebeu-se disto porque estava mesmo ao pé deles e conseguia ler o que anotavam nas lousas. “Mas não tem importância”, pensou.

»»»»» Nesse momento, o Rei, que estivera ocupado a apontar qualquer coisa no livro, pediu silêncio e leu em voz alta:

»»»»» — Regra número quarenta e dois: Todas as pessoas que tenham mais de mil e quinhentos metros de altura deverão abandonar o tribunal.

»»»»» Todos olharam para Alice.

»»»»» — Eu não tenho mil e quinhentos metros de altura! — disse Alice.

»»»»» — Ai isso é que tens — disse o Rei.

»»»»» — Tens quase três mil metros de altura — acrescentou a Rainha.

»»»»» — Bem, de qualquer modo, não saio daqui — disse Alice. — Além disso, não há norma nenhuma: Vossa Majestade inventou-a agora mesmo.

»»»»» — É a norma mais antiga do livro — teimou o Rei.

»»»»» — Então deveria ser a número um — disse Alice.

»»»»» O Rei empalideceu e fechou o livro, à pressa.

»»»»» — Considerem o vosso veredicto — ordenou aos jurados, com a voz a tremer.

 

»»»»» Trata-se, portanto, da magna, considerável questão inerente ao ajuizamento de cada caso, a saber, a questão da importância e da insignificância.

»»»»» Por acréscimo, este texto ensina como produzir normas oportunas e válidas. E, por extensão, apropriados acórdãos bíblicos, mesmo quando, notoriamente, o juiz eventual fazedor de acórdãos não sabe ler, muito menos interpretar, nem a Bíblia, nem os jornais, nem a comunicação televisiva, et cetera. “Mas não tem importância”, como pensava Alice.

»»»»» Enfim, muito se aprenderia, lendo os bons clássicos, se fosse caso disso. Assim os juízes os houvessem de ler, deles entendendo alguma pouca coisa, e deles colhendo proveitosos exemplos.

 

John Tenniel 2 001 (2)

Pormenor de uma ilustração de John Tenniel para Alice no País das Maravilhas

 

»»»»» Referência: para os passos transcritos de Alice no País das Maravilhas, foi utilizada a tradução do livro de Lewis Carroll (pseudónimo de Charles Lutwidge Dodgson) por Maria Filomena Duarte, editada nas Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988, e de cuja edição se reproduz uma das ilustrações originais de John Tenniel.

 

 

António Sá

17.03.2019

 

Diálogos perfeitos 2

Diálogos perfeitos / 2

[A irracional dúvida sobre o bom caminho]

 

— ‘Tamos no bom caminho.

— Oh, oh, se ‘tamos! Nem outro caminho vejo eu à minha frente…

— De facto… há lá melhor caminho?

— Não há, não há! Quem diz o contrário? ‘Tamos bem, ‘tamos muito bem sim senhor…

— Claro que sim, claro que ‘tamos bem… Mas… apesar desta convicção, vou imaginar esta pergunta: será que viremos a ‘tar melhor?

— Claro que sim, claro que sim. Ninguém ignora que aí está o progresso para nos ajudar a melhorar.

— Mas… continuo a indagar: será esse o caminho? Não haverá lugar para a hesitação, a dúvida? Vejamos: pode-se postular a dúvida… mesmo que irracional, concedo…

— O meu amigo duvida?! Eu, asseguro-lhe, não duvido! Não duvido nunca! Não há que duvidar: não há outro caminho!

— Também eu não duvido. Mas podemos supor a existência da dúvida. É um supor. Em todo o caso… é claro que há um só caminho, o bom caminho

— Aí está! Assim que ‘tamos no bom caminho…

— ‘Tamos, ‘tamos…

— E considere, meu caro amigo: que caminho!… que grande caminho! A dúvida só pode ser irracional!

— Sim, que grande caminho! Como pode haver lugar para a dúvida? Ora vejamos: este é o caminho do bem-estar dos povos, da felicidade íntima dos indivíduos, da harmonia e concórdia universais!…

— E pensarmos nós que o progresso traz tudo isso!…

— Se traz!

 

António Sá

[2004 / 26.02.2018]

Diálogos perfeitos / 1

Diálogos perfeitos / 1

[Progressos diferentes]

 

— Já reparou que, desde que o progresso veio, as coisas ficaram diferentes?

— É mesmo!

— É assim. O progresso traz sempre diferenças assinaláveis!

— Pois é! ‘Tamos todos muito melhor!

— Se-es-ta-mos! E quem dera que mais viesse, porque quanto mais vier, isto lhe asseguro eu… quanto mais vier, melhor…

— Que cresça!

— Que cresça e floresça! E dê frutos e sementes! Sementes que germinem…

— É tão belo ver tudo germinar…

— E tudo germina a seu tempo, conforme a sua natureza, com todas as suas variantes, e por isso tudo participa do mesmo imperativo, portanto tudo é o mesmo, mas tudo é diferente ao mesmo tempo: assim o progresso que veio é um mesmo, sendo diferente de todos os outros qu’houve…

— Sim, claro — cada progresso é diferente, à sua maneira…

— Sempre diferente! Cada progresso traz folhas novas, novas leis e decretos, páginas, sites… Tanta coisa traz o progresso!

— É um nunca-mais-acabar! E tudo diferente!

— E não estamos assim tão melhor, tão mais cómodos, prósperos, alegres?

— Se ‘tamos!

— Quem dera venha mais, melhor e mais diferente, para ficarmos alegres, mais alegres…

— (Silêncio reflexivo.) Sim, isso… e mais, muito mais!…

 

António Sá

[2004 / 12.02.2019]

Imaginação 10

Imaginação / 10 [Na floresta…]

 

»»»»» … há uma vereda que leva aonde se vai talvez chegar. Por ela serpenteia um grupo desportivo, segue por esse caminho entre as árvores, não, não são desportistas… são monges de um mosteiro escondido em qualquer dobra da vereda.

»»»»» Seguem por essa vereda que não chega a ser, perde-se na natureza, indistinto o que são plantas e árvores do que é vereda em toda a sua extensão. Não é visível para que serve os monges… não, não são monges, são militares perdidos, esfarrapados de uma guerra antiga… usarem um caminho que não se distingue do que é floresta.

 

António Sá

[texto escrito a 25.01.2011 / reescrito a 07.12.2018]

Pluriplicante 12

Pluriplicante 12 (… sobre instituições)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» De vários comentadores, nas televisões, ouvi a espécie de confissão mística de que acreditam nas instituições. Confiam ou querem confiar nelas plenamente. Esquecem um pormenor, não despiciendo mas fundador: desde todos os tempos e para todos os tempos, as instituições são propriamente instituídas por seres humanos. Explicam tais comentadores que algum ou alguns destes seres, por comportamentos fraudulentos ou criminosos, mancharam ou conspurcaram esta ou aquela instituição, mas tais desvios ou crimes não são factores susceptíveis de minar a crença e a confiança nas instituições em causa, porque outros seres humanos impolutos e bons, substituindo os prevaricadores, farão esplender essas mesmas instituições.

»»»»» Estes propósitos vieram a propósito de um caso de contornos obscuros e guião detectivesco, que foi o roubo de material militar, guardado em paióis das Forças Armadas (FA), e posterior devolução do mesmo, caso em que, segundo se vem revelando, estão envolvidas altas patentes e chefias da Polícia Judiciária (PJ), da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia Judiciária Militar (PJM), e dele seria conhecedor o próprio ministro que preside ao Ministério da Defesa (MD). É mesmo assim: os criminosos e os coniventes e encobridores de criminosos, um dos quais revela que esteve em curso uma “encenação” no episódio de achamento das armas, situam-se no topo de algumas das mais determinantes e, diz-se, prestigiadas instituições da nação portuguesa.

Tancos 1 001

»»»»» PJ, GNR, PJM, MD — tudo siglas de instituições que, quais divindades contemporâneas, estariam acima da comum humanidade e, enfim, acima de quaisquer suspeições. Em contraponto, líderes de partidos à esquerda e à direita insistem, ajuizadamente, no necessário escrutínio das instituições. Creio, no entanto, que os escrutinadores serão seres humanos — logo, seres sujeitos a errar. Mas enfim, além de necessário tal escrutínio, eu acrescentaria que este fosse igualmente constante e ainda infinito… sabendo, embora, que há uma eterna mescla de ingenuidade, de invenção e de audácia humanas capazes de fintar todas as regras institucionais e todos os bons e maus escrutínios.

 

António Sá

15.10.2018

Imaginação 9

Imaginação / 9 [O autómato]

 

»»»»» Sem pensar em que ponto estou, em fuga a momentos de paragem. Sempre em movimento no decurso de dias a passarem depressa.

»»»»» Estar a ser um autómato-dos-dias, sujeito a um sobressalto agónico sempre que alguma coisa faça parar esse movimento de acção-contínua.

»»»»» Autómato-dos-dias, vaga noção das coisas, da sua realidade, da realidade dos seres, o que contraria um desejo subliminar de confronto com os seres vivos, envolvimento com a substância de que sejam feitos.

 

António Sá

[década de 1990 / reescrito a 24.09.2018]