Dezassete anos

Dezassete anos

 

Techine 1 001

»»»»» Poderei defender, creio que sem grandes contras, a assunção de que o personagem Thomas (Corentin Fila) sofre da síndrome de abandono. É um dos dois protagonistas do filme Quand on a 17 ans (André Téchiné, 2016) e, começando pelo argumento mais decisivo, o próprio personagem verbaliza o seu ressentimento ao pai adoptivo, agricultor nos Pirenéus, resmungando que o adoptaram porque não conseguem ter filhos naturais e, assim, não lhes merece a atenção que dariam a um filho próprio. No entanto, pai e mãe, esta frequentemente adoentada, são gente tranquila e cuidadora, a mãe é até doce e carinhosa, e este filho adoptivo trata-a, n’empêche, com preocupação e desvelo. Pode, por hipótese, considerar-se que a sua síndrome de abandono é anterior à adopção, corresponde a uma construção psicológica decorrente da sua experiência anterior, de criança mestiça, órfã ou simplesmente abandonada, situações pelas quais, quaisquer que fossem, o filme não se aventura. Contextualizando o feliz final na vida amorosa deste adolescente protagonista, há um desenvolvimento auspicioso na sua relação filial, já que esta mãe por adopção consegue enfim ter um filho natural, e Thomas, apesar de alguma inicial confusão e resistência, vem a aceitar com encanto o recém-nascido nos braços.

»»»»» Outro sintoma decorrente da síndrome de abandono é a pertinaz agressividade de Thomas. Vem a revelar-se, no projecto de significação do filme, que esta agressividade se funda não só no sentimento de abandono, mas ainda na auto-rejeição de pulsões sexuais. Agressividade que se manifesta sobretudo pelo exercício de bullying, desde o invernoso início do ano-lectivo, sobre um colega louro e esguio, o inteligente da turma, Damien (Kacey Mottet Klein), filho da dedicada médica-de-aldeia, que eventualmente trabalha de modo gratuito, e que acontece ser a médica a cuidar da saúde precária da mãe adoptiva do mestiço Thomas, aluno medíocre, colega isolado, bully  — isto em contexto escolar, sendo ele diligente tratador do gado na adoptiva propriedade agrícola, aspirando a ser veterinário.

»»»»» O filme centra-se na relação entre o mestiço Thomas e o louro Damien (… on a 17 ans). E não se pode considerar, senão de início, uma situação de corrente bullying, em que um esmaga o outro, porque Damien, que treina boxe com um tio, evolui para recíproca resposta. E os confrontos físicos entre ambos prolongam-se ao longo do tempo narrativo, o de um ano-lectivo, até ao verão. Mesmo quando, por força do internamento hospitalar da mãe adoptiva, Thomas é convidado a habitar na casa da médica, mãe de Damien, e contra as expectativas desta, que simpatiza com e apoia Thomas, as agressões entre os dois jovens inimigos progridem em violência espontânea e pervertem-se em violência programada, combinando-se eles o tempo e o lugar onde se vão bater, à maneira de membros de um fight club.

»»»»» Assim como fiz por argumentar quanto à síndrome de abandono do mestiço adoptado, poderei desenvolver, creio que sem nenhuns contras, algumas variantes sobre a sua homofobia, sendo que nem esta palavra, nem a palavra “homossexual”, seus derivados e afins, ocorrem nos diálogos entre personagens, quer principais quer secundárias. Quando, em algum momento, Damien revela à mãe que foi violentamente agredido (tendo de receber tratamento hospitalar) por Thomas, porque tentara beijá-lo, a mãe não se surpreende, apenas o ouve. Mesmo em todo o entrecho em que é ostensiva a homofobia de Thomas, ele não a verbaliza com algum vulgar insulto, apenas comenta que Damien lhe parece “pretensioso”, além de manifestar o seu incomodado desdém pelo facto de este usar um brinco na orelha.

»»»»» Entre perturbações da ordem e progressos, os resultados de Thomas melhoram com a sua nova vida em casa da médica, mãe de Damien, e o estudo de Filosofia, feito em colaboração entre os dois adolescentes, permite aclarar e, à la longue, desbloquear a suspeita rigidez homofóbica de Thomas, por intermédio de Platão, onde lêem que se a sexualidade entre um homem e uma mulher se destina à fecundação, a sexualidade entre dois homens proporciona a saciedade do desejo… Entretanto o recém-nascido filho natural, concebido pela mãe-adoptiva de Thomas, enquadra este, como já assinalei, no seu universo familiar agora aumentado. E, como já se perspectivara em alguns momentos de “quebra”, Thomas até aceita o apelo físico-amoroso de Damien, embora logo o rejeite com redobrada e, por isso mesmo, suspeita violência. Entre avanços e recuos, o relacionamento entre eles evolui para o erotismo efectivo e continuado.

»»»»» A abertura panorâmica do filme, montanhas e extensões nevadas, pode induzir a expectativa de personagens em estado “selvagem”, “instintivo”, como por exemplo sucede com essa “mulher selvagem” que se desencadeia nos cenários naturais de Ruby Gentry (King Vidor.1952). E, em alguma medida, as deambulações na neve e os mergulhos de Thomas, nas águas frias do rio, remetem para essa perspectiva. É uma sugestão viável, mas os personagens desta narrativa estão situados no espaço de uma ruralidade contemporânea, com o “conforto” tecnológico de um país centro-europeu economicamente desenvolvido… sendo o cotidiano e a psicologia de todos eles decorrente dos parâmetros e condicionantes da ordenação social do Ocidente. E enfim, os grandiosos cenários naturais não servem uma épica nostalgia da natureza em estado “bruto”, virgem ou quase, como sucede em Derzu Uzala (Akira Kurosawa, 1975), antes anotam as dificuldades do jovem estudante mestiço, que tem de se deslocar a pé pela neve, em parte do percurso, e depois no autocarro escolar; e anotam também o desanuviamento relacional dos jovens, coincidindo com a primavera, que se revela tão propícia como a primavera que servia aos trovadores provençais, no século XII, e galego-portugueses, no século XIII, de paisagem para as situações amorosas; estes eram “os que trobam no tempo da flor”, nas palavras de Dom Dinis, ou seja, os que cantam quando se produz a primavera.

 

António Sá

[06.11.2017 / 28.11.2017]

 

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Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho (1ª parte)

Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho (1ª parte)

 

 

 

Vivarini 2 001

»»»»» Micropormenor da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

 

 

 

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» mirad la miséria de mí, pecador.

 

 

 

 

Pés e mãos

»»»»» Em apóstrofe e prosopopeia, ou seja, dirigindo-se-lhes como seres pensantes autónomos, o Pobre do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504) interpela as pernas e as mãos: as pernas que mal podem levá-lo pelo caminho, as mãos que têm de agarrar o bordão, utensílio necessário para que o corpo se desloque no espaço:

Oh, piernas, llevadme un passo siquera;

manos, pegaos n’aqueste bordón,

(“Oh, pernas, levai-me um passo ao menos;

mãos, fincai-vos neste bordão,”)

»»»»» E, nesse movimento que realizam pernas tolhidas e mãos ingentes, as dores que descansem de tanta passión, na fórmula castelhana, ou seja, tanto sofrimento (passio, em latim):

descansad, dolores de tanta passión;

(“descansai, dores de tanto sofrimento;”)

»»»»» Mais adiante, na segunda estrofe, interpela os cristãos; pede-lhes, num exibicionismo típico de pedinte, que olhem para ele,

mirad ora el triste que estoy lastimado

de pies y de manos por mi desventura;

(“olhai ora quão triste estou, lastimado

de pés e de mãos por minha desventura;”)

»»»»» e logo, na terceira estrofe, insiste em que olhem para a sua miseria:

mirad el tollido de pies y de manos;

mirad la miseria de mí, pecador.

(“olhai o tolhido de pés e de mãos;

olhai a miséria minha, pecador.”)

»»»»» É a só vez na qual ocorre o termo pecador no discurso do Pobre, sendo no entanto central na operacionalidade lógica do discurso: por ser pecador, ele está a ser sujeito a todos os males físicos que o atormentam. O corolário será que todos os males supervenientes do acidente, da doença e da velhice serão os castigos devidos ao pecador. Por muitos séculos este juízo (ou falta dele) foi um expoente de um tipo de “verdade” inerente à vida dos seres ditos humanos sobre o planeta dito terra, na insana deriva planetária do universo.

 

 

Chagas

»»»»» O Pobre sin ventura pede limosna (“esmola”) aos cristãos devotos, pede insistentemente ao longo do seu discurso; este é o termo que mais vezes ocorrerá. Pede por se encontrar enfraquecido e plagado, ou seja, coberto de chagas:

Devotos Cristianos, dad al sin ventura

limosna, que pide por verse plagado;

(“Devotos Cristãos, dai ao sem ventura

esmola, que pede por ver-se chagado;”)

»»»»» Pede esmola, exibindo as suas chagas (segunda estrofe):

mirad estas plagas que no sufren cura;

(“olhai estas chagas que não sofrem cura;”)

»»»»» Um pouco adiante (terceira estrofe), regressa à atitude exibicionista:

Mirad ora el triste con mucho dolor;

que ante de muerto me comen gusanos;

(“Olhai ora o triste com tanta dor;

que antes de morto me comem os vermes;”)

»»»»» Este último verso é um dos cumes de morbidez do Auto: os gusanos comem-lhe já o corpo antes de morto. E se em geral o Pobre se refere a si na terceira pessoa, ele é “o triste”, aqui assume escatologicamente a sua carne “me comem os vermes”.

[06.11.2017/10.11.2017]

 

Vivarini 1 001

»»»»» Pormenor central da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1. As imagens que acompanham este texto correspondem: a um micropormenor e a um pormenor da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

»»»»» 2. Em projecto, a redacção de textos parcelares subsequentes, sob o mesmo título Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho, incidindo sobre o delírio conceptual do Pobre, no discurso inicial da peça vicentina; este texto e os subsequentes constituirão o segundo painel, cujo primeiro é o já redigido e aqui editado, Perspectiva sobre São Martinho. Título geral para este duplo painel: Perspectivas sobre São Martinho e seu pedinte.

»»»»» 3. Insere-se em Adenda o texto original em castelhano do Auto de São Martinho, sobre cujas três primeiras estrofes incidiram as considerações acima textualizadas.

 

»»»»» ADENDA

Auto S Martinho 1 001

Auto S Martinho 2 001

Auto S Martinho 3 001

Auto S Martinho 4 001

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

 

António Sá

[06.11.2017/11.11.2017]

Desatino 79

Desatino / 79 [Uma dica útil]          

 

»»»»» Discurso (sucinto) de candidatura do líder esperado e desejado:

»»»»» — Eu sou bom! (Aplausos.)

»»»»» — Tenho dito. (Aplausos.)

 

 

»»»»» Advertência: dica sem garantia.

 

 

 

 

António Sá

[11.10.2017]

 

Pluriplicante 9

Pluriplicante 9 (… incapaz de rir-se dos outros)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Incapaz de rir-se dos outros, de gente que não conhece. Pode no entanto acontecer-lhe rir de pessoas amadas, próximas, riso de à-vontade e empatia — tanto rir-se de como rir-se com.

»»»»» Estas são confissões do realizador checo Milos Forman, bombardeado com as perguntas insistentes e ríspidas de Vêra Chytilová, ao longo do flutuante filme-entrevista Chytilová versus Forman — consciouness of continuity (1981), realizado por esta cineasta, Vêra Chytilová (o apresentador eslavo do filme pronuncia Kitilôuâ).

Chytilova 1 001

»»»»» Em relação ao riso para com pessoas próximas não tenho que comentar, é riso saudável enquanto partilhado em conivência e mútua boa-vontade. Relativamente ao “rir-se dos outros”, como diz Forman, estou com ele, sou incapaz disso. Não me explico porquê, sei que me sinto desconfortável com a eventualidade do riso sobre (e contra) outrem: o acaso de tal riso esvai-se em desconforto. Não me explico porquê, mas no entanto explico mesmo assim: o movimento de rir-me de características físicas ou morais do outro, ou até do seu ridículo, gela-se-me logo, sinto estar a cometer, nesse só movimento, um acto de felonia, de traição e de crueldade. De felonia, porque me revelaria cobardemente (e quase decerto ignaramente) juiz-soberano do que o outro seja, sem o entender; de traição para com a nossa espécie, esta espécie de animais-humanos que somos todos, sujeitos todos às mesmas inexoráveis contingências; e de crueldade, por exercer, através do riso, uma punição e uma forma de aniquilamento sobre quem, em rigor, desconheço — desconheço-lhe os antecedentes, as circunstâncias, as derivas e as motivações profundas.

»»»»» Já com os animais-não-humanos, esses nunca suscitam riso, a não ser quando são amestrados nesse sentido, mas os circos onde os exibem estão condenados a desparecer… ou desapareceram já.

»»»»» Posso rir-me (e até muito) de figuras criadas na literatura (Dom Quixote, etc.), ou em filme (Buster Keaton, etc.), mas não de pessoas reais que, no limite do ridículo, me suscitam sobretudo pena e compaixão; ou perplexidade e medo (caso de Donald Trump); ou espanto e revolta (caso do juiz Neto de Moura, que nos seus acórdãos legitima a violência física de homens contra mulheres, a propósito de adultério).

»»»»» No entanto, não ignoro circunstâncias em que rir dos outros é compreensível e desculpável, porque próprio dessas circunstâncias (históricas e educacionais). Estou a pensar, em particular, nos tempos próprios da infância e da adolescência: na infância, dada a reconhecida crueldade infantil, por falta de insight; na adolescência, dada a indefinição de personalidade e, frequentemente, de identidade sexual — e lá vêm risos (nervosos) de insegurança ou de atracção/rejeição sexual projectada nos outros. Tenho assim em conta que crianças e adolescentes são seres em formação, e esse processo é uma via longa (e dolorosa).

»»»»» Fora estes casos, quando se é adulto mentalmente e sexualmente saudável, não acontecem motivos de rir dos outros; rir dos outros enquanto adulto é demonstração de doença (envolvendo falta de insight) e, por acréscimo, de manifesta estultícia.

 

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1, Milos Forman não se ri dos outros, mas cria personagens patéticos, e a categoria artística do patético pende ora para o sublime, ora para o risível (de um riso compassivo), veja-se o seu filme checo O baile dos bombeiros [Horí, má panenko] (1967), que é várias vezes referido na entrevista conduzida por Vêra Chytilová citada no início, e que deu o mote a este Pluriplicante.

»»»»» 2. O filme-entrevista de Chytilová é uma produção belga de 1981, e o seu título original é apenas Chytilová versus Forman.

 

 

António Sá

25.10.2017/28.10.2017

 

Pluriplicante 8

Pluriplicante 8 (… sobre o ódio)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

Piqué 1 001

 

»»»»» De onde vem o ódio? Onde nasce esse núcleo duro de desafeição para com outrem? Onde e por que se aloja e permanece, reforça num progresso infinito cada dia, perseguindo o aniquilamento do outro odiado, e mal se regozijando com tal aniquilamento, se conseguido?

»»»»» Nesta sequência de interrogações surgem obscuridades, que talvez seja possível, se não esclarecer, pelo menos formular. Consistem elas em saber quem é esta entidade que ocupa o lugar do outro; e por que razão, obtido o aniquilamento desse outro, tal não produz mais que um regozijo acaso intenso mas breve, regressando o agente do ódio à inquietude inicial.

E, ao escrever inquietude, estarei a anotar uma característica essencial do sentimento que se identifica enquanto ódio.

»»»»» Avanço no entanto com respostas intuídas para estas obscuridades. O outro que cada um de nós odeia está dentro de nós, é a parte de nós que fomos ensinados a rejeitar; e o próprio esforço posto nesta rejeição constitui o núcleo duro do ódio. O membro actual da Ku Klux Klan odeia parte do animalhumano que há em si. É um ódio que se autodesconhece enquanto tal, participa do processo expurgatório, de circunscrição identitária, que preside ao crescimento emocional infantil. Odeia não o seu todo individual, mas essa parte sua do animalhumano que o ensinaram a considerar “má e rejeitável”, neste caso apontado como o negro, a etnia negra, afinal um eu-exterior, percepcionado como outro deficientemente humano e potencialmente ameaçador. Recusa a esse eu-outrado a parte de “humanidade boa” que considera ser a sua, a de um bom e exclusivo eu-interior, e assim não integra o negro enquanto essencialmente humano, o que lhe legitima uma política socialmente desintegradora, separatista. No entanto, uma vez aniquilado esse objectivamente outro e festejado tal exorcismo, o outro que está dentro de si, parte do animalhumano inconsciente e rejeitada por malévola, mas não extinta, esse outro-interior continua vivo e continua a exigir novos sacrifícios ad aeternum, na inquietude que não conhece descanso. Em modo de fábula, e com recurso à história europeia, imagino que um Hitler vitorioso que tivesse conseguido exterminar a “humanidade má” fantasmaticamente situada no exterior, ou seja, os judeus, os ciganos, os homossexuais (… e os negros?… e os ameríndios?… e os asiáticos?…) teria por fim de se exterminar a si mesmo, por não ser suficientemente ariano, já que nem era louro…

»»»»» Usei a frase “ensinaram a considerar como má e rejeitável”, no entanto aquele verbo, ensinaram, é insuficiente para descrever o processo educativo: trata-se de uma coacção. A educação humana (familiar, escolar, social) consiste em coagir de acordo com os circunstancialismos históricos, e não necessariamente com agressividade, mais bem com carinho e, num processo de crescimento e de integração, aceitar a coacção é um pressuposto para a sobrevivência do ser vivo jovem no seu habitat, na sua comunidade.

»»»»» Estas são “respostas intuídas”, como escrevi, mas obviamente subsidiárias de leituras freudianas. Em todo o caso, venha de onde vier o ódio, ninguém está imune a ele, e quem diz que não tem ódio dentro de si é porque não se (re)conhece, e encontrá-lo-emos em contradição incônscia talvez logo nos minutos seguintes, porque expressamos o(s) nosso(s) ódio(s), ligeiro(s) ou profundo(s), a cada minuto que passa (o facebook e outras redes sociais não vivem de outra coisa).

»»»»» Não estarei preparado para escrever sobre os meus ódios. Talvez o possa fazer de modo geral, deste modo: os meus ódios são imediatos ou adquiridos passo-a-passo, mas creio que as coisas são assim com todos os ditos humanos e até com os ditos animais (para estes recordo o especular e acutilante filme White dog (Samuel Fuller,1982), em que um possante cão de pêlo níveo “se revela” treinado para atacar exclusivamente negros). Mas sejam os meus ódios imediatos ou vagarosos, sou sempre escrupulosamente levado, é essa a minha natureza, a raciociná-los, a racionalizá-los e, por força disso, a racioná-los — um pouco de ódio, um pouco de compaixão por mim e por outrem.

 

 

 

 

»»»»» Referência iconográfica: a imagem é um pormenor de foto jornalística (Rafael Marchante / REUTERS). Mostra um adepto em pleno acto de ódio contra o futebolista catalão Gerard Piqué, por este ter manifestado o seu apoio ao referendo catalão relativo a uma possível independência. “PIQUE FORA”: o adepto (“fora de si”, ou seja, que se desconhece manifestamente a si mesmo) deseja tão-só ou, mais propriamente, tão-muito a eliminação de Piqué do futebol e, quem sabe, da vida. Assim está a ser o cenário do ódio.

 

 

 

António Sá

04.10.2017/14.10.2017

 

Infinito pungimento

Infinito pungimento

 

»»»»» Obra de maturidade, do ano da sua morte, a série de seis painéis de Louise Bourgeois (1911-2010), água-forte e técnica mista, subordinada ao título geral de I give every thing away (Eu dou absolutamente tudo). Cada painel isolado tem, no entanto, inscrito um título próprio — é o caso do painel aqui reproduzido, em estrutura de tríptico, cuja secção central é usada para, em caracteres toscos, estilo art brut, se inscrever a frase I distance myself from myself (Eu distancio o meu eu do meu eu).

Bourgeois 100 001

»»»»» Cada painel desta série sêxtupla guarda a sua visceralidade essencial e o seu não-místico mistério, desvendável a uma interpretação próxima, não necessariamente fácil. Sem ter a pretensão de desvendar o mistério deste painel, interpreto-o como representação do fenómeno da maternidade, numa leitura literal. Assim, a figura à esquerda representa o primeiro myself, o eu-mesmo pletórico de si, interior corporal íntegro, cromaticamente preenchido de verdade física essencial (vermelhos-grená e brancos); a figura à direita será o segundo myself, o eu-mesmo que se distanciou do anterior ao potenciar-se em cêntrico nódulo: um feto nas suas circunvoluções, cromática verdade vital (os mesmos vermelhos-grená e brancos). Após esta leitura literal, poder-se-á sair à aventura metafórica: representa-se, neste painel, o movimento da concepção universalmente entendida, já não só universo reservado ao feminino, mas território da criação imaginativa em geral, artística em particular. A distância entre um eu-mesmo e outro eu-mesmo torna viável quer a gestação, quer a concepção. Afigura-se-me ser esse mesmo tipo de distância criativa que Fernando Pessoa ortónimo põe em jogo nas redondilhas sobre o fingimento do poeta.

»»»»» As figuras do painel I distance myself from myself contêm-se em recipientes, vasos preenchíveis, cujas partes superiores, as “cabeças”, estão “em branco”, ou seja, receptivas ao que venha do exterior para o integrar. Por hipótese, figuras da despreconceituação radical. Extensivamente, é-me possível considerar que tal despreconceituação constitua a única possibilidade fecunda para a criação, qualquer que seja o campo em que se exerça — criação (e não copy and paste), no infinito pungimento de retirar de si uma parte de si.

 

 

»»»»» Nota complementar: a leitura metafórica traz-me o eco de alguns versos de poetas portugueses: “Antre mim mesmo, & mim / nam sey que salevantou, / que tam meu ymiguo sou.” (Bernardim Ribeiro, século XVI); “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente, / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente.” (Fernando Pessoa ortónimo, Autopsicografia, 1933). Num e noutro destes excertos se exprime a distância entre um eu e outro eu: no primeiro caso, a distância, historicamente situada no século XVI, manifesta-se enquanto clivagem existencial, o “mim mesmo” declara-se “ymiguo” (“inimigo”) do “mim”; no segundo caso, ela institui-se enquanto raciocínio sobre a interacção do sofrimento e da criação.

 

 

 

 

 

 

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para a imagem utilizada e referências a Louise Bourgeois, utilizei o catálogo Louise Bourgeois, “HONNI soit QUI mal y pense”, SKIRA (Milano) / La Casa Encendida (Madrid), 2012; para Bernardim Ribeiro, segui a edição de Aquilino Ribeiro e M. Marques Braga, Obras completas, volume II, Livraria Sá da Costa, 2ª ed. 1971 (1ª ed. 1950); para Fernando Pessoa, recorri a uma obra mais-à-mão, Ficções do interlúdio, 1914-1935, ed. de Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 1998.]

 

 

António Sá

[16.09.2017/12.10.2017]

 

Aproximações fotopictóricas 5

Aproximações fotopictóricas 5

 

 

 

Morandi 3 001

»»»»» Giorgio Morandi joga em contrastes quente/seco na sua Natura morta (1938), ainda que os quentes se limitem, isentos de decoratividade, a dois recipientes apenas dos onze figurados, e sendo um igual tom de vermelho-alaranjado ou laranja-avermelhado em dois frascos estrategicamente colocados em lugares lateralizados. Esse vermelho-laranja dá o tónus a esta pintura de objectos, todos vítreos. Os outros tons serão secos ou neutros, exceptuando o fulgurante branco, em objectos também estrategicamente situados, e exceptuando ainda o líquido azul na base de um dos frascos. Completam assim a paleta cromática esse branco fulgurante e o castanho-escuro, sendo neutro o tom do recipiente mais à esquerda.

»»»»» Tais contrastes contribuem, juntamente com a espessura da pincelada, para instituir a verdade matérica, qualidade reconhecida à pintura de Morandi. O laranja é a cor solar da energia e da verdade, neste caso, objectal, ao fazer confluir em si o vermelho e o branco: aquele é o que “está aqui e não longe”, como aponta Michel Pastoureau; este é expoente da simplicidade, da paz consequente ao trabalho humilde e reflectido (ou “entregue a Deus”, na senda cristã). E enfim, os tons neutros e os castanhos térreos contribuem à inflexão filosófica do todo em torno da verdade de uma existência material próxima, densa, apaziguadora.

 

 

Rui Monteiro 101 001

»»»»» Tendencialmente neutra é a “paleta” tonal dos cinco objectos que a obscuridade torna possível isolar, na fotografia de Rui Dias Monteiro da série As couves dormem sem manta (2013). Como em outras fotos já comentadas em Aproximações anteriores, a matéria de que são feitos os objectos tende a ser menos nobre do que nas telas de Morandi — ocorre no entanto o vidro. Mas o copo invertido, de vidro incolor, é uma forma industrialmente estandardizada, em confronto com as diversas formas dos vidros de Morandi, na linha de um design das primeiras décadas do século XX.

»»»»» Há um objecto branco-maculado que pode ser um rolo de papel de cozinha; uma bacia, acaso de cerâmica, de um ténue verde-azulado; e duas garrafas de plástico, uma bastante visível, reflectindo a luz, e a outra quase invisível, dela só se percebe um sinuoso contorno tocado pela luz.

»»»»» Objectos alinhados sobre uma mesa, como na tela de Morandi, mas não se distinguem pela cor, antes pela luz que sobre eles incide e respectivos reflexos. O contraste institui-se entre esta luz frontal e a escuridão do fundo. O todo convoca também o trabalho caseiro, subjaz-lhe sobretudo uma filosofia prática, utilitária; e a percepção comum vê materiais sobretudo voláteis: estão e já não estão, prontos para o desperdício e a reciclagem. Os objectos do cotidiano do século XXI não exigem afecto, nem pacificam, e o seu brilho é reflexo negligenciável.

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para Morandi utilizou-se o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002; para o estudo das cores, consultaram-se o Dicionário das cores do nosso tempo de Michel Pastoureau, Editorial Estampa, 1993, e o Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editorial Teorema, s/d (ed. francesa: 1982).]

 

 

António Sá

07.10.2017

 

Desatino 78

Desatino / 78 [Um voto ecuménico]           

 

»»»»» Para que todos possam reivindicar vitória nestas eleições autárquicas, tipo de eleições, aliás, em que todos e cada um sempre clamam vitória por isto e por aquilo… pois para que isso seja mais verdade, supõe-se que há que votar em todos os que, corajosamente, se candidataram a eleições, para o bem e para o mal… bem e mal deles e nosso, inocentes votantes… Eu explico: votar em todos significa mesmo votar em todos, trata-se aqui de um voto generosamente ecuménico, como com alegria declarou uma senhora, falando espontaneamente a propósito de umas eleições anteriores.

»»»»» Estou-me reportando a uma senhora do povo que, numa conversa captada pela câmara de Miguel Gomes, no Portugal profundo, explica às amigas como vota: põe uma cruzinha em todas as casas: “assim ninguém se fica a rir”. Este é, enfim, o voto ecuménico: e ninguém se fica a rir, ou ficam todos a rir-se. O filme em causa é As mil e uma noites: volume 1, o inquieto (Miguel Gomes, 2015), e este caso da feliz votante já o referi no Desatino 55 [Como votar], focado na crise dos trocos, ou da falta deles, que os portugueses e os bancos portugueses andavam a tentar resolver.

»»»»» Também expliquei na altura, para quem não se dá bem com quaisquer anarco-humorismos, que eu não vou nessa, ponho o meu voto numa casinha só…

»»»»» E enfim, para dar testemunho do meu civismo, faço votos de que votem, é imperativo votar, em-consciência ou em-inconsciência, à vossa escolha.

 

 

António Sá

[30.09.2017]

 

Amigo, em grande cuidado (homenagem à Catalunha insurgente)

Amigo, em grande cuidado (homenagem à Catalunha insurgente)

 

 

»»»»» Simetria no reclamar a dor como seu quinhão exclusivo, é esse o exercício discursivo de ambos. Algures na segunda metade do século XII, conversam musicalmente a trovadora (trobairitz) La Comtessa de Dia e o trovador (troubadour) Raimbaut d’Aurenga, seu amante amado, já que ela, nos seus versos, desdenhava o marido, que aborrecia, e encantava-se com o amante, ainda que nesta conversa entre os dois se queixe de ser a única a sofrer pelos cuidados, as incertezas amorosas, e de que ele não lhe corresponde inteiramente, deixando-lhe a ela todo o mal, e enfim pergunta por que não repartem o mal pelos dois. Ao que ele responde, cantando, que o amors entre dois amantes (amics) trabalha no sentido de distribuir males e alegrias conforme lhe parece, personificando assim a imagem do amors, mas acrescenta que só ele, sem querer gabar-se disso, tem de gerir todo o mal. Termino esta paráfrase como comecei: simetria no reclamar a dor como respectivo quinhão exclusivo.

»»»»» E anoto a insistência, própria do discurso amoroso, na noção de que o mal é inerente ao amor.

»»»»» Traduzo assim estas estrofes, originalmente em provençal:

 

La comtessa de Dia:

 

Amigo, em grande cuidado

estou por vós e grave pena;

e do mal que assim sofro

não creio que sintais nada.

Por que vos meteis em namorado

se a mim deixais todo o mal?

Por que não o partimos por igual?

 

 

Raimbaut d’Aurenga:

 

Dona, o amor tem tal trabalho,

quando dois amigos encadeia,

que tanto o mal, tanto a alegria

sente cada um, conforme ele o quer.

Que eu penso, e não sou gabarola,

que a dura dor de coração

tenho-a eu toda à minha conta.

 

 

»»»»» Estes amantes, pertencentes à nobreza provençal do século XII, nada tinham de malditos: exibiam os seus amores sem consideração pelos laços matrimoniais respectivos. É corrente os historiadores considerarem que foi neste lirismo, em que os versos eram cantados na corte, e de que se conhecem muitos registos musicais, que nasceu a concepção ocidental do amor, tal como actualmente o (re)conhecemos: amor sentimental sem barreiras legais e de grande envolvimento erótico.

»»»»» Tal surto cultural aconteceu numa região geográfica que compreende a Provença francesa e parte da actual Catalunha ainda espanhola. Escrevo “ainda”, porque estamos nesse momento histórico em que, dentro de dias, mais exactamente a 1 de outubro de 2017, se prevê que aconteça um referendo na Catalunha, que poderá decidir a independência da região. Quanto a isto, ocorre-me um imperativo histórico retrospectivo: a Catalunha devia-mesmo-de-ter encontrado a sua independência no século XII, como o fez Portugal, e tê-la mantido até hoje. Actualmente, a situação apresenta contornos mais ou menos agónicos, difícil que é a relação com Castela, e complexa que é com o desenho da Europa actual.

»»»»» Insiro a seguir a versão original:

 

La Comtessa de Dia:

 

Amics, en gran cossirier

suy per vos et en greu pena;

e del mal q’ieu en sufier

no cre que vos sentatz guaire.

Doncx, per que us metetz amaire,

pus a me laissatz tot lo mal?

Quar amduy no’l partem egual?

 

 

Raimbaut d’Aurenga:

 

Don’, amors a tal mestier,

pus dos amicx encadena,

que’l mal qu’an e l’alegrier

sen chascus, so’ill es vejaire.

Qu’ieu pens, e non suy guabaire,

que la dura dolor coral

ai eu tota a mon cabal.

 

 

 

 

Provença 1 001

»»»»» [Mapa do território dos poetas provençais no século XII]

 

»»»»» Nota: tendo já traduzido as canções que se conhecem de La Comtessa de Dia, tentarei fazer a tradução na totalidade esta tensão (tensó), produzida em colaboração e confronto com Raimbaut d’Aurenga, de que agora só apresento as duas primeiras estrofes, editando posteriormente, neste mesmo sítio, a tradução completa.

 

»»»»» [Referências bibliográficas: seguiu-se a lição constante da obra em três volumes Los trovadores, historia literaria y textos, de Martín de Riquer, Editorial Ariel, Barcelona, 1992 (primera edición: 1975, Colección Ensayos / Planeta); para a imagem, pormenor central do território onde viveram os poetas provençais, utilizei a obra Chants d’amour des femmes troubadours,  de Pierre Bec, Stock/Moyen Age, Paris, 1995.]

 

 

António Sá

[27.09.2017]

 

Pluriplicante 7

Pluriplicante 7 (… sobre o futuro anarcocapitalista)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Transcrevo um parágrafo de uma obra de John Gray, referenciada no final:

 

»»»»» Todas as tentativas de modernização da Rússia através da adopção de um modelo ocidental falharam. Isto não significa que a Rússia não seja moderna. Muito pelo contrário, tornou-se pioneira do que poderá vir a revelar-se como a forma mais avançada do capitalismo. Das cinzas do Estado soviético emergiu uma economia hipermoderna — um anarcocapitalismo de alicerces mafiosos que se expande para Ocidente. A globalização do crime organizado russo verifica-se numa época em que as indústrias ilegais — droga, pornografia, prostituição, ciberfraude e actividades similares — são os verdadeiros sectores dinâmicos da maior parte das economias avançadas. O anarcocapitalismo russo dá abundantes sinais de poder vir a superar o capitalismo ocidental nesta nova fase de desenvolvimento.

 

»»»»» Em relação a este parágrafo, limito-me a fazer três observações e uma objecção:

»»»»» 1ª observação) Estes “alicerces mafiosos” da economia russa (entre outras economias) são comuns às actuais e multioperacionais “máfias chinesas”, eventualmente com um pé na legalidade, outro na criminalidade.

»»»»» 2ª observação) A pornografia não é propriamente ilegal, pelo menos nas democracias ocidentais (sê-lo-á na Rússia actual, não sei). Não é ilegal e constitui, até, uma das indústrias economicamente mais rentáveis, no domínio das publicações, da internet, dos gadgets, das sex-shops e dos “filmes para adultos”. Ilegal vem a ser, por outro lado, a venda de armamento fora do circuito oficialmente instituído, sendo no entanto um dos “sectores dinâmicos” de algumas economias e, diga-se, perversamente dinâmicos.

»»»»» 3ª observação) Com diferentes pesos, a ciberfraude usada nas recentes eleições dos actuais presidentes estaduniense, Donald Trump, e francês, Emmanuel Macron, constitui um primeiro e tímido ensaio do que pode vir a ser esse negócio no futuro, sabendo-se hoje que, para além do seu alcance manipulatório, se torna mais rentável uma apelativa, escandalosa notícia falsa (via número de cliques no like), do que uma notícia verdadeira, veiculada por jornalistas responsáveis: é conhecida a história do hacker que, instalado na Macedónia, produziu notícias absurdas, sobre Hillary Clinton, a coberto de uma quase-igual sigla da CNN, pura falsificação, e recebeu em casa cheques bem-providos graças à quantidade de cliques no like.

»»»»» Enfim, chego à objecção, a única que me ocorre. Na Rússia de Vladimir Putin, a tendência conhecida é a da concentração de poderes e controlo da comunicação social e da economia, tendo-se conseguido uma quase-total neutralização dos opositores ao regime. No entanto, como os regimes concentracionários tendem a ser corruptos, é provável que o actual regime russo viva, como as máfias, com um pé na legalidade, outro na criminalidade.

 

Rússia 1 001

»»»»»»»»»» [IMAGEM: pormenor de uma foto jornalística (Ilya Naymushin  / REUTERS).]

 

»»»»» Referência: o texto transcrito consta da página 155 de obra de John Gray Sobre humanos e outros animais, tradução de Miguel Serras Pereira, Lua de Papel, 2007 (título original: Straw dogs, Granta Publications, 2002).

 

 

António Sá

14.08.2017/23.09.2017