Pluriplicante 3

Pluriplicante 3 (… sobre “empowering”)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

 

»»»»» Alguns comentadores convidados, esta última semana, por Anderson Cooper, que mantém um forum diário na CNN, utilizaram o termo empowering, para definir o reforço de poder de que são investidas organizações como a Ku Klux Klan pelas posições e declarações de Donald Trump, não só as produzidas recentemente a propósito dos acontecimentos de Charlottesville, mas também as que produziu ao longo da sua campanha eleitoral. O facto é que, neste século XXI, duplicou o número de organizações racistas e supremacistas nos Estados Unidos da América, sendo hoje quase 900, segundo uma notícia da edição de 19 de agosto do semanário Expresso.

»»»»» Embora de menor impacto noticioso, outro empowering está no entanto em curso noutras coordenadas do planeta, onde se situa a nação turca. Um empowering mais sistémico, instituído por um ministro de Erdogan, que consiste na introdução do estudo da jihad, como parte da lei islâmica, nas escolas secundárias. De um Estado que era de matriz laica, passa-se, por um acto legislativo, a um Estado de religiosidade obrigada, com aumento da carga horária de Religião e Moral e com salas de orações, aproximando-a do padrão civilizacional da Arábia Saudita. Este estudo da jihad faz-se em detrimento do estudo da Teoria da Evolução darwinista. Diz o ministro legislador que a Teoria da Evolução é irrelevante, além de ser demasiado complexa para o entendimento dos alunos. Irrelevante por um lado, complexa demais por outro: tal argumento parece-me algo contraditório… mas talvez não seja para ser coerente ou racional…

 

 

 

»»»»» Nota: as informações acima utilizadas constam de duas notícias impressas na edição do Expresso de 19 de agosto de 2017: “Neonazis à boleia de Trump”, assinada por Ricardo Lourenço; “Jihad substitui Darwin”, assinada por José Pedro Tavares.

 

 

António Sá

20.08.2017

 

Pluriplicante 2

Pluriplicante 2 (… sobre o acaso)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

»»»»» Tudo o que de fundamental, estruturante, acontece na vida de um ser humano é ocasional — desde logo o seu nascimento e respectivas condições envolventes. Deste postulado poderá decorrer um discurso explicativo interminável, desde a natureza do universo até às circunstâncias culturais de agora, neste tempo e neste lugar. Uso a palavra culturais enquanto designação genérica das instâncias política e social, que circunscrevem os seres humanos nas suas diversas geografias.

29.07.2017

 

»»»»» Temos necessidade de crer que fazemos escolhas livremente, mas as escolhas que fazemos estão determinadas por factores que nos escapam, inscritos na estrutura da nossa personalidade. Nem é preciso ler-se todo o Freud para se ter esta intuição — intuição que Freud decifrou em termos analíticos.

19.08.2017

 

»»»»» Nota: ambas as considerações acima expostas ocorrem-me a partir da leitura de livros de John Gray: The silence of animals, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013); Sobre humanos e outros animais, tradução de Miguel Serras Pereira, Lua de Papel, 2007 (título original: Straw dogs, Granta Publications, 2002).

 

António Sá

19.08.2017

 

Nota correctiva ao comentário a “Ecce homo”

Nota correctiva ao comentário a “Ecce homo”

 

»»»»» Por razões aleatórias, regressei ao quadro de Lovis Corinth (Ecce homo, 1925) e ao texto (Um outro “Ecce homo”) que a propósito dele tinha escrito, e que transcrevo no fim desta Nota correctiva. E, ao relê-lo e ao rever a pintura, tornou-se-me evidente que a coroa imposta ao travesti é mesmo uma coroa de espinhos, e que o homem sangra dessa imposição: há pingos de sangue dispersos pela fronte e escorrendo nos braços musculosos, presos por correias à frente do corpo. A sua figura é imponente, nesse vestido vermelho-festivo que o cobre, e que condiz com o vermelho dos pingos de sangue esparsos. O uso do vermelho confere contrastiva ambiguidade a esta representação: pode ser visto enquanto o vermelho crístico, sacrificial, redentor, santificador; ou enquanto o vermelho sensual, orgíaco, convocando à sexualidade liberta de constrangimentos normativos. Recorro, neste confronto dos valores simbólicos do vermelho, a formas correntemente estabilizadas de o interpretar e utilizar na cultura ocidental.

Lovis Corinth 1 001

»»»»» De modo evidente, este retrato-de-grupo não se apresenta como transcrição literal de um caso de controlo de costumes, mas antes como figuração simbólica da imposição da Ordem, mediada pelo médico psiquiatra e pelo guarda policial. A coroa de espinhos será lida, neste contexto, enquanto o indicador da Ordem imposta, e transforma o homem travestido num símile do Cristo — aquele que vai ser submetido ao rito sacrificial. No texto anteriormente escrito, classifiquei de ambígua esta composição, atendendo a este enfoque bíblico. O que há de comum entre o Cristo e o “desviante” é o facto de serem procurados, identificados (“ecce homo”, “eis o homem”) e sacrificados. A distância reside no que se percepciona da “virtude” do Cristo e o que se deduz do “vício” do “delinquente”: ambígua portanto a mensagem pictórica ao convocar, num só movimento, proximidade e distância.

»»»»» Esta ambiguidade, quer no plano do tratamento cromático, quer no referido jogo de proximidade e distância, eventualmente chocante, será responsável pela distorção do que vi em relação ao que lá está: está lá um homem coroado de espinhos, indubitavelmente; alguma coisa entre o meu olhar e o meu cérebro fez com que eu visse lá, erradamente, uma festiva coroa de flores.

 

António Sá

[15.08.2017]

 

 

Um outro “Ecce homo”

»»»»» Tenho muito vaga ideia de ter visto antes este Ecce homo de Lovis Corinth, creio que datado de 1925, e me ter sentido chocado à primeira vista, e ter avançado alguma interpretação. E ter esquecido, entretanto, a tela e a interpretação, no vendaval de arte, artefactos e artifícios, incluindo fogos-de-artifício e fogos-fátuos, que me vêm por todos os lados que existem. Revejo-o agora na sua vertical grandeza: tanto física, é um quadro de grande altura; quanto sócio-interventiva ou, diga-se, ética. Por que fiquei chocado ao primeiro visionamento? — Porque no lugar central, que seria o do Cristo, está um homem travestido. Não vejo por que ocupe esse lugar central crístico, senão pela vertente sacrificial — enorme, musculado, resulta grotesco naquele provocante vestido feminino; está coroado, não de uma coroa de espinhos, mas de uma festiva coroa não-sei-de-quê, de flores será, como se o recolhessem surpreendido de algum cabaré de pervertidos, para usar uma expressão de época. Há mais duas imponentes figuras-de-corpo-inteiro que o ladeiam: à direita um empertigado militar; à esquerda um proficiente médico-psiquiatra. São os símbolos da ordem institucional, assegurando a normalidade a-ser-vigente no tecido social desse tempo histórico: o entre-guerras europeias ou, mais exactamente, mundiais.

»»»»» Esta ambígua, quase críptica obra pictórica — se lhe associarmos leituras crísticas — deve ser contextualizada no que era a sociedade alemã entre a última década do século XIX e as três primeiras do século XX. Em Berlim, segundo o historiador Robert Beachy (Gay Berlin, 2013), havia mais de trinta publicações e uma centena de lugares nocturnos orientados para o universo homossexual e transgénero — embora não estivessem ausentes as ordens policial-militar e psiquiátrica, assim a tela de Lovis Corinth as fixa simbolicamente.

António Sá

[24.08.2015]

Pluriplicante 1

Pluriplicante 1 (… sobre identidade)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» A respeito da identidade individual, transcrevo este passo de Alice no país das maravilhas:

 

»»»»» Durante algum tempo, a Lagarta e Alice olharam-se em silêncio. Por fim, a Lagarta tirou o cachimbo da boca e perguntou-lhe numa voz lânguida e sonolenta:

»»»»» — Quem és tu?

»»»»» Não se pode dizer que fosse um princípio de conversa encorajador. Alice respondeu timidamente:

»»»»» — Neste momento, nem sei bem, minha senhora… Esta manhã, quando me levantei, sabia quem era, mas já mudei tantas vezes desde então…

»»»»» — O que queres dizer com isso? — perguntou a Lagarta com rispidez. — Explica-te!

»»»»» — Receio não poder explicar-me melhor, minha senhora, porque eu não sou eu, percebe? — disse Alice.

 

»»»»» Divertidíssimo, este passo, como todo o entrecho do livro. Alice sabia quem era quando estava em vigília, no seu ambiente familiar, mas agora está em ruptura consigo mesma: “eu não sou eu”, e tal acontece devido às mudanças que sofreu. Bernardim Ribeiro (século XVI) tem um belo poema em que não se reconhece a si mesmo, devido às mudanças emocionais. Aqui, Alice sofreu mudanças físicas bruscas, e foi o que aconteceu a Gregor Samsa, personagem de A metamorfose (Franz Kafka), que de humano se transformou num enorme escaravelho.

 

 

»»»»» [Referência bibliográfica: para o passo transcrito, utilizei a tradução do livro de Lewis Carroll por Maria Filomena Duarte, editada nas Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988.]

 

 

António Sá

15.08.2017

 

Desatino 76

Desatino / 76 [Onde pára a realidade?]     

 

»»»»» Na fachada de um banco em resgate:

POR MOTIVOS ALHEIOS À REALIDADE

ESTE BANCO NÃO EXISTE

»»»»» Estranhei, mas depois reflecti: de facto, há casos que são efeito do alheamento à realidade, ou do estado de delírio, incluindo no conceito de delírio a ambição cega às previsíveis desastrosas consequências da gestão danosa.

 

 

António Sá

[05.08.2017]

 

Aproximações fotopictóricas 4

Aproximações fotopictóricas 4

 

»»»»» Um fruto — o limão — é o punctum que têm em comum a fotografia e a composição pictórica que apresento a seguir. Começando pela fotografia,

Rui Monteiro 100 001

ela pertence à série As couves dormem sem manta (2013), e capta centralmente dois limões amarelo-verdes, esbranquiçados por efeito da incidència luminosa, que se perfilam na linha-de-fuga da perspectiva como dois soldados numa formatura. Pousam sobre o contraplacado funcional e não-nobre de uma banqueta-de-cozinha. O fundo é o de uma parede e esquina esfoladas e uma escura peça de mobiliário difícil de identificar (um armário ou um fogão antigo). Mas os limões fazem a história da foto, o fresco amarelo que exibem remete para o uso saudável que lhes é atribuído e para a acidez do paladar.

Morandi 2 001

»»»»» O limão figurado na tela de Giorgio Morando apresenta tonalidades muito diversas. Confronte-se aquele frio amarelo-luminoso dos limões da foto com a quente mistura de amarelo-alaranjado e castanho: as cores quentes da tela contrastam com a fria luminosidade da foto e seu jogo de contrastes claro-escuro.

»»»»» Outro contraste é o do suporte de frutos e objectos. Na foto, só frutos, estes repousam na referida banqueta de contraplacado, material pobre; na tela, fruto e objectos assentam, num enquadramento em ligeiro picado, sobre uma mesa cuja textura indicia a madeira. A natureza nobre deste material, ao contrário do contraplacado, é secundada pelos materiais nobres dos objectos agrupados junto ao limão: um pote de metal, uma taça de vidro e, suponho, uma pequena faca.

»»»»» Em ambas as imagens o punctum situa-se nos limões, e em ambas, apesar das diferentes tonalidades, se conotam a vida solar e a humilde e diurna actividade doméstica, as intermináveis e vitais tarefas que sustentam a regularidade dos dias. Mas a foto é dominada pela aspereza dos limões e, por extensão, da vida campestre; convoca a pobreza dos recursos exposta na parede e no mobiliário. Na tela, o limão amarelo-alaranjado dá o tom intenso, quente, desse interior, não decerto rico ou luxuoso, mas aconchegado, familiar. E a transmutação pictórica transcende a pura representação objectal: a cor laranja expande-se enquanto indicador de uma intrínseca verdade: persistência da vida, sua densa materialidade assim fixada no tempo.

 

 

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: o conceito de punctum vem de Roland Barthes, A câmara clara (Edições 70, 1981); para Morandi utilizou-se o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002; para o estudo das cores, consultaram-se o Dicionário das cores do nosso tempo de Michel Pastoureau, Editorial Estampa, 1993, e o Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Editorial Teorema, s/d (ed. francesa: 1982).]

 

 

António Sá

27.07.2017/02.08.2017

 

Visigothorum II

Visigothorum II

 

sobre práticas de caridade

File:Quintanilla de las Vinas Ermita Santa Maria PM 73345 E.jpg

»»»»» Desde esses primeiros tempos de triunfo do cristianismo que, junto com perseguições, nomeadamente aos judeus, se instituía, a nível eclesiástico, a prática da caridade, decerto vocacionada para a população que se considerava cristã. Essa caridade justifica a construção de edifícios específicos para o seu exercício:

»»»»» “Uma instituição e edificação característica das principais cidades mediterrânicas da época, sobretudo daquelas que mantinham um importante tráfego comercial a longa distância, era o xenodochium, palavra de origem grega que designava uma espécie de hospedaria para peregrinos e doentes. Pois bem, para o último terço do século VI, testemunha-se a construção de um importante hospital deste tipo na cidade de Mérida que, como sabemos, mantinha nesta época um considerável intercâmbio comercial inclusivamente com o Oriente bizantino. Significativamente, o xenodochium emeritense teria sido construído e esplendidamente dotado pelo bispo Massona, a expensas do património da muito rica Sé emeritense.”

»»»»» Lendo esta informação de Luis A. García Moreno surge-me a dúvida, talvez anacrónica, sobre o critério de selecção destas “hospedarias”: seriam primeiro admitidos os “peregrinos”, secundarizando os “doentes”? E, nesse caso, estando aí alojados “doentes”, haveria que desalojá-los em épocas de grande afluência de “peregrinos”? Enfim, quanto aos mendigos, supõe-se que não tivessem acolhimento.

»»»»» E anoto ainda dois aspectos históricos que vale a pena relevar: o facto de a Igreja constituir um poder económico (e político) decisivo para o ordenamento da vida na Ibéria do século VI, em plena época visigótica; e o facto de haver cidades, como Mérida, que estendiam o seu âmbito comercial até ao Oriente bizantino, dando assim a perspectiva de uma Europa comercialmente “globalizante”, muito antes de ter posto nos mapas os Novos Mundos.

 

 

»»»»» NOTA:

»»»»» O texto de Luis A. García Moreno consta do artigo “La ciudad visigoda”, incluído em A cidade, jornadas inter e pluridisciplinares (Actas I), Universidade Aberta, 1993.

 

 

António Sá

[26.07.2017]

 

Aproximações fotopictóricas 3

Aproximações fotopictóricas 3

 

Manet 1 001

»»»»» Perseguindo naturezas mortas, passei por este La femme à la cruche (Portrait de Mme Manet tenant una aiguière) (Édouard Manet, 1858-1860), que é, ao mesmo tempo, retrato e natureza morta. Mas na Aproximação anterior, centrava-me numa obra recuada de cerca de quatro séculos, Santa Ana com a Virgem e o Menino (Sansón Delli, c. 1470), a seguir reproduzida:

Sansón Delli 1 001

»»»»» Nesta tela, para lá da luminosidade amarelo-dourado que diviniza as figuras, pode inferir-se a vocação para o cuidado maternal de Santa Ana com a filha, Virgem Maria, e o neto; e da Virgem com o filho, Menino Jesus. A primeira senta-se num banco de pedra e acolhe no regaço uma juvenilíssima Virgem; a qual, por sua vez, acolhe o Menino, de pé, sobre a coxa virginal, manejando o fio em cuja extremidade se encontra preso um pássaro. Este era o brinquedo para humana distracção do divino Menino. Hoje tenderíamos a considerar cruel tal tipo de brinquedo, e talvez até atentatório da sobrevivência das espécies, mas perdoemos ao Menino Jesus a desumanidade, porque era criança, porque à época as espécies animais abundavam, porque veio a morrer na cruz e, enfim, porque foi Sansón Delli, inadvertido do nosso juízo anacrónico, quem o pôs assim a fazer mal.

»»»»» A desproporção entre estas duas figuras femininas assinala as diferentes idades e o ascendente materno. Da mão de Santa Ana pende um piedoso rosário, cujas contas vai passando. Esta representação remeterá para o estilo de vida cristã, vivida em humildade, o assento de pedra está ali para o atestar, vida dedicada ao cuidado com outrém. Para lá da figura dos santos (São Cristóvão e Santa Catarina), em segundo plano, a perspectiva de fundo anota, à esquerda, a vida rural, um pastor e seu rebanho, casas de campo, terrenos agrícolas, o perfil de cidade amuralhada e castelo, supõe-se que a cidade de Ávila, onde Sansón Delli trabalhou alguns anos; e, à direita, um eremita ajoelhado espera a chegada de São Cristóvão, que atravessa o rio com o Menino do globo aos ombros. É na terra da vida comum que nos situamos, e esta cena de travessia das águas, própria do maravilhoso cristão, não sobreleva essa cotidianeidade. Na Aproximação anterior, pus o foco no manto de Santa Ana, que replica em maior escala o da Virgem, ambos expandindo-se e empolando-se na base, segundo o estilo flamengo de pregas que semelham texturas metálicas.

»»»»» A maternalidade da Virgem surge, ao longo dos séculos, impressa nas telas e nas esculturas em que sustenta o Menino, se ocupa dele, o amamenta, e este último caso institui um subgénero de obras denominadas A Virgem do leite. Em telas onde se ocupa do Menino, já em épocas mais recentes, é representada em atitude e traje de mulher comum, da emergente classe burguesa. É o caso de algumas composições de Orazio Gentileschi, de que destaco a obra a seguir reproduzida, A Senhora e o Menino (1610):

Orazio Gentileschi 1 001

»»»»» A atitude é de entrega amorosa e, na composição, não se descura o descuido caseiro do vestido e do manto de Maria, que sustenta com a mão o seu longo e transparente véu, para proteger o sono do Menino, adormecido no regaço materno sobre, e aqui sublinho este pormenor, um pano branco, toalha ou lençol, que descai em pregas sombreadas. O Menino segura um pêssego amarelo, neste caso singelo símbolo do mundo, substituindo o globo que frequentemente apresenta na palma da mão, e constituindo uma breve inclusão de natureza morta, numa tela de motivo piedoso.

»»»»» Panos, toalhas de mesa são constantes na longa tradição das naturezas mortas, e são a marca das actividades domésticas; sinalizariam, nas sociedades cristãs ocidentais, e por extensão, a dádiva ao divino (à Virgem, ao Cristo) do paciente, humilde trabalho todos os dias produzido. Nestas sociedades, as actividades agrícolas e as actividades domésticas, executadas com escrúpulo, eram tradicionalmente votadas à instância divina; as colheitas e as refeições deviam ser abençoadas.

»»»»» Da Madonna cuidando do Menino tal como a imaginou Orazio Gentileschi, arrisco um salto de mais de dois séculos, até à consorte de Édouard Manet, tal como este a retratou em La femme à la cruche, tela reproduzida e referida no início. E um mesmo cuidado afectuoso se pode ler no rosto da senhora Manet, que bem podia ser rosto emprestado a uma Virgem da época clássica, estando-se embora num tempo de realismos e naturalismos. E não falta, a aproximar esta pintura da dos clássicos, a figuração da paisagem rural, vista para além da janela aberta, trate-se embora de uma paisagem profana — céu, árvores e vale com rio — sem alusões bíblicas nem relativas às mitologias d@s sant@s. Mas aquele cuidado afectuoso é transferido, nesta tela, para a tarefa de verter água de um jarro para uma malga, gesto que cristaliza a paciente e amorosa lide caseira feminina, a que se entrega atenta, descurando o decoro da camisa.

»»»»» Em síntese: nos panos descaindo, presentes nas naturezas mortas da fotografia de Rui Dias Monteiro (2011) e do quadro de Giorgio Morandi (1928), ambos reproduzidos a seguir, entrevi os restos da figuração do carácter sagrado de todo o humilde trabalho cotidiano, ainda que restos esquecidos dessa sua arcaica consagração, e já investidos de um carácter profano; acaso à luz deste carácter profano possa ser lida a tela de Manet, retrato da mulher virtuosa e dedicada, qualidades que sempre transparecem nas figurações da Virgem, a qual, sempre revestida de mantos e véus, se entrega aos cuidados maternos. Assim, e com todos os riscos de uma apreciação aproximativa, veria nos infinitos pregueados das infinitas representações da maternidade da Virgem, nessa envolvência e conforto maternos, a matriz cristã dos cuidados extensivamente dedicados ao lar, cuidados em séculos passados consagrados ao divino, e actualmente apenas sinalizados, em figurações artísticas, nesses restos ou despojos do sagrado e desse mesmo sagrado esquecidos.

Morandi 1 001

»»»»»»»»»» Natura morta (Giorgio Morandi, 1928)

 

 

ce256-14

»»»»»»»»»» Foto da série Figura na paisagem (Rui Dias Monteiro, 2011)

 

 

»»»»» [Referências bibliográficas: para a arrojada interpretação dos panos, consultou-se o ensaio Ninfa moderna, essai sur le drapé tombé (Gallimard, 2002), de Georges Didi-Huberman; para a tela de Sansón Delli, utilizou-se a entrada Santa Ana con la Virgen y el Niño (Santa Ana triple) de Margarita Ruíz Maldonado, inserta no catálogo da exposição Inmaculada, Santa Iglesia Catedral de Santa María de la Real de la Almudena, Madrid, 2005; para Manet, o catálogo Manet, les natures mortes, Éditions de la Martiniêre, Réunion des Musées Nationaux, 2000; para Morandi, o catálogo  Morandi, Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, 2002.]

 

 

António Sá

14.07.2017/24.07.2017