notas & noções 15 (2ª série)

notas & noções 15 (2ª série)

 

“… ir acabar onde o ninguém visse.”

»»»»» Não está aqui em causa, neste “… ir acabar onde o ninguém visse.”, nenhum ser vivo, salvo seja, embora… embora se Duterte, ou Kim Jong-un… ou Donald Trump, entre tantos outros da mesma espécie, transitassem para onde os ninguém visse, tal pudesse constituir, acaso, um por acaso, ou nem por isso, benefício para a história dos seres humanos neste planeta, já mesmo antes deles tão atribulado. Mas não de trata de seres vivos, trata-se do mar: vistos de terra, de um monte, as extensões marinhas vão acabar numa linha, a linha do horizonte, onde ninguém as pode mais ver para além…

»»»»» Se quisermos isolar-nos, para nos concentrarmos em coisas nossas, e revermos o nosso curso planetário, salvo seja, feito de muitas mágoas, escolhemos um “ermo” inabitado, monte, vales e mar, onde haja por ali uma casa nossa onde nos abriguemos e passemos as noites, talvez maldormidas. Podendo escolher um monte, entre alguns montes sitos na mesma região, escolhemos aquele monte, uma tal topografia de onde emane uma “saudade”, que melhor se ajuste ao nosso turvado ânimo.

»»»»» Assim foi com a Menina e Moça, ou que assim o fora, por esta denominação a conhecemos, outra não nos será facultada, e que vem a ser a primeira narradora a introduzir a novela de Bernardim Ribeiro, justamente e abreviadamente conhecida por esse mesmo nome, mas cujo título, com que foi impressa, é Hystoria de menina e moça (1ª impressão: Ferrara, 1554).

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»»»»» Por essa natureza inabitada deambula a personagem e narradora Menina e Moça, ou que assim o fora, porque ela se apresenta como estando já distante dos tempos de meninice, e de tais deambulações leia-se a reportagem da mesma:

»»»»» Nesse monte mais alto de todos que eu vim buscar pela saudade diferente dos outros que nele achei, passava eu minha vida como soía [= segundo este costume]: ora em me ir pelos fundos destes vales que o cingem em derredor, ora em me pôr do mais alto dele a olhar a terra como ia acabar ao mar, e depois o mar como se estendia logo após ela, para se ir acabar onde o ninguém visse.

»»»»» E mais adiante esta narradora volta a situar-se:

»»»»» E ainda bem que não foi alto o dia, quando eu (…) determinei ir-me para o pé deste monte que de arvoredos grandes e verdes ervas e deleitosas sombras cheio é, por onde corre um pequeno ribeiro de água de todo ano, que nas noites caladas o rugido dele faz no mais alto deste monte um saudoso tom que muitas vezes me tolheu o sono a mim (…).

»»»»» Assim seria. E se, numa caminhada, tal como o referi em notas imediatamente anteriores, eu tenderia a uma ordenação das ideias e, por eventual acréscimo, a um apaziguamento e a um sono sossegado, a Menina e Moça, tal como o declara entre estas duas descrições de paisagem, obtém, por força dos seus “cuidados”, ou seja, sofrimentos trazidos pela rememoração de males anteriores e perspectiva de males continuados — obtém uma redobrada inquietação que, junto com o “rugido” da água do ribeiro, lhe impedem um sono sossegado.

»»»»» Assim que, para um sono sossegado, abstracção feita do “rugido” da água, nem todos os remédios serão bons. Haverá quem defraude um banco em milhões, e durma um sono sossegado, quaisquer que forem os “rugidos”. Assim, proponho uma pequena “filosofia”: nem sempre os mesmos remédios são recomendáveis para diferentes doentes.

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. Para a novela de Bernardim Ribeiro (1482 ?-1552 ?), utilizei a fixação do texto de Helder Macedo, Publicações Dom Quixote, 1999 (1ª edição: 1990). Os fragmentos transcritos constam das páginas 79-81.

»»»»» 2. A foto mostra uma perspectiva da estátua Bernardim Ribeiro (António Alberto Nunes, 1891), exposta no Museu de Évora.

 

António Sá

[13.02.2018]

 

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notas & noções 14 (2ª série)

notas & noções 14 (2ª série)

 

a auto-reflexão e as impossibilidades

»»»»» Há uma capacidade que uns têm e outros não — constato-o, não o julgo — de produzirem uma reflexão sobre si mesmos e seus respectivos lugares no mundo, constituindo o conhecimento daí adveniente a possibilidade de serem — e de abrirem a outrem a possibilidade de ser. Essa capacidade, quando existe, acontece pelo menos desde a adolescência, funda-se simplesmente na educação vulgar e na experiência vivida, também ajudando alguns genes herdados (conceda-se que a inteligência herdada não é uma igual herança para todos os seres humanos).

»»»»» Trata-se tão-só da experiência vivida e sua filtragem emocional e racional ou emotivo-racional. As comuns actividades sociais, as conversas, as leituras certas (que não o de há muito invasor “lixo ocidental”, na fórmula de Marguerite Duras) e a fruição das várias modalidades artísticas que a cidade oferece — tudo é útil e necessário para a lúcida auto-reflexão e consequente autoconsciência. E, para estas, a psicanálise é um modo privilegiado, mas não indispensável. Também não são indispensáveis a caminhada-sem-objectivo, nem a meditação zen, nas quais centrei as notas & noções 13. Em suma, basta filtrar, com a sensibilidade e a inteligência disponíveis, a experiência vivida, analisá-la e reflecti-la (em todos os sentidos), para se ter uma noção aproximadamente justa sobre si-mesmo, e uma eventual relação justa com outrem.

Giorgio de Chirico 001

»»»»» Nessas notas & noções 13, apontei a inviabilidade dos seres obtusos, que tanto intrigaram Gustave Flaubert, e sobre cuja imbecilidade Baudelaire fez um mordaz poema-em-prosa, acederem a um conhecimento de si-mesmos e sua inserção no mundo. Quando muito, acedem a um autoconhecimento qualitativamente mais distorcido que no comum dos mortais (porque há sempre margens de distorção em todos os humanos). Tal decorre de uma incapacidade congénita que não sei entender: filtram a experiência vivida circunscrevendo-a a mecanismos e esquemas de funcionamento vital mais ou menos inflexíveis, e aí ficam enclausurados. Esta estrutura cognitiva da estupidez também ocorre nos neuróticos e nos psicopatas, mesma não sendo estúpidos, que podem não sê-lo.

»»»»» Nessa minha síntese comportamental e caracterial dos seres obtusos, anotei: a surdez-mental, ou seja, a incapacidade de escutar outrem, sendo que ouvir ouvirão, mas não escutam; anotei também as certezas inamovíveis, ou movivelmente dependendo das ditaduras e derivas da doxa, da qual, aliás, se alimenta o ser obtuso. Claro que a psicanálise lhes passa ao lado — só elaborariam a sua irremediável estupidez. Caminhada ou meditação, práticas relativamente minoritárias, também não lhes seriam úteis. Mas enfim, é certo que vivem felizes e contentes consigo mesmos; e são partícipes, para grande estrago, de parte substancial do governo do mundo — o mundo em rotação de que todos somos parte.

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1. Registei, de há muito, esta feliz fórmula de Marguerite Duras, “lixo ocidental”, referindo-se a livros e filmes nulos, que invadem massivamente o espaço dito cultural. Tanto quanto lembro, ocorre numa entrevista.

»»»»» 2. O texto referido de Charles Baudelaire intitula-se Un plaisant, integrando a sequência Petits poèmes en prose (1855-1866).

»»»»» 3. Doxa é um termo cunhado por Roland Barthes para significar as mil e uma ideias~feitas, farrapos de ideias, inércias de ideias, tanto irreflectidas quanto correntes, que se impõem, nos espaços mentais das classes médias e populares, enquanto verdades tão “naturais” e “essenciais”, que nem é viável questioná-las: à doxa todos se devem submeter.

»»»»» 4. Para melancolizar estas notas, uma iconografia possível é a melancólica tela Mistério e melancolia de uma rua (Giorgio de Chirico, 1914). Um convite a uma caminhada ao longo das arcadas.

»»»»» 5. Para facilitar o confronto entre estas observações e as referidas notas & noções 13, constantes neste sítio, insiro-as a seguir.

 

António Sá

[06.02.2018]

 

 

 

 

notas & noções 13 (2ª série)

 

caminhar enquanto modo de silêncio e de autoconsciência, quando esta é viável

»»»»» Caminhar enquanto modo de buscar o silêncio ou, se acaso, a ressurgência interior. A acção, aqui, não tem outro objectivo senão o mesmo caminhar, ao contrário do comum das acções, essas que se realizam com um objectivo, e que são, quando não um modo de sobrevivência básico, uma forma de escape.

»»»»» O próprio silêncio, se ele existe, e ao qual procuram aceder os que praticam meditação zen; esse silêncio, se tal existe, seja ao menos uma aproximação ao silêncio, proporciona uma ordenação ou reordenação mental. Mas, bem-entendido, tal labor mental só é viável caso não se seja de todo estúpido, essa categoria tão inexplicável e misteriosa para Gustave Flaubert — e tão vastamente expandida.

»»»»» O silêncio interior entende-se enquanto modo de escuta atenta ao ser e ao mundo — e não é viável para os seres obtusos, que estão submetidos a uma inescrutável surdez-mental e a flácidas certezas; em consequência da surdez e das certezas, são judicativos, imperativos, invasivos, tão implacáveis quanto imunes a observações alheias; e são sempre inabalavelmente contentes e convencidos-de-si.

»»»»» E regressando ao caminhar sem outro objectivo que não seja o mesmo caminhar: Jean-Jacques Rousseau, Ralph Waldo Emerson, Arthur Schopenhauer, entre tantos outros, faziam e refaziam ideias caminhando.

 

António Sá

[28.12.2017/30.01.2018]

 

Desatino 81

Desatino / 81 [As conversas precipitam-se…]        

 

»»»»» Duas juvenis universitárias vêm pela desafogada Alameda da Universidade, e vêm conversando com ânimo na conversa. Inadvertido que vou em sentido contrário, consigo no entanto captar um rapto do que uma delas conversa para a outra:

»»»»» — … pá, eu não queria dizer-lhe isso, mas as conversas precipitaram-se e eu disse-lhe que sim…

 

 

António Sá

[08.02.2018]

 

Viagem para a Ilha

Viagem para a Ilha

 

»»»»» Ao minuto 15:45 a orquestra atinge a maior intensidade, entram tambores em raptos crescentes, representando um expansivo adeus ao usufruto da vida terrena, ao qual se segue o desembarque da “carga” na Ilha dos Mortos. A palavra traduzida, entre aspas, consta no original em inglês, “burden”, da prosa de apresentação do cd, assinada por Christopher Palmer, no qual se estabelece o argumento deste poema sinfónico de Rachmaninof: “The silent, shadowy approach of the boat, the journey through thick night and fog, the impassioned leave-taking of wordly bliss, the sweet release of death; then, having deposited the burden, the ferryman re-crossing the water and disappearing in a long-drawn diminuendo al niente.” (“A silente, sombria aproximação da barca, a viagem através de espessa noite e nevoeiro, o sentido adeus às alegrias mundanas, a pacífica entrega do morto; depois, depositado o  fardo, o barqueiro regressando sobre a água e desaparecendo num prolongado diminuendo al niente.”)

»»»»» Identifico o momento mais intenso ao referido minuto 15:45, quando a linha melódica atinge um clímax, até aí pontuado por espaçados e progressivos crescendo, e conflui em duas explosões orquestrais seguidas, e logo três mais breves, conclusivas — é aí o minuto 15:45. Identifico esse momento com a atracagem fatídica à Ilha. Na sequência, os tambores pontuam, com solenidade apaziguada, a descarga do “fardo”, ou seja, o esquife que seguia na barca. E segue-se o melancólico regresso do barqueiro que, na mitologia clássica, se nomeava Caronte: a mesma cadência inicial do poema, mais forte quando primeiro se “apresentava” a barca; e terminalmente mesma sugestão musical cadenciada dos remos sulcando a água, agora mais dolente. Em todo o momento inicial onde se “ouve” mais forte a cadência dos remos, também se “ouve” o ondular do lençol aquático e sente-se um deslizar onírico, calafrio quase voluptuoso, sobre as extensões enevoadas como, com outros recursos e em mares alterosos, se “ouvem” ondular as águas em La mer (Claude Debussy, 1903-1905), poema sinfónico da mesma vaga simbolista de finais do século XIX, princípios do século XX. Mas, omnipresentes no poema de Rachmaninof, alternando, as tonalidades ora intensas e sombrias, ora suaves e resignadas, da melancolia inerente à morte: esquecimento emocional, dissolvência vital.

Arnold Bocklin 1 001

»»»»» Este poema sinfónico de Sergei Rachmaninof, A Ilha dos Mortos (1909), foi confessadamente inspirado no quadro do mesmo nome de Arnold Böcklin. Quadro, ou mais exactamente quadros, uma vez que foram criadas cinco versões, conhecidas sob o mesmo título (primeira versão: 1880; última versão: 1886). No entanto, confessando a fonte de inspiração, confessou também só ter visto o quadro inspirador numa reprodução a preto-e-branco e que, aliás, se tivesse sido de outro modo, provavelmente não se teria abalançado a escrever a música sobre essa imagem: são assim as malhas que a criação tece. Daí a razão pela qual adoptei a reprodução a preto-e-branco para acompanhar este texto. Mas razão de outra ordem existe: e vem a ser que, da versão do quadro aqui reproduzida, a quarta, só existe o testemunho fotográfico a preto-e-branco: tal quadro era pertença do barão Heinrich Thyssen, e foi materialmente destruído no decurso dos bombardeamentos aliados, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A terceira versão havia sido comprada por Adolf Hitler, e encontra-se actualmente num museu berlinense; as outras versões estão em museus europeus, uma delas num museu em New York.

»»»»» Curiosamente, ou nem por isso, reproduções deste quadro e de outros de Böcklin decoravam as paredes das casas de famílias centro-europeias, nas primeiras décadas do século XX, como testemunha o escritor Vladimir Nabokov. Arrisco assim inferir que as burguesias industrial e comercial estavam imbuídas de uma algo ingénua e natural familiaridade da morte; o mesmo não diria das actuais classes médias que, prenhes de cupidez e arrogância, se revelam refractárias à ideia e lembrança da morte. E no entanto…

»»»»» O barqueiro que aparece na ideação de Böcklin é uma figura vertical, coberta desde a cabeça de um manto branco, e é quem rema. Identifiquei este barqueiro com o Caronte greco-clássico, mas será aqui um Caronte “humanizado”, porque o da mitologia panteísta era um génio mau, um irascível velho de barba hirsuta e, tiranicamente, não se dava ao trabalho de remar: obrigava os mortos que seguiam na barca a fazê-lo, pelos pântanos do rio Aqueronte.

»»»»» Em consonância com este poema sinfónico de Rachmaninof, o autor do texto de apresentação do cd cita assim estes versos de um Holy sonnet do poeta John Donne (1572-1631): “I run to Death and Death meets me as fast, and all my Pleasures are like Yesterday.” (“Vou para a Morte e a Morte me encontra logo, e todos os Prazeres me são como Ontem.”).

»»»»» De modo mais imagético, Camilo Pessanha (1867-1926), na antecâmara de Clepsidra, reduz esta fórmula abstracta a um verso de morbidez simbólica: “No chão sumir-se, como faz um verme…”

»»»»» E o Príncipe Hamlet, esse que, na sua existencial melancolia, se distraía a olhar olhos-nos-olhos a caveira maneirista, reflecte: “(…) — to die, — to sleep — / No more; and by a sleep to say we end / The heart-ache and the thousand natural shocks / That flesh is heir to (…)”. Retiro estes versos, arriscando traduzi-los a seguir, do longo e muito célebre monólogo do início do terceiro acto de Hamlet (William Shakespeare, 1603): “(…) — morrer, — dormir — / Não mais; e num sono dizer que acabamos / o sofrimento e os mil maturais sobressaltos / de que a carne é herdeira (…)”.

»»»»» No filme Wanda (Barbara Loden, 1970), um diálogo entre um ladrão, que morrerá no assalto-frustrado a um banco, e a protagonista, Wanda, uma mulher “perdida nas nuvens”, ou antes, em absoluto desconforto na vida; diálogo seco, brusco, nervoso, conduzido por esse inquieto assaltante, ele diz-lhe algo como isto: “se não tens nada, não és nada: melhor seria se estivesses morta”. Ela assente: se não tem nada e não vale nada (“I’m no good”, dirá mais adiante), bem poderia estar morta. E ele insiste, acrescentando que nem sequer é uma “cidadã americana”: é como se já estivesse morta. Pode ler-se este diálogo enquanto resumo alegórico do estatuto das mulheres, nem sequer “cidadãs”, portanto condenadas a morte civil, em séculos de civilização ocidental, que terá sido, supõe-se, a melhor civilização forjada pelo animalhumano. Aquele diálogo ocorre num escalavrado plaino, durante uma pausa de intermináveis percursos de automóvel — paisagem de um espaço geográfico que é, actualmente, símbolo da morte civilizacional da era Trump: a América profunda do Tea Party e das minas de carvão, que instituem uma figuração outra dos pântanos do rio Aqueronte.

»»»»» Fico-me por aqui para esta antologia de recordações: para melhor se apreciar e celebrar a vida, em seu curso, e de modo mais justo para connosco e para com outrem nos situarmos, são indispensáveis estas recordações, que a melhor literatura e a melhor arte sempre proporcionam — recordações da melhor recordação que importa recordar a cada momento: a da tal barca de Caronte, seja um Caronte carinhoso ou irado, tanto faz, que nos há-de levar para essa Ilha de onde não se regressa.

 

»»»»» Referências:

»»»»» 1. O registo em CD utilizado foi Rachmaninof: Symphonic dances / The isle of the death, Concertgebouw Orchestra / Vladimir Ashkenazy (Amsterdam, January, 1983), DECCA (Germany, 1991).

»»»»» 2. Para Camilo Pessanha seguiu-se o texto de Clepsidra e outros poemas de Camilo Pessanha, Edições Ática, 5ª edição, 1973.

»»»»» 3. Para Shakespeare utilizou-se The complete works of William Shakespeare, Spring Books, 1979 (1ª impressão: 1958).

 

 

António Sá

[10.01.2018/05.02.2018]

 

notas & noções 13 (2ª série)

notas & noções 13 (2ª série)

 

caminhar enquanto modo de silêncio e de autoconsciência, quando esta é viável

»»»»» Caminhar enquanto modo de buscar o silêncio ou, se acaso, a ressurgência interior. A acção, aqui, não tem outro objectivo senão o mesmo caminhar, ao contrário do comum das acções, essas que se realizam com um objectivo, e que são, quando não um modo de sobrevivência básico, uma forma de escape.

»»»»» O próprio silêncio, se ele existe, e ao qual procuram aceder os que praticam meditação zen; esse silêncio, se tal existe, seja ao menos uma aproximação ao silêncio, proporciona uma ordenação ou reordenação mental. Mas, bem-entendido, tal labor mental só é viável caso não se seja de todo estúpido, essa categoria tão inexplicável e misteriosa para Gustave Flaubert — e tão vastamente expandida.

»»»»» O silêncio interior entende-se enquanto modo de escuta atenta ao ser e ao mundo — e não é viável para os seres obtusos, que estão submetidos a uma inescrutável surdez-mental e a flácidas certezas; em consequência da surdez e das certezas, são judicativos, imperativos, invasivos, tão implacáveis quanto imunes a observações alheias; e são sempre inabalavelmente contentes e convencidos-de-si.

»»»»» E regressando ao caminhar sem outro objectivo que não seja o mesmo caminhar: Jean-Jacques Rousseau, Ralph Waldo Emerson, Arthur Schopenhauer, entre tantos outros, faziam e refaziam ideias caminhando.

 

António Sá

[28.12.2017/30.01.2018]

 

Pluriplicante 11

Pluriplicante 11 (… sobre fantasias com que os humanos se distraem)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» Um ataque sistemático de extraterrestres, instalados em pequenas naves tão indestrutíveis quanto destruidoras, pode reflectir os medos da população norteamericana, em plena época da Guerra Fria, consubstanciados na ameaça nuclear. Esta é a corrente interpretação para um filme de ficção-científica como War of the worlds (Byron Haskin, 1953), em muito cromático technicolor, baseado na célebre e homónima novela de H. G. Wells (1897).

 

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»»»»» De acordo, mas acrescento as seguintes observações:

»»»»» Sendo as pequenas naves marcianas indestrutíveis, nem a artilharia convencional, nem a mais potente bomba atómica lhes provoca qualquer beliscadura, a dita Humanidade, aqui representada centralmente pela população californiana-branca, refugia-se em última instância nas igrejas e nas preces. Assim, a violência destrutiva, característica essencial dos seres humanos, vem a ser transferida para os alienígenas, ou seja, para o outro — entidade em absoluto poderosa, ao modo de um demiurgo, e assim imbuída de violência absoluta. Por contraste, para os humanos sobra a religiosidade, a hipnose espiritual das preces ao encontro do divino, à espera de um milagre. E… tal “milagre” acontece, sob a forma de bactérias. Os alienígenas respiraram a atmosfera terrestre e foram colapsando, as naves mortíferas despenhando-se por todos os lugares onde actuavam entretanto. Um comentário em voz off remata a ficção, sublinhando a ironia “miraculosa” que fez com que ínfimas “criaturas de Deus”, as bactérias, tivessem salvo a espécie humana da extinção.

 

Byron Haskin 2 001

»»»»» Todas estas fantasias primárias fazem, no entanto, figura de alto e subtil “pensamento”, se confrontadas com as actuais e presidenciais correntes de despenteamento mental norteamericano.

 

 

António Sá

15.01.2018

 

Pluriplicante 10

Pluriplicante 10 (Os assassinos morrem)

Esboços pluriplicantes das razões e desrazões, dos retratos e desretratos dos cotidias.                                                          

 

 

»»»»» A curta notícia, inserta numa coluna do jornal Público a 15 de janeiro de 2018, informa que morreu na prisão, aos 92 anos, Edgar Ray Killen. Nunca tinha tido conhecimento da sua existência, nem vi o filme sobre, e agora que morre leio estas linhas de jornal, junto com a foto, que a seguir reproduzo, para obviar a história:

 

Edgar Ray Killen 001

 

»»»»» Os assassinados era jovens activistas, nesses anos fatídicos para os negros norteamericanos, lembre-se, entre muitos outros, o assassinato de Martin Luther King: esses anos da década de sessenta: os jovens negros da notícia foram emboscados e mortos em 1964.

»»»»» O que foi e andou na cabeça deste assassino Edgar, explico-o em parte ou em partes: primeira parte, o animalhumano é essencialmente violento; segunda parte, o animalhumano tende a ser particularmente violento sob o sentimento do medo, real ou fantasiado, individual ou colectivo. Edgar Ray Killen, como todos os racistas e xenófobos, vivia, explico eu, sob a tão insuportável quanto fantasmática pressão do medo, indutora de patologias — o outro atemoriza as crianças, os débeis mentais, os ignorantes (de que as actuais classes médias estão prenhes). Estas são as partes que eu me explico, haverá outras acaso que não me sei explicar. Mas inda acrescento estas partes: o caldo de cultura puritana e segregativa anglo-saxónica (o negro é de uma “suja” fisicalidade exposta); o auto-desconhecimento de si-mesmo (e esta falha pode ter efeitos letais).

»»»»» Edgar Ray Killen era um chefe da Ku Klux Klan, em 1964, e até â morte terá mantido a sua perspectiva segregacionista, escreve a notícia. O nascimento desta organização racista é reportado — e de que grandiosa maneira! — pelo que eu reputo o mais genial realizador norteamericano do século XX, ou antes, o mais absolutamente genial do cinema tout court do século XX: David Wark Griffith. A maioria dos seus filmes data da época do cinema mudo, mas são todos mais sugestivos e luminosamente emotivos do que a maioria dos entretanto realizados até ao nosso século XXI. Um filme seminal da história contemporânea dos EUA, realizado por Griffith, é justamente The birth of a nation (1915). Ainda hoje está por esclarecer, ou eu estou por perceber, em que medida o realizador seria adepto do segregacionismo. Sendo um filme eminentemente épico, em toda a plenitude da palavra, pode parecer ambígua a sua euforia visual, mas não é necessário que seja lido enquanto apologético do poder branco.

 

 

António Sá

17.01.2018

 

Desatino 80

Desatino / 80 [O avô da velhinha]  

 

»»»»» Empregada de balcão a uma velhinha septuoctogenária, acabada de entrar na cafetaria:

»»»»» — Então o seu avô está melhor?

»»»»» Responde a velhinha, encolhendo os ombros, cordas vocais temperadas de muito esganiçamento:

»»»»» — Oh, desta vez é que ele está mal… desta vez passou muito mal… esteve mesmo a morrer!…

 

 

António Sá

[08.12.2017]

 

Dezassete anos

Dezassete anos

 

Techine 1 001

»»»»» Poderei defender, creio que sem grandes contras, a assunção de que o personagem Thomas (Corentin Fila) sofre da síndrome de abandono. É um dos dois protagonistas do filme Quand on a 17 ans (André Téchiné, 2016) e, começando pelo argumento mais decisivo, o próprio personagem verbaliza o seu ressentimento ao pai adoptivo, agricultor nos Pirenéus, resmungando que o adoptaram porque não conseguem ter filhos naturais e, assim, não lhes merece a atenção que dariam a um filho próprio. No entanto, pai e mãe, esta frequentemente adoentada, são gente tranquila e cuidadora, a mãe é até doce e carinhosa, e este filho adoptivo trata-a, n’empêche, com preocupação e desvelo. Pode, por hipótese, considerar-se que a sua síndrome de abandono é anterior à adopção, corresponde a uma construção psicológica decorrente da sua experiência anterior, de criança mestiça, órfã ou simplesmente abandonada, situações pelas quais, quaisquer que fossem, o filme não se aventura. Contextualizando o feliz final na vida amorosa deste adolescente protagonista, há um desenvolvimento auspicioso na sua relação filial, já que esta mãe por adopção consegue enfim ter um filho natural, e Thomas, apesar de alguma inicial confusão e resistência, vem a aceitar com encanto o recém-nascido nos braços.

»»»»» Outro sintoma decorrente da síndrome de abandono é a pertinaz agressividade de Thomas. Vem a revelar-se, no projecto de significação do filme, que esta agressividade se funda não só no sentimento de abandono, mas ainda na auto-rejeição de pulsões sexuais. Agressividade que se manifesta sobretudo pelo exercício de bullying, desde o invernoso início do ano-lectivo, sobre um colega louro e esguio, o inteligente da turma, Damien (Kacey Mottet Klein), filho da dedicada médica-de-aldeia, que eventualmente trabalha de modo gratuito, e que acontece ser a médica a cuidar da saúde precária da mãe adoptiva do mestiço Thomas, aluno medíocre, colega isolado, bully  — isto em contexto escolar, sendo ele diligente tratador do gado na adoptiva propriedade agrícola, aspirando a ser veterinário.

»»»»» O filme centra-se na relação entre o mestiço Thomas e o louro Damien (… on a 17 ans). E não se pode considerar, senão de início, uma situação de corrente bullying, em que um esmaga o outro, porque Damien, que treina boxe com um tio, evolui para recíproca resposta. E os confrontos físicos entre ambos prolongam-se ao longo do tempo narrativo, o de um ano-lectivo, até ao verão. Mesmo quando, por força do internamento hospitalar da mãe adoptiva, Thomas é convidado a habitar na casa da médica, mãe de Damien, e contra as expectativas desta, que simpatiza com e apoia Thomas, as agressões entre os dois jovens inimigos progridem em violência espontânea e pervertem-se em violência programada, combinando-se eles o tempo e o lugar onde se vão bater, à maneira de membros de um fight club.

»»»»» Assim como fiz por argumentar quanto à síndrome de abandono do mestiço adoptado, poderei desenvolver, creio que sem nenhuns contras, algumas variantes sobre a sua homofobia, sendo que nem esta palavra, nem a palavra “homossexual”, seus derivados e afins, ocorrem nos diálogos entre personagens, quer principais quer secundárias. Quando, em algum momento, Damien revela à mãe que foi violentamente agredido (tendo de receber tratamento hospitalar) por Thomas, porque tentara beijá-lo, a mãe não se surpreende, apenas o ouve. Mesmo em todo o entrecho em que é ostensiva a homofobia de Thomas, ele não a verbaliza com algum vulgar insulto, apenas comenta que Damien lhe parece “pretensioso”, além de manifestar o seu incomodado desdém pelo facto de este usar um brinco na orelha.

»»»»» Entre perturbações da ordem e progressos, os resultados de Thomas melhoram com a sua nova vida em casa da médica, mãe de Damien, e o estudo de Filosofia, feito em colaboração entre os dois adolescentes, permite aclarar e, à la longue, desbloquear a suspeita rigidez homofóbica de Thomas, por intermédio de Platão, onde lêem que se a sexualidade entre um homem e uma mulher se destina à fecundação, a sexualidade entre dois homens proporciona a saciedade do desejo… Entretanto o recém-nascido filho natural, concebido pela mãe-adoptiva de Thomas, enquadra este, como já assinalei, no seu universo familiar agora aumentado. E, como já se perspectivara em alguns momentos de “quebra”, Thomas até aceita o apelo físico-amoroso de Damien, embora logo o rejeite com redobrada e, por isso mesmo, suspeita violência. Entre avanços e recuos, o relacionamento entre eles evolui para o erotismo efectivo e continuado.

»»»»» A abertura panorâmica do filme, montanhas e extensões nevadas, pode induzir a expectativa de personagens em estado “selvagem”, “instintivo”, como por exemplo sucede com essa “mulher selvagem” que se desencadeia nos cenários naturais de Ruby Gentry (King Vidor.1952). E, em alguma medida, as deambulações na neve e os mergulhos de Thomas, nas águas frias do rio, remetem para essa perspectiva. É uma sugestão viável, mas os personagens desta narrativa estão situados no espaço de uma ruralidade contemporânea, com o “conforto” tecnológico de um país centro-europeu economicamente desenvolvido… sendo o cotidiano e a psicologia de todos eles decorrente dos parâmetros e condicionantes da ordenação social do Ocidente. E enfim, os grandiosos cenários naturais não servem uma épica nostalgia da natureza em estado “bruto”, virgem ou quase, como sucede em Derzu Uzala (Akira Kurosawa, 1975), antes anotam as dificuldades do jovem estudante mestiço, que tem de se deslocar a pé pela neve, em parte do percurso, e depois no autocarro escolar; e anotam também o desanuviamento relacional dos jovens, coincidindo com a primavera, que se revela tão propícia como a primavera que servia aos trovadores provençais, no século XII, e galego-portugueses, no século XIII, de paisagem para as situações amorosas; estes eram “os que trobam no tempo da flor”, nas palavras de Dom Dinis, ou seja, os que cantam quando se produz a primavera.

 

António Sá

[06.11.2017 / 28.11.2017]

 

Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho (1ª parte)

Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho (1ª parte)

 

 

 

Vivarini 2 001

»»»»» Micropormenor da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

 

 

 

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» mirad la miséria de mí, pecador.

 

 

 

 

Pés e mãos

»»»»» Em apóstrofe e prosopopeia, ou seja, dirigindo-se-lhes como seres pensantes autónomos, o Pobre do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504) interpela as pernas e as mãos: as pernas que mal podem levá-lo pelo caminho, as mãos que têm de agarrar o bordão, utensílio necessário para que o corpo se desloque no espaço:

Oh, piernas, llevadme un passo siquera;

manos, pegaos n’aqueste bordón,

(“Oh, pernas, levai-me um passo ao menos;

mãos, fincai-vos neste bordão,”)

»»»»» E, nesse movimento que realizam pernas tolhidas e mãos ingentes, as dores que descansem de tanta passión, na fórmula castelhana, ou seja, tanto sofrimento (passio, em latim):

descansad, dolores de tanta passión;

(“descansai, dores de tanto sofrimento;”)

»»»»» Mais adiante, na segunda estrofe, interpela os cristãos; pede-lhes, num exibicionismo típico de pedinte, que olhem para ele,

mirad ora el triste que estoy lastimado

de pies y de manos por mi desventura;

(“olhai ora quão triste estou, lastimado

de pés e de mãos por minha desventura;”)

»»»»» e logo, na terceira estrofe, insiste em que olhem para a sua miseria:

mirad el tollido de pies y de manos;

mirad la miseria de mí, pecador.

(“olhai o tolhido de pés e de mãos;

olhai a miséria minha, pecador.”)

»»»»» É a só vez na qual ocorre o termo pecador no discurso do Pobre, sendo no entanto central na operacionalidade lógica do discurso: por ser pecador, ele está a ser sujeito a todos os males físicos que o atormentam. O corolário será que todos os males supervenientes do acidente, da doença e da velhice serão os castigos devidos ao pecador. Por muitos séculos este juízo (ou falta dele) foi um expoente de um tipo de “verdade” inerente à vida dos seres ditos humanos sobre o planeta dito terra, na insana deriva planetária do universo.

 

 

Chagas

»»»»» O Pobre sin ventura pede limosna (“esmola”) aos cristãos devotos, pede insistentemente ao longo do seu discurso; este é o termo que mais vezes ocorrerá. Pede por se encontrar enfraquecido e plagado, ou seja, coberto de chagas:

Devotos Cristianos, dad al sin ventura

limosna, que pide por verse plagado;

(“Devotos Cristãos, dai ao sem ventura

esmola, que pede por ver-se chagado;”)

»»»»» Pede esmola, exibindo as suas chagas (segunda estrofe):

mirad estas plagas que no sufren cura;

(“olhai estas chagas que não sofrem cura;”)

»»»»» Um pouco adiante (terceira estrofe), regressa à atitude exibicionista:

Mirad ora el triste con mucho dolor;

que ante de muerto me comen gusanos;

(“Olhai ora o triste com tanta dor;

que antes de morto me comem os vermes;”)

»»»»» Este último verso é um dos cumes de morbidez do Auto: os gusanos comem-lhe já o corpo antes de morto. E se em geral o Pobre se refere a si na terceira pessoa, ele é “o triste”, aqui assume escatologicamente a sua carne “me comem os vermes”.

[06.11.2017/10.11.2017]

 

Vivarini 1 001

»»»»» Pormenor central da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1. As imagens que acompanham este texto correspondem: a um micropormenor e a um pormenor da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

»»»»» 2. Em projecto, a redacção de textos parcelares subsequentes, sob o mesmo título Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho, incidindo sobre o delírio conceptual do Pobre, no discurso inicial da peça vicentina; este texto e os subsequentes constituirão o segundo painel, cujo primeiro é o já redigido e aqui editado, Perspectiva sobre São Martinho. Título geral para este duplo painel: Perspectivas sobre São Martinho e seu pedinte.

»»»»» 3. Insere-se em Adenda o texto original em castelhano do Auto de São Martinho, sobre cujas três primeiras estrofes incidiram as considerações acima textualizadas.

 

»»»»» ADENDA

Auto S Martinho 1 001

Auto S Martinho 2 001

Auto S Martinho 3 001

Auto S Martinho 4 001

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

 

António Sá

[06.11.2017/11.11.2017]