Desatino 34

Desatino / 34 [A muleta de permeio]

 

»»»»» Numa rua estreita lateral a um dos centros-centro da cidade, praça demasiada de turistas em desacerto de lugar, estaciona, ao lado de uma regular prostituta jovem de minissaia, uma outra nem jovem nem velha, nem gorda nem magra, nem bonita nem feia, nem negra nem branca, antes meiomulata. Neste seu nenhuma coisa particular, havia esse particular de ter uma das pernas soltamente assente sobre assento-em-galho de muleta ortopédica. Esta muleta prostituinte não me chamaria a atenção, porque passava inatento só circulando, se não a frase atirada me agredisse:

»»»»» — Eu cá já nem me dou ao trabalho!

»»»»» Integrei, desintegrei, reintegrei esta frase seguindo o meu percurso, que me bastava, não quereria ouvir palavras ditas por olha quem — ser-me-iam dirigidas? Pouco importa, malpassei, também não me dou ao trabalho.

»»»»» Repensando a figura e o caso, imaginei que quem haveria de contratar aquela prostituta sem nenhum particular, nem nada atractiva, seria pela espécie de muleta com galho adjacente. No entanto, na cama, a muleta não é necessária. Ou, vendo bem a questão, também não impede nenhum tipo de relação erótica, acaso com a perna molesta assente sobre a muleta de permeio.

 

António Sá

[18.08.2013]

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