Monthly Archives: June 2014

Este deserto / This desert

Este deserto / This desert

(poema e comentário em português e em inglês)

 

»»»»» Poema de Abú Imrane Almertuli (místico e poeta, falecido em 1194 ou 1195 da era cristã):

 

 

Quantas coisas digo que não faço

quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé em terra.

 

Critico os meus olhos e não se convencem;

aconselho minha alma, não aceita os meus conselhos.

 

Ai quantas coisas se desculpam, dizem:

“talvez mais tarde”. Quantas se demoram.

 

Em quantas coisas confio

que terei longa vida, e me atraso.

Mas a morte não se atrasa.

Todos os dias brada entre nós

 

o pregoeiro da caravana: “Alto!”

Depois de setenta e nove anos,

deverei esperar uma vida longa? (…)

 

 

»»»»» Poema incluído no volume IV da obra Portugal na Espanha árabe, organização, prólogo e notas de António Borges Coelho, Seara Nova, Lisboa, 1975.

 

»»»»» Uma referência concreta, pontual, situa-nos imaginariamente na paisagem do deserto, os areais extensos, terras inóspitas por onde a caravana faz caminho nestes versos de Abú Imrane Almertuli: “Todos os dias brada entre nós / o pregoeiro da caravana: ‘Alto!'”. Tendo vivido em Mértola, junto ao rio Guadiana, no século XII, o poeta e místico Abú Imrane recorre a imagens secularmente inscritas na tradição cultural árabe.

»»»»» Assim, o pregoeiro da caravana é quem transmite a ordem de avançar ou parar e, numa interpretação imediata, ele encontra-se “entre nós”, ou seja, entre os viajantes nómadas que integram a caravana. Estes nómadas são a metáfora de todos os seres humanos, todos “nós”: a caravana realiza o percurso de todos os seres humanos, os quais, tal como a caravana avança pelo deserto, avançam pela vida adiante. Que o deserto seja a imagem indirectamente sugerida para designar a vida, não deixa de ser adequado a uma perspectiva mística como seria a de Abú Imrane Almertuli.

»»»»» A esta metáfora da caravana junta-se outra, centrada na figura do pregoeiro, cuja função é a de bradar “Alto!”. Pelo contexto, compreende-se que este pregoeiro é a figura que representa a morte, porque o verso anterior diz “Mas a morte não se atrasa”.

»»»»» Uma e outra completam-se: a metáfora da caravana enquanto percurso colectivo dos seres humanos no curso da vida, evoluindo no deserto, que constitui o ambiente desta mesma vida, segundo a visão do poeta; e a metáfora do pregoeiro, figuração da morte omnipresente “entre nós”, a morte que visa algum ser humano dos que integram a caravana dos seres humanos na sua totalidade, e decide, ao dizer “Alto!”, quanto ao momento em que o tempo de vida individual deve terminar.

»»»»» Estas metáforas constróem uma breve alegoria, que é, por definição, uma sequência organizada, compreensível, de metáforas. Construção alegórica que surge no fim do poema e serve para cristalizar a ideia que o percorre: a sensação de desperdício do tempo útil de vida, tempo que damos por perdido, não fazendo o que havia a fazer, arranjando desculpas para adiar indefinidamente as coisas que para nós são importantes, atrasando-nos, confiando na possibilidade de as fazer mais tarde. “Mas a morte não se atrasa”, como diz o verso, e podemos nunca vir a fazer o que adiámos.

 

 

 

 

 

This desert

 

»»»»» Poem by Abú Imrane Almertuli (mystic and poet, death in 1194 or 1195 a. C.)

 

 

How many things I say I do not do

how many turns without deciding to put my feet on earth.

 

I criticize my eyes and they do not convince themselves;

I advise my soul, which does not accept my advice.

 

Oh, how many things are excused, by saying:

“maybe later”. How many of them are delayed.

 

How many things I believe

that I will live long, and I retard myself.

But death can’t be retarded.

Every day he shouts among us

 

the caravan’s crier: “Stop!”

After seventy nine years,

should I expect to have a long life? (…)

 

 

»»»»» Poem included in the volume IV of the work Portugal na Espanha árabe, organization, prologue and notes by António Borges Coelho, Seara Nova, Lisboa, 1975.

 

»»»»» A concrete, exact reference situates us imaginarily in the landscape of the desert, the extended sands, the inhospitable lands where the caravan makes its way according to these verses by Abú Imrane Almertuli: “Every day he shouts among us / the caravan’s crier: ‘Stop!'”. Having lived in Mértola, beside the Guadiana River, in the twelfth century, the poet and mystic Abú Imrane uses images inscribed in the Arab’s cultural tradition for centuries.

»»»»» Thus it is the caravan’s crier that transmits the order to go or to stop, and, in an immediate interpretation, he finds himself “among us”, what means among the nomad travellers who integrate the caravan. These nomads are the metaphor to all human beings, all of “us”: the caravan makes the course of all human beings, who advance throughout life as the caravan advances along the desert. The fact that the desert is the image, indirectly suggested, designing human life is completely adequate to such a mystic perspective as that of Abú Imrane Almertuli.

»»»»» To this metaphor another one is joined, which is centred in the crier’s figure, whose function is to shout “Stop!”. By the context, we understand that this crier is the figure that represents death, because the previous verse says “But death can’t be retarded”.

»»»»» Both of them complete themselves: the metaphor of the caravan while a collective course of human beings in the path of life, according to the poet’s vision; and the metaphor of the crier, the figuration of the omnipresent death “among us”, the death that is aimed at one of the human beings that integrate the human beings’ caravan in its all, and decides, by saying “Stop!”, about the moment when the individual’s life time must end.

»»»»» These metaphors build a brief allegory, which is, by definition, an organized, comprehensible sequence of metaphors. This allegoric structure that appears in the end of the poem serves to crystallize the idea that goes through it: the sensation of useful time’s loss, time we consider to be lost, not doing what we had to do, finding excuses to postpone indefinitely things which are important to us, delaying, trusting the possibility of doing them later. “But death can’t be retarded”, as the verse says, and we may never be able to do what we have postponed.

 

 

António Sá

[2003]

 

O lago desencantado

O lago desencantado

 

 

»»»»» 1. Uma interpretação e mais duas

»»»»» Interpretação mais óbvia para definir o personagem Michel no filme L’inconu du lac (Alain Guiraudie, 2013) é a de se tratar de um homem incapaz de afectos. Esta desafecção caracterial, ao nível da psicopatia, dá-lhe azo a desembaraçar-se de um amante de ocasião, que se lhe tornava incómodo pela urgência de atenção exclusiva, afogando-o no lago. Urgência de tal amante manifestamente obstrutiva, apesar de a relação entre o par ser dada em apontamentos brevíssimos. O personagem Michel revelará, em atitudes e enleio discursivo, nulos remorsos do assassínio que executa arduamente e sem misericórdia. Dirá depois, como se de pouca coisa se tratasse, que aquele jovem afogado não lhe fazia falta. Confessa isto ao subsequente amante de ocasião, sendo que este começa a enveredar pelo mesmo erro, apelando a um envolvimento afectivo que o estar-se apaixonando lhe impulsiona. E se, nos tempos iniciais, Michel resiste a estes apelos, há um outro tempo em que flecte, o seu ser só máquina-de-sexo manifesta ciúmes em relação a um amigo-de-passagem de Franck, é este o nome do seu novo amante; também se mostra inquieto e reivindicativo pelo facto de este ter chegado algo mais tarde na tarde. Num tempo final, sempre curtos tempos medidos dia-a-dia, revela-se ansioso porque Franck parece ter perdido a tensão sexual por ele, e talvez a pulsão amorosa.

L'inconu du lac 001

»»»»» Desenvolvendo aquela interpretação quanto ao personagem-assassino, consideraria que a esse tempo em que flecte, em que enfim um outro humano lhe desperta sentimentos, lhe desvenda afectos inéditos, o seu sistema de racionalidade das acções se desequilibra e o tranforma numa máquina de autoprotecção intempestivamente assassina. Assim, provocado pelo nédio Henri, o tal amigo-de-passagem que Franck desencantou de uma absorta contemplatividade; assim provocado num diálogo em que Henri lhe sugere que provas hão-de aparecer revelando-o enquanto o assassino, Michel eliminá-lo-á a breve trecho, cortando-lhe as carótidas e, mais tarde, nessa voragem desencadeada, cravará a sua faca no abdómen do detective que pelo bosque anda inquirindo os frequentadores-homo. Um deambular e semear cadáveres, o do assassino, à beira do guinhol, para finalizar o enredo.

»»»»» Este final, deixando a acção em aberto, pode inculcar duas interpretações, sendo uma o contrário da outra. Franck testemunhara emboscado o primeiro assassínio cometido por Michel ao afogar o companheiro. E, não obstante, deixou-se envolver e apaixonar pelo assassino e, muito a medo, teve coragem bastante para nadar com ele no lago a desoras. Ainda que em diferido, testemunhou o assassínio de Henri e, em directo, escondido no bosque, o do detective. Em movimento de fuga, foi perseguido nesse bosque pelo alucinatório e alucinado multiassassino, que chamava por ele, que se mostrasse, não lhe faria mal, precisava dele. Primeira das duas interpretações: na neoemoção de experimentar sentimentos por alguém, Michel necessita de facto do conforto e cumplicidade amante de Franck, e não lhe fará mal, tanto mais que crê que este ainda o ama “um pouco”. Segunda das interpretações: na alucinação-voragem assassina que o move, chama o recém-amante para o eliminar, ou por senti-lo já enquanto ameaça à sua anterior conformidade inemocional, ou porque este poderá incriminá-lo enquanto testemunha entretanto hostil, ou as duas coisas. O som da voz de Michel no bosque afasta-se e apaga-se. Franck ergue-se do seu esconderijo no canavial e, receoso, chama o amado pelo nome em voz débil. Não sendo contestado, repete o chamamento em voz mais forte. E a imagem última suspende-se neste apelo suspenso.

 

»»»»» 2. As pulsões suicida e homicida

»»»»» A paisagem de lago e bosque, de onde os espectadores nunca saem, é aprazível, tranquila, só as acções dos homens a vêm perturbar. Não são estes homens seres poéticos (no sentido de aéreos, inobjectivados), aqui só ou sobretudo máquinas desejantes e desejadas; o único ser de onde alguma poesia se desprende é o do sempre absorto na paisagem Henri, desgraciosa, nédia figura, suporte paciente das conversas com o belo Franck.

»»»»» Mas neste universo restrito onde se lê a evidente indiferença, ignorância voluntária de um desaparecimento, revela-se muito de pulsão suicida. Desde logo esse absorto mas atento Henri, provocando aquele que por dedução sabe ser o assassino, e dando-lhe pretexto e ocasião de por ele ser assassinado. Mas sobretudo Franck, esse jovem ex-vendedor de fruta num mercado, que testemunha visualmente o cruel afogamento provocado ao largo, vê claramente visto quem é o assassino e não obstante não o estranha, aceita-lhe a aproximação, apaixona-se e, no misto sentimento de fascínio e terror, arrisca-se a nadar com ele nesse lago desencantado onde nenhum mítico siluro se torna realidade comprovável e, na sequência final, chama temerariamente por esse amante-assassino, num contraditório sentimento de o confortar, partilhar loucamente com ele todo esse mal, e também sentimento de terror, um terror de tonalidade suicida.

»»»»» E é sem embargo um traço de Romantismo, num filme tão estritamente realista, esse amour fou entre os protagonistas, que os projecta a ambos em abismo.

»»»»» Amour fou, expressão que se consagrou cinematograficamente na obra de longa, longa respiração realizada por Jacques Rivette em 1968 — e cujo título é justamente L’amour fou. Neste filme de Guiraudie, o amour fou combina com a perversité française. Muito do cinema corrente francês persegue, muitas vezes mal ou mais-ou-menos (caso de Catherine Breillat, mais para o mal do que para o mais-ou-menos), enfim raramente bem, persegue esta perversidade, na linha de algum imaginário do mal de que existe importante tradição na literatura francesa.

»»»»» Enquanto no filme de Rivette o amor tende para uma lenta, continuada, segura deliquescência, na qual os amantes se fundem interminavelmente, em L’ínconu du lac a perversidade inocente, se tal oximoro se consente, está do lado dos amantes: esse que satisfazendo a atracção sexual se envolve com o assassino; e aquele que, incônscio de si enquanto assassino, se conduz de modo a realizar a imediata atracçáo sexual. A esta atracção se entregam ambos confiadamente, dispensando qualquer protecção para qualquer prática sexual, pulsões suicida e homicida fusionando.

 

»»»»» 3. Estereótipos, arcaísmos e tipologias

»»»»» Estereótipos relativos à homossexualidade emergem:

»»»»» Um deles, por exemplo, a concepção, segundo o nédio Henri, de que não há essa coisa de homos apenas homos, terão de ser casados ou, sendo jovens, terão namorada ou noiva.

»»»»» Outro, o da normalização do desejo, segundo o detective, que estranha a prática de sexo-pelo-sexo, sem que os parceiros sequer se conheçam, nem saibam os nomes recíprocos.

»»»»» Um outro, e ainda segundo o detective, a suposição, ao gosto policiesco, de que andará ali em acção um serial-killer homofóbico.

»»»»» E ainda outro, estereótipo este mais geral, não só homotípico, se infiltra na relação entre os dois protagonistas, que é o da previsão da futura fadiga inerente à convivência cotidiana, à co-habitação enquanto regime de vida.

»»»»» Estereótipos que circulam num micro-conspecto social algo arcaizante. Nomeadamente, arcaísmos: no tipo de encontros-homo, que só residualmente serão hoje assim; no look dos personagens, deriva dos aspectos, sobretudo o do assassino, muito à Tom Selleck, muito anos 1970-1980, que também já não corresponde ao da masculinidade, ou da homomasculinidade da actual década do século XXI; na figura do detective, isolado na sua démarche, que nos faz recuar a um universo cinematográfico perdido algures por 1950 ou, no melhor dos casos, ao cinema de Jean-Pierre Melville, já nos fabulosos anos sessenta franceses do século passado.

»»»»» E quanto a tipologias: da nem talvez vintena de frequentadores, vêem-se à distância um e outro jovens de aspecto atractivo; dois homos adultos conhecidos de Franck; um casal-homo que sobressai, a nível das interacções com o protagonista, composto por um “macho” muito irritante na definição territorial e o comparsa, voyeur insistente, que circunstancialmente fará uma felação a Franck; e enfim um adulto de boné, homenzinho um tanto calvo, híper-escrupuloso, quase burocrata nas relações sexuais, que tem peso na intriga por ser eventual testemunha, perante o detective, da inocência de Franck no crime.

 

»»»»» 4. Notas aproximativas

»»»»» Nota um. Foi observado por críticos de cinema a similitude do cruel, arduamente perpetrado assassínio de um rapaz paraplégico, ao largo de um tranquilo lago, crudelíssimo crime da belíssima Gene Tierney no belíssimo melodrama Leave her to heaven (John M. Stahl, 1945). Aproximação esta, entre os dois filmes, que merece algum desenvolvimento num outro texto.

»»»»» Nota dois. Aproximação a fazer com outros filmes franceses onde a iluminada paisagem de verão é o envolvente e natural décor. Recordo, de imediato, filmes de Renoir, Rohmer, Téchiné.

»»»»» Nota três. Algumas situações sexuais resolvem-se, em L’inconu du lac, com a masturbação partilhada e em planos de conjunto ou planos gerais. Contrastivamente, é construída num longo plano-sequência hiperiluminado a masturbação a sós do louro jovem grego, que se consuma no filme Boy eating the bird’s food (Ektoras Lygisos, 2012). Também construída em plano aproximado, a masturbação a sós e autofelação de um actor em Shortbus (John Cameron Mitchell, 2006).

Boy eating the bird's food 001

»»»»» Nota quatro. Uma circunstanciada aproximação entre este L’inconu du lac e o thriller psicológico Tom à la ferme (Xavier Dolan, 2013) pode ser lida no texto Na quinta, terror quanto baste, inserto conexamente neste mesmo sítio.

 

 

António Sá

[03.12.2013]

Na quinta, terror quanto baste

Na quinta, terror quanto baste

»»»»» Thriller psicológico gay, tanto ou quanto inconsequente ao nível das psicologias e entornos sociais: psicologias das inter-relações e envolvências sociais em microambiente rural. Às inconsequências, aos hiatos de situações, some-se um esteticismo circunstante, alinhando fotografemas de espaços rurais, sobretudo interiores, agenciando breves lapsos analépticos desfocados, decididamente espúrios. Escrevo aquela barbaridade, “fotografemas”, para significar uma certa ou incerta inscrição estética, que não a do só-por-si fotograma.

»»»»» Um jovem muito louro nas madeixas em tufo revolto para a testa, viaja no seu belo automóvel em estrada rural, rumo a uma quinta. Chama-se Tom, daí o título Tom à la ferme (Xavier Dolan, 2013). É a quinta-natal do namorado recém-falecido aos vinte-e-quatro anos num acidente. Tom vai assistir ao funeral, prevê-se que diga algumas palavras na cerimónia religiosa, apesar de não conhecer a família, e ser tido equivocamente por “amigo”, porque a família estabeleceu que o rapaz falecido estaria a viver com uma rapariga, a Sarah, que de facto existe e esta sim, é apenas uma amiga. Crê neste status hetero a mãe, não o irmão, ostensivo homófobo, que não só sabe da sexualidade do mano mais novo como, vem a saber-se no entrecho, desenvolveu pelo mesmo uma fixação passional paranóide, não se sabe se de envolvimento sexual incestuoso, fixação que se revela brutalmente agressiva face à intrusão de terceiros, ou seja, de potenciais namorados desse mano. É no carácter autocrata, imprevisível deste agressor que assenta a construção do terror, o fundamento do thriller. Muito há-de sofrer Tom nesta circunstância e nesta quinta localmente malquista, e há-de passar por fases, uma tentativa frustre de fuga, depois uma fascinação por que se deixa envolver; e há-de ouvir, do empregado de um bar da região, a sucinta história deste desencadeado irmão do namorado. Esta história fá-lo-á decidir-se pela fuga, segunda fuga, com momentos de perseguição e suspense.

Xavier Dolan 001

»»»»» São perceptíveis pontos de aproximação entre este filme e um outro, L’inconu du lac (Alain Guiraudie, 2013). Por um lado, ambos tratam de relações homossexuais, no filme de Guiraudie explicitamente sexuais, neste filme de Dolan, perversamente de um homoerotismo impregnado de morbidez sensual, em que um dos parceiros mantém uma pretendida atitude homofóbica, o que esconde e sublinha afinal as tensões e fixações homossexuais que são as suas.

»»»»» Em ambos os filmes, os protagonistas deixam-se seduzir pelo ser maléfico com o qual interagem. Em L’inconu du lac, a sedução é sem embargo física, o protagonista sabe que o parceiro com que inicia um idílio sexual é assassino, o que para nada o demove, mesmo que passando por situações de terror, nadando inerme no meio do lago junto com tal assassino lacustre. Em Tom à la ferme, de modo fílmico menos consistente, Tom deixa-se dominar, aceita trabalhar na quinta e fascina-se episodicamente pelas tarefas rurais, aceita o domínio físico violento e ambíguo do irmão do namorado, as similitudes físicas, o mesmo perfume contribuem.

»»»»» Ainda ocorre, diferentemente num filme e noutro, a figura da fuga como salvação, não se sabe se in extremis. E escrevo não se sabe se com propriedade, porque em ambos os entrechos fica em aberto o curso dos acontecimentos, mais exactamente, o eventual propósito dos perseguidores: ambos prometem não fazer mal às potenciais vítimas. No filme de Guiraudie, o assassino, só máquina-sexual predadora, poderá enfim ter acedido ao amor, mas constituirá isso uma hipótese de redenção ou um episódio de psicose? No filme de Dolan, e no decurso da atribulada fuga de Tom, o irmão do namorado confessa, longe do sentimento homfóbico que celibatariamente o movia, que precisa de Tom, não lhe quer mal nem quer fazer-lhe mal, mas Tom persiste na fuga, na carrinha subtraída ao perseguidor, e o filme não mostra mais senão essa fuga na estrada; e no entanto, em ocasião anterior, Tom ensaiara uma igual fuga, mas voltara atrás de livre vontade. Fica agora em suspenso a sua futura decisão.

»»»»» [Referências filmográficas: Tom à la ferme foi exibido na sessão de encerramento, após entrega dos prémios, do Indie Lisboa, a 03 de maio de 2014; L’inconu du lac teve estreia comercial no Cinema Nimas, inverno de 2014, e está disponível em DVD, edição Leopardo Filmes.]

 

António Sá

[05.05.2014]