Na quinta, terror quanto baste

Na quinta, terror quanto baste

»»»»» Thriller psicológico gay, tanto ou quanto inconsequente ao nível das psicologias e entornos sociais: psicologias das inter-relações e envolvências sociais em microambiente rural. Às inconsequências, aos hiatos de situações, some-se um esteticismo circunstante, alinhando fotografemas de espaços rurais, sobretudo interiores, agenciando breves lapsos analépticos desfocados, decididamente espúrios. Escrevo aquela barbaridade, “fotografemas”, para significar uma certa ou incerta inscrição estética, que não a do só-por-si fotograma.

»»»»» Um jovem muito louro nas madeixas em tufo revolto para a testa, viaja no seu belo automóvel em estrada rural, rumo a uma quinta. Chama-se Tom, daí o título Tom à la ferme (Xavier Dolan, 2013). É a quinta-natal do namorado recém-falecido aos vinte-e-quatro anos num acidente. Tom vai assistir ao funeral, prevê-se que diga algumas palavras na cerimónia religiosa, apesar de não conhecer a família, e ser tido equivocamente por “amigo”, porque a família estabeleceu que o rapaz falecido estaria a viver com uma rapariga, a Sarah, que de facto existe e esta sim, é apenas uma amiga. Crê neste status hetero a mãe, não o irmão, ostensivo homófobo, que não só sabe da sexualidade do mano mais novo como, vem a saber-se no entrecho, desenvolveu pelo mesmo uma fixação passional paranóide, não se sabe se de envolvimento sexual incestuoso, fixação que se revela brutalmente agressiva face à intrusão de terceiros, ou seja, de potenciais namorados desse mano. É no carácter autocrata, imprevisível deste agressor que assenta a construção do terror, o fundamento do thriller. Muito há-de sofrer Tom nesta circunstância e nesta quinta localmente malquista, e há-de passar por fases, uma tentativa frustre de fuga, depois uma fascinação por que se deixa envolver; e há-de ouvir, do empregado de um bar da região, a sucinta história deste desencadeado irmão do namorado. Esta história fá-lo-á decidir-se pela fuga, segunda fuga, com momentos de perseguição e suspense.

Xavier Dolan 001

»»»»» São perceptíveis pontos de aproximação entre este filme e um outro, L’inconu du lac (Alain Guiraudie, 2013). Por um lado, ambos tratam de relações homossexuais, no filme de Guiraudie explicitamente sexuais, neste filme de Dolan, perversamente de um homoerotismo impregnado de morbidez sensual, em que um dos parceiros mantém uma pretendida atitude homofóbica, o que esconde e sublinha afinal as tensões e fixações homossexuais que são as suas.

»»»»» Em ambos os filmes, os protagonistas deixam-se seduzir pelo ser maléfico com o qual interagem. Em L’inconu du lac, a sedução é sem embargo física, o protagonista sabe que o parceiro com que inicia um idílio sexual é assassino, o que para nada o demove, mesmo que passando por situações de terror, nadando inerme no meio do lago junto com tal assassino lacustre. Em Tom à la ferme, de modo fílmico menos consistente, Tom deixa-se dominar, aceita trabalhar na quinta e fascina-se episodicamente pelas tarefas rurais, aceita o domínio físico violento e ambíguo do irmão do namorado, as similitudes físicas, o mesmo perfume contribuem.

»»»»» Ainda ocorre, diferentemente num filme e noutro, a figura da fuga como salvação, não se sabe se in extremis. E escrevo não se sabe se com propriedade, porque em ambos os entrechos fica em aberto o curso dos acontecimentos, mais exactamente, o eventual propósito dos perseguidores: ambos prometem não fazer mal às potenciais vítimas. No filme de Guiraudie, o assassino, só máquina-sexual predadora, poderá enfim ter acedido ao amor, mas constituirá isso uma hipótese de redenção ou um episódio de psicose? No filme de Dolan, e no decurso da atribulada fuga de Tom, o irmão do namorado confessa, longe do sentimento homfóbico que celibatariamente o movia, que precisa de Tom, não lhe quer mal nem quer fazer-lhe mal, mas Tom persiste na fuga, na carrinha subtraída ao perseguidor, e o filme não mostra mais senão essa fuga na estrada; e no entanto, em ocasião anterior, Tom ensaiara uma igual fuga, mas voltara atrás de livre vontade. Fica agora em suspenso a sua futura decisão.

»»»»» [Referências filmográficas: Tom à la ferme foi exibido na sessão de encerramento, após entrega dos prémios, do Indie Lisboa, a 03 de maio de 2014; L’inconu du lac teve estreia comercial no Cinema Nimas, inverno de 2014, e está disponível em DVD, edição Leopardo Filmes.]

 

António Sá

[05.05.2014]

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