O lago desencantado

O lago desencantado

 

 

»»»»» 1. Uma interpretação e mais duas

»»»»» Interpretação mais óbvia para definir o personagem Michel no filme L’inconu du lac (Alain Guiraudie, 2013) é a de se tratar de um homem incapaz de afectos. Esta desafecção caracterial, ao nível da psicopatia, dá-lhe azo a desembaraçar-se de um amante de ocasião, que se lhe tornava incómodo pela urgência de atenção exclusiva, afogando-o no lago. Urgência de tal amante manifestamente obstrutiva, apesar de a relação entre o par ser dada em apontamentos brevíssimos. O personagem Michel revelará, em atitudes e enleio discursivo, nulos remorsos do assassínio que executa arduamente e sem misericórdia. Dirá depois, como se de pouca coisa se tratasse, que aquele jovem afogado não lhe fazia falta. Confessa isto ao subsequente amante de ocasião, sendo que este começa a enveredar pelo mesmo erro, apelando a um envolvimento afectivo que o estar-se apaixonando lhe impulsiona. E se, nos tempos iniciais, Michel resiste a estes apelos, há um outro tempo em que flecte, o seu ser só máquina-de-sexo manifesta ciúmes em relação a um amigo-de-passagem de Franck, é este o nome do seu novo amante; também se mostra inquieto e reivindicativo pelo facto de este ter chegado algo mais tarde na tarde. Num tempo final, sempre curtos tempos medidos dia-a-dia, revela-se ansioso porque Franck parece ter perdido a tensão sexual por ele, e talvez a pulsão amorosa.

L'inconu du lac 001

»»»»» Desenvolvendo aquela interpretação quanto ao personagem-assassino, consideraria que a esse tempo em que flecte, em que enfim um outro humano lhe desperta sentimentos, lhe desvenda afectos inéditos, o seu sistema de racionalidade das acções se desequilibra e o tranforma numa máquina de autoprotecção intempestivamente assassina. Assim, provocado pelo nédio Henri, o tal amigo-de-passagem que Franck desencantou de uma absorta contemplatividade; assim provocado num diálogo em que Henri lhe sugere que provas hão-de aparecer revelando-o enquanto o assassino, Michel eliminá-lo-á a breve trecho, cortando-lhe as carótidas e, mais tarde, nessa voragem desencadeada, cravará a sua faca no abdómen do detective que pelo bosque anda inquirindo os frequentadores-homo. Um deambular e semear cadáveres, o do assassino, à beira do guinhol, para finalizar o enredo.

»»»»» Este final, deixando a acção em aberto, pode inculcar duas interpretações, sendo uma o contrário da outra. Franck testemunhara emboscado o primeiro assassínio cometido por Michel ao afogar o companheiro. E, não obstante, deixou-se envolver e apaixonar pelo assassino e, muito a medo, teve coragem bastante para nadar com ele no lago a desoras. Ainda que em diferido, testemunhou o assassínio de Henri e, em directo, escondido no bosque, o do detective. Em movimento de fuga, foi perseguido nesse bosque pelo alucinatório e alucinado multiassassino, que chamava por ele, que se mostrasse, não lhe faria mal, precisava dele. Primeira das duas interpretações: na neoemoção de experimentar sentimentos por alguém, Michel necessita de facto do conforto e cumplicidade amante de Franck, e não lhe fará mal, tanto mais que crê que este ainda o ama “um pouco”. Segunda das interpretações: na alucinação-voragem assassina que o move, chama o recém-amante para o eliminar, ou por senti-lo já enquanto ameaça à sua anterior conformidade inemocional, ou porque este poderá incriminá-lo enquanto testemunha entretanto hostil, ou as duas coisas. O som da voz de Michel no bosque afasta-se e apaga-se. Franck ergue-se do seu esconderijo no canavial e, receoso, chama o amado pelo nome em voz débil. Não sendo contestado, repete o chamamento em voz mais forte. E a imagem última suspende-se neste apelo suspenso.

 

»»»»» 2. As pulsões suicida e homicida

»»»»» A paisagem de lago e bosque, de onde os espectadores nunca saem, é aprazível, tranquila, só as acções dos homens a vêm perturbar. Não são estes homens seres poéticos (no sentido de aéreos, inobjectivados), aqui só ou sobretudo máquinas desejantes e desejadas; o único ser de onde alguma poesia se desprende é o do sempre absorto na paisagem Henri, desgraciosa, nédia figura, suporte paciente das conversas com o belo Franck.

»»»»» Mas neste universo restrito onde se lê a evidente indiferença, ignorância voluntária de um desaparecimento, revela-se muito de pulsão suicida. Desde logo esse absorto mas atento Henri, provocando aquele que por dedução sabe ser o assassino, e dando-lhe pretexto e ocasião de por ele ser assassinado. Mas sobretudo Franck, esse jovem ex-vendedor de fruta num mercado, que testemunha visualmente o cruel afogamento provocado ao largo, vê claramente visto quem é o assassino e não obstante não o estranha, aceita-lhe a aproximação, apaixona-se e, no misto sentimento de fascínio e terror, arrisca-se a nadar com ele nesse lago desencantado onde nenhum mítico siluro se torna realidade comprovável e, na sequência final, chama temerariamente por esse amante-assassino, num contraditório sentimento de o confortar, partilhar loucamente com ele todo esse mal, e também sentimento de terror, um terror de tonalidade suicida.

»»»»» E é sem embargo um traço de Romantismo, num filme tão estritamente realista, esse amour fou entre os protagonistas, que os projecta a ambos em abismo.

»»»»» Amour fou, expressão que se consagrou cinematograficamente na obra de longa, longa respiração realizada por Jacques Rivette em 1968 — e cujo título é justamente L’amour fou. Neste filme de Guiraudie, o amour fou combina com a perversité française. Muito do cinema corrente francês persegue, muitas vezes mal ou mais-ou-menos (caso de Catherine Breillat, mais para o mal do que para o mais-ou-menos), enfim raramente bem, persegue esta perversidade, na linha de algum imaginário do mal de que existe importante tradição na literatura francesa.

»»»»» Enquanto no filme de Rivette o amor tende para uma lenta, continuada, segura deliquescência, na qual os amantes se fundem interminavelmente, em L’ínconu du lac a perversidade inocente, se tal oximoro se consente, está do lado dos amantes: esse que satisfazendo a atracção sexual se envolve com o assassino; e aquele que, incônscio de si enquanto assassino, se conduz de modo a realizar a imediata atracçáo sexual. A esta atracção se entregam ambos confiadamente, dispensando qualquer protecção para qualquer prática sexual, pulsões suicida e homicida fusionando.

 

»»»»» 3. Estereótipos, arcaísmos e tipologias

»»»»» Estereótipos relativos à homossexualidade emergem:

»»»»» Um deles, por exemplo, a concepção, segundo o nédio Henri, de que não há essa coisa de homos apenas homos, terão de ser casados ou, sendo jovens, terão namorada ou noiva.

»»»»» Outro, o da normalização do desejo, segundo o detective, que estranha a prática de sexo-pelo-sexo, sem que os parceiros sequer se conheçam, nem saibam os nomes recíprocos.

»»»»» Um outro, e ainda segundo o detective, a suposição, ao gosto policiesco, de que andará ali em acção um serial-killer homofóbico.

»»»»» E ainda outro, estereótipo este mais geral, não só homotípico, se infiltra na relação entre os dois protagonistas, que é o da previsão da futura fadiga inerente à convivência cotidiana, à co-habitação enquanto regime de vida.

»»»»» Estereótipos que circulam num micro-conspecto social algo arcaizante. Nomeadamente, arcaísmos: no tipo de encontros-homo, que só residualmente serão hoje assim; no look dos personagens, deriva dos aspectos, sobretudo o do assassino, muito à Tom Selleck, muito anos 1970-1980, que também já não corresponde ao da masculinidade, ou da homomasculinidade da actual década do século XXI; na figura do detective, isolado na sua démarche, que nos faz recuar a um universo cinematográfico perdido algures por 1950 ou, no melhor dos casos, ao cinema de Jean-Pierre Melville, já nos fabulosos anos sessenta franceses do século passado.

»»»»» E quanto a tipologias: da nem talvez vintena de frequentadores, vêem-se à distância um e outro jovens de aspecto atractivo; dois homos adultos conhecidos de Franck; um casal-homo que sobressai, a nível das interacções com o protagonista, composto por um “macho” muito irritante na definição territorial e o comparsa, voyeur insistente, que circunstancialmente fará uma felação a Franck; e enfim um adulto de boné, homenzinho um tanto calvo, híper-escrupuloso, quase burocrata nas relações sexuais, que tem peso na intriga por ser eventual testemunha, perante o detective, da inocência de Franck no crime.

 

»»»»» 4. Notas aproximativas

»»»»» Nota um. Foi observado por críticos de cinema a similitude do cruel, arduamente perpetrado assassínio de um rapaz paraplégico, ao largo de um tranquilo lago, crudelíssimo crime da belíssima Gene Tierney no belíssimo melodrama Leave her to heaven (John M. Stahl, 1945). Aproximação esta, entre os dois filmes, que merece algum desenvolvimento num outro texto.

»»»»» Nota dois. Aproximação a fazer com outros filmes franceses onde a iluminada paisagem de verão é o envolvente e natural décor. Recordo, de imediato, filmes de Renoir, Rohmer, Téchiné.

»»»»» Nota três. Algumas situações sexuais resolvem-se, em L’inconu du lac, com a masturbação partilhada e em planos de conjunto ou planos gerais. Contrastivamente, é construída num longo plano-sequência hiperiluminado a masturbação a sós do louro jovem grego, que se consuma no filme Boy eating the bird’s food (Ektoras Lygisos, 2012). Também construída em plano aproximado, a masturbação a sós e autofelação de um actor em Shortbus (John Cameron Mitchell, 2006).

Boy eating the bird's food 001

»»»»» Nota quatro. Uma circunstanciada aproximação entre este L’inconu du lac e o thriller psicológico Tom à la ferme (Xavier Dolan, 2013) pode ser lida no texto Na quinta, terror quanto baste, inserto conexamente neste mesmo sítio.

 

 

António Sá

[03.12.2013]

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