Este deserto / This desert

Este deserto / This desert

(poema e comentário em português e em inglês)

 

»»»»» Poema de Abú Imrane Almertuli (místico e poeta, falecido em 1194 ou 1195 da era cristã):

 

 

Quantas coisas digo que não faço

quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé em terra.

 

Critico os meus olhos e não se convencem;

aconselho minha alma, não aceita os meus conselhos.

 

Ai quantas coisas se desculpam, dizem:

“talvez mais tarde”. Quantas se demoram.

 

Em quantas coisas confio

que terei longa vida, e me atraso.

Mas a morte não se atrasa.

Todos os dias brada entre nós

 

o pregoeiro da caravana: “Alto!”

Depois de setenta e nove anos,

deverei esperar uma vida longa? (…)

 

 

»»»»» Poema incluído no volume IV da obra Portugal na Espanha árabe, organização, prólogo e notas de António Borges Coelho, Seara Nova, Lisboa, 1975.

 

»»»»» Uma referência concreta, pontual, situa-nos imaginariamente na paisagem do deserto, os areais extensos, terras inóspitas por onde a caravana faz caminho nestes versos de Abú Imrane Almertuli: “Todos os dias brada entre nós / o pregoeiro da caravana: ‘Alto!'”. Tendo vivido em Mértola, junto ao rio Guadiana, no século XII, o poeta e místico Abú Imrane recorre a imagens secularmente inscritas na tradição cultural árabe.

»»»»» Assim, o pregoeiro da caravana é quem transmite a ordem de avançar ou parar e, numa interpretação imediata, ele encontra-se “entre nós”, ou seja, entre os viajantes nómadas que integram a caravana. Estes nómadas são a metáfora de todos os seres humanos, todos “nós”: a caravana realiza o percurso de todos os seres humanos, os quais, tal como a caravana avança pelo deserto, avançam pela vida adiante. Que o deserto seja a imagem indirectamente sugerida para designar a vida, não deixa de ser adequado a uma perspectiva mística como seria a de Abú Imrane Almertuli.

»»»»» A esta metáfora da caravana junta-se outra, centrada na figura do pregoeiro, cuja função é a de bradar “Alto!”. Pelo contexto, compreende-se que este pregoeiro é a figura que representa a morte, porque o verso anterior diz “Mas a morte não se atrasa”.

»»»»» Uma e outra completam-se: a metáfora da caravana enquanto percurso colectivo dos seres humanos no curso da vida, evoluindo no deserto, que constitui o ambiente desta mesma vida, segundo a visão do poeta; e a metáfora do pregoeiro, figuração da morte omnipresente “entre nós”, a morte que visa algum ser humano dos que integram a caravana dos seres humanos na sua totalidade, e decide, ao dizer “Alto!”, quanto ao momento em que o tempo de vida individual deve terminar.

»»»»» Estas metáforas constróem uma breve alegoria, que é, por definição, uma sequência organizada, compreensível, de metáforas. Construção alegórica que surge no fim do poema e serve para cristalizar a ideia que o percorre: a sensação de desperdício do tempo útil de vida, tempo que damos por perdido, não fazendo o que havia a fazer, arranjando desculpas para adiar indefinidamente as coisas que para nós são importantes, atrasando-nos, confiando na possibilidade de as fazer mais tarde. “Mas a morte não se atrasa”, como diz o verso, e podemos nunca vir a fazer o que adiámos.

 

 

 

 

 

This desert

 

»»»»» Poem by Abú Imrane Almertuli (mystic and poet, death in 1194 or 1195 a. C.)

 

 

How many things I say I do not do

how many turns without deciding to put my feet on earth.

 

I criticize my eyes and they do not convince themselves;

I advise my soul, which does not accept my advice.

 

Oh, how many things are excused, by saying:

“maybe later”. How many of them are delayed.

 

How many things I believe

that I will live long, and I retard myself.

But death can’t be retarded.

Every day he shouts among us

 

the caravan’s crier: “Stop!”

After seventy nine years,

should I expect to have a long life? (…)

 

 

»»»»» Poem included in the volume IV of the work Portugal na Espanha árabe, organization, prologue and notes by António Borges Coelho, Seara Nova, Lisboa, 1975.

 

»»»»» A concrete, exact reference situates us imaginarily in the landscape of the desert, the extended sands, the inhospitable lands where the caravan makes its way according to these verses by Abú Imrane Almertuli: “Every day he shouts among us / the caravan’s crier: ‘Stop!'”. Having lived in Mértola, beside the Guadiana River, in the twelfth century, the poet and mystic Abú Imrane uses images inscribed in the Arab’s cultural tradition for centuries.

»»»»» Thus it is the caravan’s crier that transmits the order to go or to stop, and, in an immediate interpretation, he finds himself “among us”, what means among the nomad travellers who integrate the caravan. These nomads are the metaphor to all human beings, all of “us”: the caravan makes the course of all human beings, who advance throughout life as the caravan advances along the desert. The fact that the desert is the image, indirectly suggested, designing human life is completely adequate to such a mystic perspective as that of Abú Imrane Almertuli.

»»»»» To this metaphor another one is joined, which is centred in the crier’s figure, whose function is to shout “Stop!”. By the context, we understand that this crier is the figure that represents death, because the previous verse says “But death can’t be retarded”.

»»»»» Both of them complete themselves: the metaphor of the caravan while a collective course of human beings in the path of life, according to the poet’s vision; and the metaphor of the crier, the figuration of the omnipresent death “among us”, the death that is aimed at one of the human beings that integrate the human beings’ caravan in its all, and decides, by saying “Stop!”, about the moment when the individual’s life time must end.

»»»»» These metaphors build a brief allegory, which is, by definition, an organized, comprehensible sequence of metaphors. This allegoric structure that appears in the end of the poem serves to crystallize the idea that goes through it: the sensation of useful time’s loss, time we consider to be lost, not doing what we had to do, finding excuses to postpone indefinitely things which are important to us, delaying, trusting the possibility of doing them later. “But death can’t be retarded”, as the verse says, and we may never be able to do what we have postponed.

 

 

António Sá

[2003]

 

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