Monthly Archives: July 2014

Desatino 12

Desatino / 12 [Valorizações]

 

»»»»» Dizia-me um senhor circunspecto:

»»»»» — De vez em quando sempre é preciso valorizar…

»»»»» — … sim… — encorajei.

»»»»» — … tudo o que há a valorizar.

»»»»»  — Certo…

 

António Sá

[03.12.2012]

Desatino 11

Desatino / 11 [Cigarros no chão]

 

»»»»» — Nunca se atiram cigarros para o chão! — diz o taberneiro ao cliente, velho decrépito que, antes de entrar, atirara a beata para a calçada, e lhe responde, monolítico:

»»»»» — Poi’ não! Atiram-se prò ar!

 

António Sá

[20.11.2012]

Desatino 10

Desatino / 10 [Três poemas naturais]

 

1: Uma nuvem

Uma nuvem passou

contra o céu.

Que fazes aqui, nuvem?

pergunta-lhe o céu,

quase ofendido e muito azul.

Faço o que faço

disse-lhe a nuvem redonda,

deslocando-se um nadinha

contra o céu.

Que tens tu com isso?

 

2: O anseio da rã

Um dia uma rã disse para si mesma:

“Como gostaria de ser uma águia

e, tal como a águia, voar por esses céus!

E sem demora deu um salto gigante

e voou, voou sobre o riacho espelhante,

foi cair sobre uma rocha na outra margem.

Então uma águia verdadeira

veio dos céus em voo picado e ,

caindo rápida sobre a rã

fez dela sobremesa apetecida.

 

3: O canário e o corvo

Um canário cantor divertia-se

e ria-se aos gorjeios

do ralhado e rasca grasnar do corvo.

Este não lhe prestou grande atenção,

tanto mais que acabava de achar

um anel de ouro à beira da estrada,

que logo recolheu e, brandindo-o no bico,

sussurrou: “Bem gostarias tu

de ter nas penas a cor de ouro deste anel

— só te resta esse amarelo deslavado!”

 

António Sá

[08.07.2012]

Desatino 9

Desatino / 9 [Grandes medidas]

 

»»»»» Um cicrano inclassificado, inclassificável, certamente descartável, de ombros descaídos sobre o peito cavado, fumando o seu cigarro sem idade à porta de um snack-bar deprimente, lançou-me pelo canto da boca, quando eu saía, estas palavras à laia de síntese política:

»»»»» — Só faltou ao Ministro das Finanças explicar, palavra a palavra — é assim que ele fala — os métodos eficazes de uma pessoa se suicidar, sem dar depois o trabalho de ser salva, caso falhe o suicídio… o que leva a grandes despesas dos serviços de saúde.

»»»»» Olhei-o de lado, entre a empatia e a incomodidade face a tal figura, e fui andando desentendido.

 

António Sá

[04.10.2012]

Desatino 5

Desatino / 5 [— Quem é quem?]

 

»»»»» — Quem é quem? —  perguntou displicente o rato da cidade.

»»»»» — Que.. que… quem é… quem, que.. que… quem? — respondeu-lhe gaguejando em eco atarantado o rato do campo.

 

António Sá

[04.09.2012]

Desatino 4

Desatino / 4 [Dúvida retórica]

 

»»»»» — Quem pode assegurar que este nosso futuro será futuro? —  pensei eu em voz alta ociosamente, com prevenção contra este futuro escurecido que mal se pode antever e, quando me dei conta, já dissera.

»»»»» — Claro que o futuro vai ser futuro — respondeu-me surpreendido quem me ouvira. — A não ser que o tempo venha a correr em sentido contrário.

»»»»» — Era uma dúvida retórica… — justifiquei-me, embaraçado.

 

António Sá

[24.08.2012]

Desatino 3

Desatino / 3 [Suspiros]

»»»»» Em Riaza, uma povoação da província de Segovia, comprei, numa padaria, meio quilo de uns bolinhos chamados suspiros, comi alguns pela rua e a seguir bebi um café com leite numa esplanada.
»»»»» E logo, arrotando os suspiros:
»»»»» — Estou a suspirar arrotos.

António Sá
[20.08.2012]

 
»»»»» ADENDA:
»»»»» Este texto redigi-o primeiro em castelhano, a versão acima é a tradução possível. Eis o texto original:

Suspiros
»»»»» En Riaza, un pueblo de la provincia de Segovia, he comprado, en una panadería, medio kilo de unas pastas llamadas suspiros, he comido algunas por la calle y enseguida bebido un café con leche en una terraza.
»»»»» Y luego, eructando esos suspiros:
»»»»» — Estoy suspirando eructes.

António Sã
[16.08.2012]