Distracção 45

Distracção / 45 [Por acto de]

 

»»»»» O meu filósofo está preocupado, porque ouviu rumores de que vão expulsar os sem-abrigo dos lugares públicos, e ele está tão afeiçoado ao seu jardim!

»»»»» Comunicou-me hoje esta sua preocupação, e eu encolhi os ombros, mas evitei dizer em voz alta o que pensei. Pensei: “que tenho eu com isso?” E fui andando, apressei o passo, que é o que sempre faço quando passo por ali. Mas o importuno veio atrás de mim com tiras de jornal esvoaçando-lhe entre os dedos. Eram tiras de margens de jornal, ele explicou que regressara â filosofia, passara a anotar reflexões nas margens de jornais abandonados. Postou-se à minha frente, pedra no meu caminho, e leu-me coisas gatafunhadas em letra miúda nas tiras:

»»»»» “Primeira reflexão. Por acto de vontade esqueço tudo, mas logo vou lembrar tudo, por desvontade.”

»»»»» “Segunda reflexão. Por acto de ser vou ser o que sou, mas por des-ser, que vem a ser meu imoto ser, vou ser o que não sou.”

»»»»» Ia continuar, ouvi-lhe um imperativo “Terceira reflexão”, mas desviei-me, atravessei intempestivamente a estrada para o passeio do outro lado, atirei-lhe um “Estou com pressa!” desabrido. Não fui atropelado por pouco, mas às vezes há que correr riscos.

 

António Sá

[06.07.2014/07.07.2014]

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