Eu estive em Falkenau

Eu estive em Falkenau

 

 

»»»»» A voz agreste, a solavancos gritados, de Samuel Fuller, conduz-nos pelas filmagens em dezasseis milímetros a que ele mesmo procedeu, na Checoslováquia, maio de 1945, testemunhando os acontecimentos após a entrada dos aliados no campo de concentração de Falkenau. Como vem a ser comunicado, com impiedade funcionária, por um médico soviético, a toda a população ali reunida: havia prisioneiros cujo estado de privação se tornara já irreversível; outros estavam contaminados por doenças infecciosas: como tal uns e outros deviam permanecer no campo, esperando aí a morte prevista e previsível. Só os ainda válidos, com a saúde possível, capazes acaso de se moverem, eram, esses sim, libertados. Para além destes, havia os outros, os já cadáveres. Cadáveres esquálidos, dezenas, quantas?, de cadáveres só pele-e-osso, mortos de privação. O comandante da divisão de infantaria americana, a primeira divisão, epicamente denominada Big Red One, irritou-se, segundo o depoimento de Fuller, pelo facto de os homens da vila de Falkenau, funcionários do regime nazi ou profissionais de misteres liberais, se negarem a reconhecer o campo de concentração enquanto tal: não teriam conhecimento da existência do mesmo, ainda que os muros do campo se erguessem a quinze metros das ruas habitadas da vila. Decidiu por tal “dar uma lição” a estes civis alemães. Fez reunir toda a população masculina no alto do talude com vista para as instalações do campo: daí assistiriam ao espectáculo macabro de quase-exumação dos cadáveres das celas-covis onde jaziam, e ao piedoso ritual de os vestir condignamente e alinhar no solo, estendidos sobre lençóis-mortalha. Para este trabalho soturnamente dantesco, submetidos aos cheiros da putrefacção dos corpos, o comandante escolheu os notáveis da vila, esses que afirmavam ignorar a existência do campo. Feito o trabalho de alinhamento dos corpos, levaram-nos em carretas, puxadas pelos mesmos civis, ao longo da rua principal, onde mulheres e crianças eram a assistência do cortejo fúnebre até ao cemitério, e aí, numa longa vala, os corpos foram depositados e enterrados. Samuel Fuller assinala o pormenor de que, entre os que fechavam os lençóis-mortalha sobre os cadáveres, se via um adolescente das Juventudes Hitlerianas: a câmara acompanha, à distância, os movimentos deste adolescente terso e louro que não manifesta nem repugnância nem enfado, apenas cumpre com diligência precisa, inocente a macabra tarefa que lhe designaram.

Falkenau, the impossible 001

»»»»» O filme Falkenau, vision de l’impossible (Emil Weiss, 2005), formaliza-se em duas partes, sendo a primeira a exposição e comentário das filmagens acima referidas. Na anunciada segunda parte, Fuller conduz-nos muito didacticamente, voz áspera e gritada, pelos seus usos ficcionais das experiências de guerra: o uso dos cenários-devolutos do campo de Terezin, na Polónia, de que se serviu para o épico The Big Red One (1980); e, fundado na crença do poder transformador da arte, o uso dos planos documentais dos julgamentos de Nuremberga, que cerziu em Verboten! (1959).

 

António Sá

[27.10.2014]

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