Monthly Archives: February 2015

Do nada

Do nada

»»»»» Do nada ou coisa nenhuma da vida humana, cosmicamente insignificante e logo insignificativa nessa imensidade, se conversa por imagens e por palavras no filme intitulado La fille de nulle part (Jean-Claude Brisseau, 2012). De nenhuma parte vem a rapariga, em nenhuma parte certa a encontraremos entretanto, para nenhuma ela vai, excepto o vazio mágico-descontinuamente-depressivo do não-lugar da sua existência. Premissa estimulante e talvez o todo visível em imagens não capte na sua extensão plena o potencial de tal estimulante premissa. Mas sem convulsas, apocalípticas manipulações — estritamente cingindo-se a fotogramas estabilizados e discursividade analítica — o filme descreve o cada sempre apocalíptico instante vivido da humana contingência. Cingindo-se a estrita narrativa materialista, o cineasta descreve-se na sua presença maciça até à incomodidade e, na fictiva figura de um ex-professor de matemática, descreve o fortuito de tudo o que lhe acontece — essa jovem sexualmente atractiva que, por um acaso de violência urbana, ele acolhe no apartamento; outras aparições ocasionais e mágicas, visto que a jovem tem o poder de convocar inidentificáveis, apavorantes rugidos das entranhas da casa, além de terríficas visões fantasmáticas. Assim acontece a visão de um fantasma num ímpeto de rasto branco, empunhando um facalhão-prenúncio, assim se pode entender, do assaltante de rua que por acaso desiste, por acaso regressa, após uma primeira tentativa falhada, para gratuitamente esfaquear de morte a sua vítima incooperante. E ainda num exercício de concentração, essa vidente faz voar rebeldes, agressivas mesinhas-de-apoio, e desde aí outras aparições ocorrem: um silente, esguio, imóvel, hiperbergmaniano fantasma da Morte; um idílio ou sonho de lesbianismo entre uma morena e uma loura, brevíssima cena mutável em outras figuras, como se toda a forma visível fosse o acaso dos acasos — ninguém decide nem a sua origem, nem a integridade dos seus instantes, nem o seu destino e fins últimos.

Jean-Claude Brisseau II 001

»»»»» Na sua materialista abordagem — sem raptos místicos nem outras mistificações — o filme convive bem com tais passes de mágica: apresenta-os com ironia, uma cândida ironia, quando o protagonista, que é investigador curioso, declara querer saber mais sobre aqueles eventos mágicos desatadamente cenográficos, que aludem a Méliès, entre outras referências.

»»»»» A mesma ironia sabiamente cândida, acabando num piscar de olhos conivente ao espectador, acontece na muito serena, materialista e última obra-prima de Alfred Hitchcock: Family plot (1976). Obra em que um fuso, metaforicamente entendendo esta palavra, é manipulado por uma falsíssima, seraficamente serena vidente Blanche (Barbara Harris), que nesse fuso enrola o fio de uma intriga perversa — e dá-lhe um falso final, tão falsa ela é e tão falsos são os finais das intrigas perversas em que os humanos se enredam, aí onde se levantam os mais altos valores ocidentais e arcanos que tudo regem, os valores do dinheiro — diamantes neste caso do filme de Hitchcock.

»»»»» Um colega-professor do protagonista de La fille de nulle part, numa das poucas cenas com personagens laterais, questionando-o sobre a solidão em que ele vive e a clareza das suas intenções quanto àquela jovem-de-nenhuma-parte, confessa que tudo o que o solicita actualmente, acções e objectos, se lhe tornaram pesados, esmagam-no, e é essa a mimica da sua tensão corporal; no entanto o desejo, e refere-se ao desejo sexual, que decorre da “paisagem” de duas raparigas que no momento passam, permanece.

»»»»» Outro diálogo: o protagonista explica à sua jovem-de-parte-nenhuma as possibilidades do ser enquanto ser humano, e considera três: a permanência na fé religiosa; a crença inabalável na ciência; e a percepção-absoluta do vazio universal e consequente conformidade com o nada enquanto destino e sentido. Esta última, creio, constituindo a mais lúcida das percepções, transporta consigo o ónus da angústia, a dilacerante, omnívora angústia.

António Sá

[01.05.2013]

Advertisements

Que foi feito do nosso cavalo Dinheiro?

Que foi feito do nosso cavalo Dinheiro?

»»»»» Ícone tão-quase inadvertido, menos canónico, a-nascer-já-definitivo: ícone do que é hoje a Revolução dos Cravos. Lapidar, numa das longas sequências da película Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014), aquela em que ocorrem alucinados e alucinantes curtos diálogos em voz off sobre planos do personagem principal, o cabo-verdiano Ventura, e um enfarruscadamente escuro militar-de-capacete, representando o MFA (Movimento das Forças Armadas).

»»»»» Instituo-o assim enquanto ícone, creio que além do que o discurso fílmico expõe. Com esse tenebroso militar, as imagens pretendem expor a subjectividade confusa, alucinada, do ex-trabalhador cabo-verdiano, para o qual a Revolução de Abril de 1974 trouxe inquietude, perda, desastre. Os trabalhadores não-qualificados nunca ganharam o razoável para habitarem e viverem dignamente. Mas houve muito dinheiro: serviu para acentuar as desigualdades sociais, à custa de mão-de-obra aproximadamente escrava, algo similar, mutatis mutandis, à mão-de-obra dos contratados negros em Angola, nos tempos coloniais.

»»»»» A estupidez civil mais profunda, que é a insciência do devir cósmico humano, sempre aliada à cupidez mais feroz, especialmente a dos homens íntegros-de-bolso e a dos honestos chefes-de-“famílias”, fizeram os dias assim, desde o remoto ano de 1974 até ao finito ano de 2014.

»»»»» Ver este filme enquanto metáfora da vida humana-em-perda, afinal da vida humana tout court. Na sequência acima assinalada, Ventura e o militar de rosto pétreo e escuro estão encerrados num contentor metálico, um elevador-de-carga. Imobilizados, numa postura-de-estátua sempre diferente de cada vez que a câmara os foca, em planos aproximados. Em voz off, Ventura faz tão familiares quanto demenciais perguntas. As vozes criam um ritmo acelerado, e os planos sucedem-se e fixam-se por instantes (não se trata, e ainda bem, da arcaica figura do paralítico cinematográfico). Esta sequência aconteceu-me enquanto uma intensa e surreal emoção estética, que o cinema assim me concede. Aparentada emoção, mais intensa, me acontecera, nas recuadas épocas em que os vi, não por uma só sequência mas pelo todo, alguns poucos filmes, dentre os quais lembro agora Säsom i en spegel [Em busca da verdade] (Ingmar Bergman, 1961), Rocco i suoi fratelli (Luchino Visconti, 1960), Il deserto rosso (Michelangelo Antonioni, 1964). Quanto ao enclausuramento das figuras, ocorrem-me, mas é uma aproximação muito muito subjectiva, duas compassivas obras-primas focadas na figura de Joana d’Arc, a de Carl Thedor Dreyer (1929) e a de Roberto Rossellini (1954). Neste filme de Pedro Costa, quase só essa sequência me move tanto. Nela Ventura, entre muitas perguntas, pergunta (e mesma pergunta ocorre ainda noutro momento): “Onde está o meu cavalo Dinheiro?”. Seria um dos seus bens, abandonado em Cabo Verde.

»»»»» Ver este filme também enquanto elegia de um lugar devoluto, habitação inabitável. O lugar de uma vida subterrâneamente vivida à luz do dia, lugar inóspito omnipresente, mas votado à invisibilidade, definitivamente não-turístico.

Cavalo Dinheiro 2 001

António Sá

[13.01.2015]