Que foi feito do nosso cavalo Dinheiro?

Que foi feito do nosso cavalo Dinheiro?

»»»»» Ícone tão-quase inadvertido, menos canónico, a-nascer-já-definitivo: ícone do que é hoje a Revolução dos Cravos. Lapidar, numa das longas sequências da película Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014), aquela em que ocorrem alucinados e alucinantes curtos diálogos em voz off sobre planos do personagem principal, o cabo-verdiano Ventura, e um enfarruscadamente escuro militar-de-capacete, representando o MFA (Movimento das Forças Armadas).

»»»»» Instituo-o assim enquanto ícone, creio que além do que o discurso fílmico expõe. Com esse tenebroso militar, as imagens pretendem expor a subjectividade confusa, alucinada, do ex-trabalhador cabo-verdiano, para o qual a Revolução de Abril de 1974 trouxe inquietude, perda, desastre. Os trabalhadores não-qualificados nunca ganharam o razoável para habitarem e viverem dignamente. Mas houve muito dinheiro: serviu para acentuar as desigualdades sociais, à custa de mão-de-obra aproximadamente escrava, algo similar, mutatis mutandis, à mão-de-obra dos contratados negros em Angola, nos tempos coloniais.

»»»»» A estupidez civil mais profunda, que é a insciência do devir cósmico humano, sempre aliada à cupidez mais feroz, especialmente a dos homens íntegros-de-bolso e a dos honestos chefes-de-“famílias”, fizeram os dias assim, desde o remoto ano de 1974 até ao finito ano de 2014.

»»»»» Ver este filme enquanto metáfora da vida humana-em-perda, afinal da vida humana tout court. Na sequência acima assinalada, Ventura e o militar de rosto pétreo e escuro estão encerrados num contentor metálico, um elevador-de-carga. Imobilizados, numa postura-de-estátua sempre diferente de cada vez que a câmara os foca, em planos aproximados. Em voz off, Ventura faz tão familiares quanto demenciais perguntas. As vozes criam um ritmo acelerado, e os planos sucedem-se e fixam-se por instantes (não se trata, e ainda bem, da arcaica figura do paralítico cinematográfico). Esta sequência aconteceu-me enquanto uma intensa e surreal emoção estética, que o cinema assim me concede. Aparentada emoção, mais intensa, me acontecera, nas recuadas épocas em que os vi, não por uma só sequência mas pelo todo, alguns poucos filmes, dentre os quais lembro agora Säsom i en spegel [Em busca da verdade] (Ingmar Bergman, 1961), Rocco i suoi fratelli (Luchino Visconti, 1960), Il deserto rosso (Michelangelo Antonioni, 1964). Quanto ao enclausuramento das figuras, ocorrem-me, mas é uma aproximação muito muito subjectiva, duas compassivas obras-primas focadas na figura de Joana d’Arc, a de Carl Thedor Dreyer (1929) e a de Roberto Rossellini (1954). Neste filme de Pedro Costa, quase só essa sequência me move tanto. Nela Ventura, entre muitas perguntas, pergunta (e mesma pergunta ocorre ainda noutro momento): “Onde está o meu cavalo Dinheiro?”. Seria um dos seus bens, abandonado em Cabo Verde.

»»»»» Ver este filme também enquanto elegia de um lugar devoluto, habitação inabitável. O lugar de uma vida subterrâneamente vivida à luz do dia, lugar inóspito omnipresente, mas votado à invisibilidade, definitivamente não-turístico.

Cavalo Dinheiro 2 001

António Sá

[13.01.2015]

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