Do nada

Do nada

»»»»» Do nada ou coisa nenhuma da vida humana, cosmicamente insignificante e logo insignificativa nessa imensidade, se conversa por imagens e por palavras no filme intitulado La fille de nulle part (Jean-Claude Brisseau, 2012). De nenhuma parte vem a rapariga, em nenhuma parte certa a encontraremos entretanto, para nenhuma ela vai, excepto o vazio mágico-descontinuamente-depressivo do não-lugar da sua existência. Premissa estimulante e talvez o todo visível em imagens não capte na sua extensão plena o potencial de tal estimulante premissa. Mas sem convulsas, apocalípticas manipulações — estritamente cingindo-se a fotogramas estabilizados e discursividade analítica — o filme descreve o cada sempre apocalíptico instante vivido da humana contingência. Cingindo-se a estrita narrativa materialista, o cineasta descreve-se na sua presença maciça até à incomodidade e, na fictiva figura de um ex-professor de matemática, descreve o fortuito de tudo o que lhe acontece — essa jovem sexualmente atractiva que, por um acaso de violência urbana, ele acolhe no apartamento; outras aparições ocasionais e mágicas, visto que a jovem tem o poder de convocar inidentificáveis, apavorantes rugidos das entranhas da casa, além de terríficas visões fantasmáticas. Assim acontece a visão de um fantasma num ímpeto de rasto branco, empunhando um facalhão-prenúncio, assim se pode entender, do assaltante de rua que por acaso desiste, por acaso regressa, após uma primeira tentativa falhada, para gratuitamente esfaquear de morte a sua vítima incooperante. E ainda num exercício de concentração, essa vidente faz voar rebeldes, agressivas mesinhas-de-apoio, e desde aí outras aparições ocorrem: um silente, esguio, imóvel, hiperbergmaniano fantasma da Morte; um idílio ou sonho de lesbianismo entre uma morena e uma loura, brevíssima cena mutável em outras figuras, como se toda a forma visível fosse o acaso dos acasos — ninguém decide nem a sua origem, nem a integridade dos seus instantes, nem o seu destino e fins últimos.

Jean-Claude Brisseau II 001

»»»»» Na sua materialista abordagem — sem raptos místicos nem outras mistificações — o filme convive bem com tais passes de mágica: apresenta-os com ironia, uma cândida ironia, quando o protagonista, que é investigador curioso, declara querer saber mais sobre aqueles eventos mágicos desatadamente cenográficos, que aludem a Méliès, entre outras referências.

»»»»» A mesma ironia sabiamente cândida, acabando num piscar de olhos conivente ao espectador, acontece na muito serena, materialista e última obra-prima de Alfred Hitchcock: Family plot (1976). Obra em que um fuso, metaforicamente entendendo esta palavra, é manipulado por uma falsíssima, seraficamente serena vidente Blanche (Barbara Harris), que nesse fuso enrola o fio de uma intriga perversa — e dá-lhe um falso final, tão falsa ela é e tão falsos são os finais das intrigas perversas em que os humanos se enredam, aí onde se levantam os mais altos valores ocidentais e arcanos que tudo regem, os valores do dinheiro — diamantes neste caso do filme de Hitchcock.

»»»»» Um colega-professor do protagonista de La fille de nulle part, numa das poucas cenas com personagens laterais, questionando-o sobre a solidão em que ele vive e a clareza das suas intenções quanto àquela jovem-de-nenhuma-parte, confessa que tudo o que o solicita actualmente, acções e objectos, se lhe tornaram pesados, esmagam-no, e é essa a mimica da sua tensão corporal; no entanto o desejo, e refere-se ao desejo sexual, que decorre da “paisagem” de duas raparigas que no momento passam, permanece.

»»»»» Outro diálogo: o protagonista explica à sua jovem-de-parte-nenhuma as possibilidades do ser enquanto ser humano, e considera três: a permanência na fé religiosa; a crença inabalável na ciência; e a percepção-absoluta do vazio universal e consequente conformidade com o nada enquanto destino e sentido. Esta última, creio, constituindo a mais lúcida das percepções, transporta consigo o ónus da angústia, a dilacerante, omnívora angústia.

António Sá

[01.05.2013]

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