Monthly Archives: March 2015

Desatino 50

Desatino / 50 [A crosta e o pus]      

 

»»»»» Ouvido a um cliente, numa tasca do Cais do Sodré, comentando outro cliente de saída:

»»»»» — Lá vai ele escavar na cona da puta: primeiro a crosta, depois o pus.

»»»»» Primeiro estranhei, chocou-me a escatologia crua do conceito, mas logo se me entranhou: intuí aí a metáfora exacta das ingentes tarefas presentes e futuras dos políticos e governantes portugueses: “escavar na cona da puta”.

António Sá

[16.03.2015]

Ainda sobre “Cavalo Dinheiro”: os “campos” contemporâneos

Ainda sobre “Cavalo Dinheiro”: os “campos” contemporâneos

»»»»» A proposta polemizante de Giorgio Agamben sobre os campos tornou-se entretanto mais entendível, ainda que se deva acrescentar: mutatis mutandis e em “democracia”, mais exactamente, democracia desvirtuada. E sempre com a ressalva dessa expressão latina e dessa palavra grega, sou levado a outra aproximação de campo: a do regime dos contratados em Angola, durante a vigência do Estado Novo não-democrático: esses negros válidos também acantonados em campos, ainda que não de extermínio, embora o horizonte da doença e da morte estivesse lá. Tudo são campos, ainda que não desarvoradamente exterminadores quanto os auschwitzianos por essa deseuropa fora. Sempre tive consciência mais-ou-menos difusa destes campos-hoje na assim-dita bela sociedade ocidental. Sociedade fundada em poderosíssimas indústrias, desde logo as indústrias bélica e automobilística, e poderosíssimas empresas operando nos sectores imobiliários e energéticos: tudo o que convoca o “progresso”, claramente, necessariamente, irreversivelmente insustentável — “progresso” com sua coorte infinita de submetidos e submersos. São estes os habitantes dos campos-hoje, habitantes logo tornados escória humana pelas engrenagens e dinâmicas superestruturais: essa distopia, ainda que não tão estilizada, que percorre as imagens enclausuradamente, verticalmente, dantescamente arquitectónicas de Metropolis (Fritz Lang, 1926).

»»»»» Sem mais considerações, sobre campos vem a ser a descrição empreendida em Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014). Filme total para definir isso de facto: o que é o que é. E descrever e definir imageticamente isso que é, mesmo não se tratando, ou justamente por não se tratar de um filme “realista”. Tudo é assim, por muito transverso que se afigure, transverso e estilizante, numa estética do baldio. Não se trata necessariamente do Portugal das minorias deserdadas: o filme pode ser lido enquanto metáfora da condição humana neste tempo português. Não decerto o Portugal falsificado das rocambolescas, factícias telenovelas. E quanto a imagens televisivas: o cabo-verdiano Ventura, ex-trabalhador da construção, resulta ser o lugar, mesmo se lugar-extremo, daquela parte da população que só é referida, ou mostrada, quando ocorrem grandes acidentes ou desgraças, tragédias familiares, ocasionais grandes protestos gritados. Coincidindo esta, com muita probabilidade, com aquela parte da população que nem vai votar, havendo sempre uma excessiva e crescente percentagem de abstenção. Não será por vontade manifesta de se abster, mas por deslocalização relativamente a um mundo onde essa parte não tem sítio, à excepção do campo para onde foi remetida. Não será um campo auschwitziano, mas com ele tem em comum esse destino fundamental: a eliminação. É necessário, é urgente, mesmo que não urgente-para-hoje, mas decerto para amanhã, eliminar os excedentários, os párias, eliminá-los de uma eliminação derrapante, focada burocraticamente, subracistamente na crença em um inexorável progresso, o progresso da progressiva degeneração, acelerada por desnutrições e doenças intratáveis — porque enfim, a estes não convém tratá-los.

Cavalo Dinheiro 2 001

 

António Sá

[17.02.2015]

Distracção 48

Distracção / 48 [Senhor, por que lhe dais tanta dor?]

 

 

»»»»» Estava o filósofo perorando incompreensivelmente do baixo da sua cátedra, que era o banco favorito do seu jardim camarariamente apocalíptico-transqualificado. Digo não do alto, mas do baixo da sua cátedra, porque estava na sua pior posição possível, mas às vezes está assim: deitado de costas sobre o banco, com a cabeça pendendo para fora, a rasar o empedrado. Temi pela sua integridade, como temo sempre que o vejo assim de cabeça pendida, mas o homem estava vivo e palrador, e aproveitou-se do ver-me espiá-lo temeroso para levantar a voz perorante:

»»»»» — Dizem que o senhor dos Passos, que governa o que pode… enfim, é governado pelas estratégias empresariais e bancárias… governança com a sua inteligência até… inteligência deglutidora, enfim… esse senhor dos Passos anda a ser acusado de não pagar as contribuições devidas à Segurança Social. Mas… o que é isso?… Eu não entendo… não entendo mesmo… Pode-me explicar o que é isso de “Segurança Social”? É coisa de distribuir bolachas, salsichas, laranjada?… Bom, eu cá não pago nada! Mas… e o senhor dos Passos… havia de ter de pagar?… mas porquê, Santo Deus?! — e erguendo os braços aos céus: —  Oh meu Deus, por que dais tanta dor ao senhor dos Passos?! Acusam esse senhor de cada coisa! O que mais hão-de ir buscar, para lhe dar ralações? Coitadinho! Eu isto não percebo… Não percebo as pessoas…

»»»»» — Fala do senhor governante, não é? — perguntei, interdito com aquela argumentação piedosa. — Se calhar tem razão. Ele diz, com humildade, que não é perfeito…

»»»»» — E eu?… Eu sou perfeito, por acaso?…

»»»»» — Claro que sim. Você é perfeito — disse eu, e logo levei mentalmente as mãos à cabeça, surpreendido comigo mesmo por ter adiantado tal juízo precário sobre aquele sem-tecto, assim ao desamparo, e tão solidário com o senhor dos Passos.

 

António Sá

[04.03.2015 / 06.03.2015]”

Desatino 49

Desatino / 49 [Viste-os?]

 

»»»»» Estava distraído, virado para a montra de um antiquário, e não vi passar um casal conhecido, que me cumprimentara, claro que sem retribuição. O amigo que me acompanhava chamou-me a atenção:

»»»»» — Tu nem os viste! Eles cumprimentaram-te…

»»»»» — Schhhh… foi. Eu nem os viste.

António Sá

[05.03.2015]

Distracção 46

Distracção / 46 [A transparência absoluta]

 

»»»»» O meu filósofo aborda-me no passeio de uma rua paralela à do seu jardim-vivenda. É raro vê-lo assim longe do seu habitat, entre os transeuntes, por isso confesso que foi com surpresa e receio que o encarei. Receio, porque dele nunca sei o que hei-de esperar, nem em que estado se encontra. Mas estava fresco e feliz, pelo menos de expressão facial, e filosofou-me num tom gaiato:

»»»»» — A minha vida não tem mistérios — de todo! — Eu vivo ao ar livre, durmo ao ar livre, sou um ser do ar livre!

»»»»» — Mas isso tem os seus custos… — atrevi-me eu a atenuar-lhe o fulgor.

»»»»» — Tem dias… — concedeu ele, e voltou ao seu tópico: — Tudo o que faço, é tudo assim ao ar livre: comer, mijar, defecar, viver enfim!, tudo o que faço é escrutinável, porque transparente: não tenho paredes a separar-me do olhar do mundo: se querem ver-me, quem quiser ver-me, é olhar para mim. Nenhum muro, nenhuma parede me separa do mundo, nem sequer telhados de vidro.

»»»»» — Muito bem — disse eu, enfastiado. — Já entendi o seu ponto. Continue assim feliz e grato à vida — rematei, apressando-me a ir-me à minha vida, mas ele cravou unhas espessas no meu cotovelo, retendo-me, e seguiu filosofando:

»»»»» — Estou satisfeito, porque estou na onda do progresso humano, esse progresso civilizacional último, consubstanciado na absoluta transparência de cada ser humano, de cada momento da vida de cada ser humano… Sintonizado assim com a senhora doutora-engenheira ministra da Justiça, que declarou, assim à transparência, que quando fala ao telefone é como se falasse para um gravador, assim sujeita sempre a escutas telefónicas possíveis, legais ou ilegais, tanto faz. É justo. A mim também todos me podem escutar, todos podem escutar o que eu tenho a dizer!

»»»»» — Ainda bem para si.

»»»»» — Digo-lhe mais: a senhora doutora-engenheira ministra bem podia instalar câmaras de vigilância em todas as divisões da sua casa e no escritório onde trabalha, para que víssemos a cada hora do dia o que anda a fazer e a dizer em casa e no escritório. A mim também toda a gente me pode ver e ouvir, sem recurso a tecnologias, vinte-e-quatro horas sobre vinte-e-quatro, dia após dia!

»»»»» — Não sei… — escusei-me eu em estado de céptico desespero sobre o estado de patético desatino do filósofo. — Entenda-se com a ministra!

»»»»» Forcejando, libertei o meu macerado cotovelo dos dedos cebolentos do filósofo, de unhas-de-águia encardidas, desarvorei inóspito para o dia, reflectindo apreensivo sobre um futuro de transparência absoluta.

 

António Sá

[31.01.2015/26.02.2015]

Distracção 47

Distracção / 47 [Os chineses vieram]

»»»»» Cantava o meu mais estimado filósofo no seu jardim, cantava com a frescura juvenil de septuagenário, que sempre o caracterizou:

Os chineses vieram

e deram um grande,

grande contributo,

deram um grande,

grande contributo,

deram, deram

um grande contributo

para que Portugal:

Portugal!, Portugal!,

pudesse, oh sim pudesse

estar hoje,

hoje e hoje,

hoje, hoje,

na situação,

situação em que está:

está e está, está e está

diferente

do que estava, oh estava,

oh se estava! Estava

e estava e estava,

estava, estava,

oh está!, oh está!

»»»»» Nunca o tinha ouvido cantar e fiquei com medo, muito medo do estado em que estivesse. Mas estava só num estado feliz, como quase sempre está, e disse-me risonho sob as barbas decanas:

»»»»» — Gosta?

»»»»» — Adorei! — exclamei, disparando passeio fora para evitar mais conversa. E fui mesmo assim admitindo-para-mim que, se lhe dessem um palco e um microfone, ele seria adorado enquanto exímio rapper.

»»»»» — Isto que eu canto foi o que declarou — disparou-me ele pelas costas — o senhor doutor-advogado-presidente da Costa, que é dono da Câmara-dos-buracões-cá-do-bairro.

»»»»» — Não sabia! — gritei-lhe, virando-me para trás. E ele berrou para mim e para todo o jardim: — Está a ver? Belas e sábias palavras! Contêm em si todo o nosso presente excelente e todo o nosso futuro radioso!

António Sá

[28.02.2015]