Distracção 46

Distracção / 46 [A transparência absoluta]

 

»»»»» O meu filósofo aborda-me no passeio de uma rua paralela à do seu jardim-vivenda. É raro vê-lo assim longe do seu habitat, entre os transeuntes, por isso confesso que foi com surpresa e receio que o encarei. Receio, porque dele nunca sei o que hei-de esperar, nem em que estado se encontra. Mas estava fresco e feliz, pelo menos de expressão facial, e filosofou-me num tom gaiato:

»»»»» — A minha vida não tem mistérios — de todo! — Eu vivo ao ar livre, durmo ao ar livre, sou um ser do ar livre!

»»»»» — Mas isso tem os seus custos… — atrevi-me eu a atenuar-lhe o fulgor.

»»»»» — Tem dias… — concedeu ele, e voltou ao seu tópico: — Tudo o que faço, é tudo assim ao ar livre: comer, mijar, defecar, viver enfim!, tudo o que faço é escrutinável, porque transparente: não tenho paredes a separar-me do olhar do mundo: se querem ver-me, quem quiser ver-me, é olhar para mim. Nenhum muro, nenhuma parede me separa do mundo, nem sequer telhados de vidro.

»»»»» — Muito bem — disse eu, enfastiado. — Já entendi o seu ponto. Continue assim feliz e grato à vida — rematei, apressando-me a ir-me à minha vida, mas ele cravou unhas espessas no meu cotovelo, retendo-me, e seguiu filosofando:

»»»»» — Estou satisfeito, porque estou na onda do progresso humano, esse progresso civilizacional último, consubstanciado na absoluta transparência de cada ser humano, de cada momento da vida de cada ser humano… Sintonizado assim com a senhora doutora-engenheira ministra da Justiça, que declarou, assim à transparência, que quando fala ao telefone é como se falasse para um gravador, assim sujeita sempre a escutas telefónicas possíveis, legais ou ilegais, tanto faz. É justo. A mim também todos me podem escutar, todos podem escutar o que eu tenho a dizer!

»»»»» — Ainda bem para si.

»»»»» — Digo-lhe mais: a senhora doutora-engenheira ministra bem podia instalar câmaras de vigilância em todas as divisões da sua casa e no escritório onde trabalha, para que víssemos a cada hora do dia o que anda a fazer e a dizer em casa e no escritório. A mim também toda a gente me pode ver e ouvir, sem recurso a tecnologias, vinte-e-quatro horas sobre vinte-e-quatro, dia após dia!

»»»»» — Não sei… — escusei-me eu em estado de céptico desespero sobre o estado de patético desatino do filósofo. — Entenda-se com a ministra!

»»»»» Forcejando, libertei o meu macerado cotovelo dos dedos cebolentos do filósofo, de unhas-de-águia encardidas, desarvorei inóspito para o dia, reflectindo apreensivo sobre um futuro de transparência absoluta.

 

António Sá

[31.01.2015/26.02.2015]

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