Distracção 47

Distracção / 47 [Os chineses vieram]

»»»»» Cantava o meu mais estimado filósofo no seu jardim, cantava com a frescura juvenil de septuagenário, que sempre o caracterizou:

Os chineses vieram

e deram um grande,

grande contributo,

deram um grande,

grande contributo,

deram, deram

um grande contributo

para que Portugal:

Portugal!, Portugal!,

pudesse, oh sim pudesse

estar hoje,

hoje e hoje,

hoje, hoje,

na situação,

situação em que está:

está e está, está e está

diferente

do que estava, oh estava,

oh se estava! Estava

e estava e estava,

estava, estava,

oh está!, oh está!

»»»»» Nunca o tinha ouvido cantar e fiquei com medo, muito medo do estado em que estivesse. Mas estava só num estado feliz, como quase sempre está, e disse-me risonho sob as barbas decanas:

»»»»» — Gosta?

»»»»» — Adorei! — exclamei, disparando passeio fora para evitar mais conversa. E fui mesmo assim admitindo-para-mim que, se lhe dessem um palco e um microfone, ele seria adorado enquanto exímio rapper.

»»»»» — Isto que eu canto foi o que declarou — disparou-me ele pelas costas — o senhor doutor-advogado-presidente da Costa, que é dono da Câmara-dos-buracões-cá-do-bairro.

»»»»» — Não sabia! — gritei-lhe, virando-me para trás. E ele berrou para mim e para todo o jardim: — Está a ver? Belas e sábias palavras! Contêm em si todo o nosso presente excelente e todo o nosso futuro radioso!

António Sá

[28.02.2015]

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