Ainda sobre “Cavalo Dinheiro”: os “campos” contemporâneos

Ainda sobre “Cavalo Dinheiro”: os “campos” contemporâneos

»»»»» A proposta polemizante de Giorgio Agamben sobre os campos tornou-se entretanto mais entendível, ainda que se deva acrescentar: mutatis mutandis e em “democracia”, mais exactamente, democracia desvirtuada. E sempre com a ressalva dessa expressão latina e dessa palavra grega, sou levado a outra aproximação de campo: a do regime dos contratados em Angola, durante a vigência do Estado Novo não-democrático: esses negros válidos também acantonados em campos, ainda que não de extermínio, embora o horizonte da doença e da morte estivesse lá. Tudo são campos, ainda que não desarvoradamente exterminadores quanto os auschwitzianos por essa deseuropa fora. Sempre tive consciência mais-ou-menos difusa destes campos-hoje na assim-dita bela sociedade ocidental. Sociedade fundada em poderosíssimas indústrias, desde logo as indústrias bélica e automobilística, e poderosíssimas empresas operando nos sectores imobiliários e energéticos: tudo o que convoca o “progresso”, claramente, necessariamente, irreversivelmente insustentável — “progresso” com sua coorte infinita de submetidos e submersos. São estes os habitantes dos campos-hoje, habitantes logo tornados escória humana pelas engrenagens e dinâmicas superestruturais: essa distopia, ainda que não tão estilizada, que percorre as imagens enclausuradamente, verticalmente, dantescamente arquitectónicas de Metropolis (Fritz Lang, 1926).

»»»»» Sem mais considerações, sobre campos vem a ser a descrição empreendida em Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014). Filme total para definir isso de facto: o que é o que é. E descrever e definir imageticamente isso que é, mesmo não se tratando, ou justamente por não se tratar de um filme “realista”. Tudo é assim, por muito transverso que se afigure, transverso e estilizante, numa estética do baldio. Não se trata necessariamente do Portugal das minorias deserdadas: o filme pode ser lido enquanto metáfora da condição humana neste tempo português. Não decerto o Portugal falsificado das rocambolescas, factícias telenovelas. E quanto a imagens televisivas: o cabo-verdiano Ventura, ex-trabalhador da construção, resulta ser o lugar, mesmo se lugar-extremo, daquela parte da população que só é referida, ou mostrada, quando ocorrem grandes acidentes ou desgraças, tragédias familiares, ocasionais grandes protestos gritados. Coincidindo esta, com muita probabilidade, com aquela parte da população que nem vai votar, havendo sempre uma excessiva e crescente percentagem de abstenção. Não será por vontade manifesta de se abster, mas por deslocalização relativamente a um mundo onde essa parte não tem sítio, à excepção do campo para onde foi remetida. Não será um campo auschwitziano, mas com ele tem em comum esse destino fundamental: a eliminação. É necessário, é urgente, mesmo que não urgente-para-hoje, mas decerto para amanhã, eliminar os excedentários, os párias, eliminá-los de uma eliminação derrapante, focada burocraticamente, subracistamente na crença em um inexorável progresso, o progresso da progressiva degeneração, acelerada por desnutrições e doenças intratáveis — porque enfim, a estes não convém tratá-los.

Cavalo Dinheiro 2 001

 

António Sá

[17.02.2015]

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