As turbas

As turbas

[tradução do poema em prosa ‘Les foules’ de Baudelaire]

»»»»» Não é dado a qualquer tomar um banho de multidão: gozar da turba é uma arte; e só pode fazê-lo, regabofe de vitalidade a expensas do género humano, aquele a quem uma fada insuflou desde o berço o gosto pelo travestismo e pela máscara, o ódio ao domicílio e a paixão pela viagem.

»»»»» Multidão, solidão: termos iguais e convertíveis para o poeta activo e fecundo. Quem não sabe povoar a sua solidão, não sabe estar só também numa turba atarefada.

»»»»» O poeta goza desse incomparável privilégio, de poder a seu modo ser ele-mesmo e outro. Como essas almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, na personagem de qualquer um. Só para ele, tudo está vago; e, se alguns lugares parecem estar-lhe vedados, é porque a seus olhos não vale a pena visitá-los.

»»»»» O passeante solitário e pensativo retira uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa facilmente a turba conhece os prazeres febris, de que estarão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso, recolhido como um molusco. Ele adopta como suas todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que a circunstância lhe apresenta.

»»»»» O que os homens chamam amor é bem pequeno, bem restrito e bem fraco, comparado a esta inefável orgia, esta santa prostituição da alma que se dá por inteiro, poesia e caridade, ao imprevisto que se mostra, ao desconhecido que passa.

»»»»» É bom ensinar às vezes aos felizes deste mundo, mesmo que apenas para humilhar por um instante o seu tolo orgulho, que há felicidades superiores às deles, mais vastas e mais refinadas. Os fundadores de colónias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo, conhecem sem dúvida alguma coisa destas misteriosas ebriedades; e, no seio da vasta família que o seu génio engendrou, eles devem rir às vezes daqueles que os lamentam pela sua sorte tão agitada e pela sua vida tão casta.

»»»»» Breve comentário, com expansão para futuros hoje conhecidos:

»»»»» Dissolver-se, dissolver a própria identidade, é uma possibilidade para aquele que sabe usufruir da experiência cristalizada no termo “banho de multidão” [“bain de multitude”]. Para isso, terá o gosto ou a faculdade do travestismo, compõe uma máscara para se tornar indistinto no seio do grupo, do ajuntamento, da turba.

»»»»» Uma outra modalidade a que só o poeta tem acesso, perspectiva ainda romântica do poeta enquanto ser dotado de uma perceptividade superior, é a de entrar “na personagem de qualquer um” [“dans le personnage de chacun”]. Ou seja, ele identifica-se, introduz-se nesse lugar “vago” [“vacant”] que é para ele o lugar do outro. Esta modalidade foi largamente desenvolvida, em século posterior, por Fernando Pessoa, nalguns poemas atribuídos ao heterónimo Álvaro de Campos, em particular no poema Ode triunfal, onde este preceito baudelairiano de identificação com o outro se vai sintetizar na fórmula lapidar “Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!”. Assinale-se a distância de cerca de meio século entre este poema em prosa Les foules [As turbas], que primeiro saiu na Revue fantaisiste em 1861, e que integra a obra Petits poèmes en prose, integralmente editada em 1869 no volume IV das Oeuvres complètes; e a Ode triunfal, do heterónimo pessoano, cuja redacção data de junho de 1914.

»»»» Charles Baudelaire (1821-1867) vive a época de uma historicamente denominada Revolução Industrial, tempo em que a Europa extravasa de modo massivo para outros continentes. Assim se devem entender esses “fundadores de colónias” e “pastores de povos” e “padres missionários”, toda essa gente perdida ou achada em regiões febrilmente superpovoadas, onde a produção e circulação de matérias-primas se potenciam, os entrepostos comerciais se multiplicam e prosperam.

»»»»» No nosso tempo, estas turbas encontramo-las nas ruas de grandes capitais, nos transportes públicos urbanos; em festivais e concertos de música ao ar livre, onde um banho humano é, a bem dizer, literal, na figura da moche (do inglês mosh), que consiste no mergulho de um corpo, sua sustentação, transporte e entrega sequente do mesmo pelos espectadores uns aos outros, envolvidos num corpo-a-corpo movente; e em festividades regionais, transformadas pela juventude em alegres, selvagens refregas, das quais uma das mais surpreendentes é a chamada tomatina, festa agrícola celebrada sazonalmente em Buñol, Valência, na última semana de agosto, e em que são lançadas toneladas de tomates sobre a multidão.

»»»»»Texto original:

Les foules

»»»»» Il n’est pas donné à chacun de prendre un bain de multitude : jouir de la foule est un art ; et celui-là seul peut faire, aux dépens du genre humain, une ribote de vitalité, à qui une fée a insufflé dans son berceau le goût du travestissement et du masque, la haine du domicile et la passion du voyage.

»»»»» Multitude, solitude : termes égaux et convertibles pour le poète actif et fécond. Qui ne sait pas peupler sa solitude, ne sait pas non plus être seul dans une foule affairée.

»»»»» Le poète jouit de cet incomparable privilège, qu’il peut à sa guise être lui-même et autrui. Comme ces âmes errantes qui cherchent un corps, il entre, quand il veut, dans le personnage de chacun. Pour lui seul, tout est vacant ; et, si de certaines places paraissent lui être fermées, c’est qu’à ses yeux elles ne valent pas la peine d’être visitées.

»»»»» Le promeneur solitaire et pensif tire une singulière ivresse de cette universelle communion. Celui-là qui épouse facilement la foule connaît des jouissances fiévreuses, dont seront éternellement privés l’égoïste, fermé comme un coffre, et le paresseux, interné comme un mollusque. Il adopte comme siennes toutes les professions, toutes les joies et toutes les misères que la circonstance lui présente.

»»»»» Ce que les hommes nomment amour est bien petit, bien restreint et bien faible, comparé à cette ineffable orgie, à cette sainte prostitution de l’âme qui se donne tout entière, poésie et charité, à l’imprévu qui se montre, à l’inconnu qui passe.

»»»»» Il est bon d’apprendre quelquefois aux heureux de ce monde, ne fût-ce que pour humilier un instant leur sot orgueil, qu’il est des bonheurs supérieurs au leur, plus vastes et pus raffinés. Les fondateurs de colonies, les pasteurs de peuples, les prêtres missionnaires exilés au bout du monde, connaissent sana doute quelque chose de ces mystérieuses ivresses ; et, au sein de la vaste famille que leur génie s’est faite, ils doivent rire quelquefois de ceux qui les plaignent pour leur fortune si agitée et pour leur vie si chaste.

»»»»» Nota bibliográfica: utilizei o volume das Oeuvres complètes de Baudelaire publicado nas Éditions du Seuil em 1968, de onde transcrevi o poema na língua original.

António Sá

[23.03.2015/03.04.2015]

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