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Alexanderplatz em 1931

Alexanderplatz em 1931

 

»»»»» Lê-se aí nas imagens o futuro da destruição. Visualizo esses becos, essas ruas, essas avenidas rasgadas do trânsito de eléctricos, automóveis, carruagens, caleches, ladeadas de árvores, formações militares a cavalo, gentes entregues à voragem dos dias, arquitecturas regulares, vãos de prédios, pátios, num deles uma rapariga frágil canta uma canção de amor, “nenhum governo pode proibir o amor”, a troco de moedas, janelas onde assomam mulheres que espreitam o que acontece fora, no intervalo de tarefas domésticas. E vejo, ao mesmo tempo, passar na memória o filme das ruas de Berlim devassadas pelos tanques aliados, entre ruínas, as ruínas destes mesmos prédios habitados em 1931, antes de tudo. Vejo as imagens incólumes de Berlin Alexanderplatz (Phil Jutzi, 1931), e a minha imaginação apocalíptico-verídica plasma sobre essas imagens o futuro da destruição que foi. Assim me confrange, sem exagero me excrucia o visionamento, encolho-me, as minhas células retraem-se, fico mais pequeno. Confrange-me a visão de todas as gentes de todas as idades que a câmara foca, com maiores ou menores precisões, maiores ou menores distâncias, maiores ou menores tempos de exposição. Nas crianças e nos adolescentes vejo os futuros soldados e agentes do regime, nos adultos e nos idosos a iludida adesão mais ou menos convicta ao nazismo, mas também não se pode deixar de ver os muitos que terão sido vítimas — judeus, comunistas, homossexuais. Para todos enfim, vítimas e carrascos, não se antevêem finais felizes, já acontecidos — em menos de dez anos, todos fizeram opções absolutas, irreversíveis, ou fizeram-nas por eles, e tiveram de viver, tanto quanto viveram, mal imagino de que modos, as vitórias e os estertores de uma guerra suicidária.

Berlin, Alexanderplatz 001

»»»»» Vem a ser esse sofrimento-em-diferido o que me motiva nos filmes alemães dos anos trinta, finais da República de Weimar, advento do Terceiro Reich (1933): a captação que neles se expande da vida urbana. Desta observação excluo obviamente os filmes da vaga expressionista da década anterior, filmes de estúdio, de que foram expoentes Robert Wiene (Das Kabinet des Dr. Caligari, 1920); W. F. Murnau, génio exponencial do enquadramento e do ritmo cinematográficos (Nosferatu, 1922); Fritz Lang, aérea e arquitectónica inspiração (Dr. Mabuse, der Spieler, 1922); entre outros. Paralelamente ao expressionismo e para além, definia-se uma corrente móbil, vibrátil, de filmes-de-rua (engendro por comodidade esta designação insuficiente), de entre os quais fulgura o híper-poético Berlin, die Symphonie eines Grosstadt [Berlin, sinfonia de uma capital] (Walter Ruttman, 1927).

»»»»» O porquê desta minha motivação é-me intuitivamente entendível, mas não me resulta fácil expô-la por escrito. No entanto, tentei-o no primeiro parágrafo: ver estas gentes que circulam nestas ruas cotidianas, pequenas e grandes multidões em movimento, nos seus movimentos das idades em que estão — desde as mais tenras idades às mais senis. Alexanderplatz é o pano de fundo para a história do ex-presidiário Franz Biberkopf: truculento, excessivo, alcoólatra, violento, homicida, reincidente ladrão, em grande medida grotesco nos seus desencadeamentos. Personagem que Rainer Werner Fassbinder desenvolveu na sua longa versão cinematográfica.

»»»»» Neste filme de Phil Jutzi pode-se usufruir, para além das muitas perspectivas de Berlim, e muitas dessa mítica praça — Alexanderplatz — tornada mítica  pelo romance de Alfred Döblin (1929), que Jutzi adapta; pode-se usufruir de uma sequência bastante descritiva dos banhos de praia na estância balnear de Baden: todo o tipo de corpos expostos e de indumentárias banhistas, felizes incursões na água. Outra sequência epocalmente definidora é a de um salão-de-baile. A câmara foca oblongos frescos art déco, depois os dançantes e a orquestra no plano inferior, e vai subindo até um camarote festivo e mais acima outro camarote festivo, até à cúpula envidraçada, sob a qual esplende uma estátua de Cupido: e desde baixo até cima, o jogo feérico de luzes, grinaldas, adornos, grandes bolas de espelhos-reflectores, a câmara vai seguindo num crescendo até esse resplandecente Cupido dourado.

»»»»» Não me ocupando muito nem preocupando quanto a histórias para-cinematográficas, anoto, curioso inda-assim dos percursos individuais, que o realizador Phil Jutzi fez, nos anos vinte do século vinte, filmes de propaganda comunista; após o advento do Terceiro Reich, em 1933, passou a fazer filmes de propaganda nazi, mas sem a intensidade estruturante e fulgurante dessa propagandista única e renitente que foi Leni Riefensthal (1902-2003). Jutzi morreu um ano depois do fim da guerra, em 1946, votado ao ostracismo.

»»»»» Três notas laterais:

»»»»» Nota 1. Há neste filme uma subterrânea vertente musical, que desabrocha na bonita e livre canção da frágil mendiga, acompanhada por um decadente acordeonista, cantada num pátio triste para um público popular; e numa canção roufenhamente entoada por Biberkopf, em regime de provocação ao bando de ladrões de que fez e fará parte.

»»»»» Nota 2: Por subjectiva aproximação cinéfila, a luminosa, a preto-e-branco, sequência na estância balnear de Baden fez-me raccord com a esplêndida sequência inicial de Imitation of life (Douglas Sirk, 1959), em technicolor e 35 milímetros, na superpovoada praia onde a protagonista (interpretada por Lana Turner no seu esplendor) conhece a mãe negra que a acompanhará na vida e que ela vai acompanhar na morte.

»»»»» Nota 3. Mutatis mutandis, e tão subjectivamente quanto na nota anterior, ao percurso ascensional da câmara pelo salão-de-baile, onde se festeja a vida, colou-se-me na memória cinéfila o ascensionalismo da câmara barroca de Joseph von Sternberg no labiríntico Macao (1952), onde se explica miticamente a então possessão portuguesa na Ásia, empório de casinos e mistérios.

António Sá

[21.05.2015]

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notas & noções.5

notas & noções.5                                                                         

»»»»» Hipótese de corolário para notas & noções.4 (*):

»»»»» Não se pode acusar um político de mentir: ele expõe sempre as suas “verdades”, até enquanto ou sobretudo quando as reproduz em infinito psitacismo, ao longo do seu cargo ministerial ou secretarial ou deputacional.

»»»»» Dele, político, não se pode dizer que não cumpra as suas promessas, que são “verdades” a seu tempo (enquadradas num campo abstracto de “teoria política”), tanto quanto a seu tempo são “verdades” (igualmente enquadradas num campo abstracto de “teoria política”) as medidas governamentais que ele adopte em sentido totalmente contrário ao das promessas.

Nota:

»»»»» (*) O texto das notas & noções.4 foi este:

»»»»» As teorias políticas são abstracções. Pretendem configurar “verdades”; constituem, instituem as suas próprias “verdades”. Podem ter-se tornado, podem tornar-se práticas políticas, em bloco ou parcialmente. Estas práticas configuram outras tantas “verdades” (independentemente de quaisquer juízos sobre as suas justeza e justiça). Vivemos na plena vigência de “verdades” no campo das práticas políticas, de leste a oeste do planeta. (Será isto óbvio? Por que tudo enfim se apresenta imperfeito, distorcido?)

António Sá

[14.05.2015/18.05.2015]

notas & noções.4

notas & noções.4

»»»»» As teorias políticas são abstracções. Pretendem configurar “verdades”; constituem, instituem as suas próprias “verdades”. Podem ter-se tornado, podem tornar-se práticas políticas, em bloco ou parcialmente. Estas práticas configuram outras tantas “verdades” (independentemente de quaisquer juízos sobre as suas justeza e justiça). Vivemos na plena vigência de “verdades” no campo das práticas políticas, de leste a oeste do planeta. (Será isto óbvio? Por que tudo enfim se apresenta imperfeito, distorcido?)

António Sá

[14.05.2015]

notas & noções.3

notas & noções.3

»»»»» Alguma abstracção, teoria ou lei pode configurar uma “verdade”? Não intuo esta questão enquanto devedora da noção de relatividade. Para o movimento corrente da vida devo adoptar algumas “verdades”, mas percebo-as como coisas inconsistentes, só consistentes em contextos próprios, limitados.

António Sá

[02.12.2014]

notas & noções.2

notas & noções.2

»»»»» O que de mal dizem de nós. Este é um tópico bastante comum na música popular em geral, incluindo a música pop-rock. Pode ser formulado deste modo: “vamos viver (o nosso amor / a nossa vida) sem atendermos ao que os outros dizem”. Uma balada dos Back Street Boys começa assim: “No matter what they say”.

António Sá

[10.05.2015]

notas & noções.1

notas & noções.1

»»»»» A maledicência opera sobre: 1) a vertente defensiva (individual, grupal) do que se diz; 2) a vertente projectiva: por hábito social, comentamos negativamente a pessoa que conhecemos mal ou nem conhecemos, projectando nela os nossos sentimentos escusos, auto-ocultos, essa parte auto-ignorada da nossa psique: olhamo-nos no espelho a imagem onde nos desconhecemos ou não ousamos reconhecer-nos.

António Sá

[10.05.2015]