Monthly Archives: June 2015

notas & noções.8

notas & noções.8                                                                                      

»»»»» Fez-se a “União Europeia”, provida entretanto de um quadro normativo progressivamente aplicável nos países integrantes. Instituiu-se o euro enquanto moeda única para usufruto actuante e futuro da Europa-boa-e-próspera-até-ver. Todo o conspecto de uma criação “laboratorial” de estadistas-cientistas com uma “visão-de-futuro”. Por legítima suposição contemporânea, há-de dar-se por suposto e até pressuposto que desde os tempos babilónicos, e antes até, nenhum estratega, nenhum chefe-de-clã, etc., etc., terá tido uma “visão-de-futuro”; mas também se pode supor o contrário, ou seja, que demasiados tiveram demasiada “visão-de-futuro” e a implantaram denodadamente, sem fazerem muitas perguntas aos pacientes de tais “visões-de-futuro” (*), fossem elas bélicas, fossem pacíficas, as duas faces de uma “moeda única”. Toda a “visão-de-futuro”, para ser posta em prática, exige uma engenharia “laboratorial” que faz recurso, por exemplo: à “ciência” da época em que se produz — seja a dos arúspices, seja a da física nuclear ou da aceleração de partículas; e aos recursos e saberes económicos e geoestratégicos dos lugares terrestres onde o milagre da “visão-de-futuro” conheceu a sua emergência, e pretende aplicar-se e, desde logo, expandir-se.

»»»»» Mas as “visões-de-futuro” contemporâneas e europeias têm um selo de garantia que as torna mais produtivas, mais limpas, mais sublimes que todas as “visões-de-futuro” de estrategas-visionários de todos os passados. Pelo que se pode concluir que a “União Europeia” é uma criação mais “laboratorialmente” sublime. Tal sublimidade há-de ser o corolário da nossa elevação, europeus, aos céus etéreos da razoabilidade, da equanimidade, da salubridade, da prosperidade, da racionalidade, da tranquilidade, da felicidade. Assim há-de ser (**).

 

Notas:

»»»»» (*) Tais “visões-de-futuro” compreendem grandes empreendimentos nos sectores do imobiliário e da engenharia, etc.: ocorre-me desconfiar se tais empreendimentos não são o índice dos desequilíbrios existentes à escala mundial: os desequilíbrios entre a, mais que suficiência, abastança europeia, em contraste com a, por exemplo, indigência africana, não no todo, decerto, mas em vastas regiões desse continente.

»»»»» (**) Há ironia e acrimónia neste último parágrafo. No entanto, nada me move contra qualquer “União” — europeia, africana, etc. Seria aliás despropositado, estulto, tal movimento. As reticências que coloco são relativas ao conjunto de regras comuns aplicadas indiscriminadamente a países mais-que-diversos na geografia, na economia e na história; e, sobretudo, à instituição do euro, o tipo de coisa idealista que me inspirou desde logo resistência mental, que não me esmorece, antes pelo contrário. [22.06.2015]

 

António Sá

[26.05.2015/14.06.2015]

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notas & noções.7

notas & noções.7                                                                                      

»»»»» Nota prévia: este texto, para evitar ajuizamentos imediatos, convém ser lido em submissão aos pressupostos enunciados nas notas & noções.6 (*).

»»»»» Com base numa teoria da Europa, fez-se isso que com humildade diplomática geoestratégica se denominou “União Europeia”. Chegado aqui, tenho de respirar fundo, ganhar fôlego para ir mais longe e entretanto, impacientemente, perguntar: “— Porquê?”; “— Era mesmo necessário haver?”; “— E, sobretudo, haver da maneira que há?”

»»»»» “— Enfim, por grandes causas, das melhores seguramente.” Por hipótese, de entre elas, e não menor, a causa supra-expansionista (**), claro que entendida em muito nova, sub-reptícias modalidades, distantes dos móbeis imperiais e coloniais dos séculos XIX e XX. E seria caso para perguntar também: “— A Europa não descansa?” Mas reitero que me situo num campo de livres, intrépidas hipóteses, e remeto de novo, como vem na nota prévia a este texto, para pressupostos enunciados nas notas & noções.6 (*).

»»»»» E em todo o caso: encontro-me protegido assim, enquanto europeu (***). Não escrevo isto com ironia, antes com gratidão pelo que esta União, dita “União Europeia”, concebida por bons espíritos, idealistas, faz pelos seus cidadãos-europeus, mas isso não me coíbe de especular num trapézio sem rede, mesmo que tal se afigure um movimento auto-perverso.

 

Notas:

»»»»» (*) O texto das notas & noções.6 foi este:

»»»»» Nota prévia: neste texto apenas se articulam as condições de uma hipótese.

»»»»» A “Europa” está construída enquanto “verdade” de facto. Uma verdade política geoestratégica.

»»»»» A partir desta “verdade” tal como está, vou elaborar um cenário puramente hipotético. Concebo que seja tido por improdutivo e desadequado, mas as hipóteses têm de se jogar em liberdade, e acaso participar de pressupostos ingénuos ou insípidos — foi na sua ingenuidade que uma criança disse “— Ele não traz nada vestido!”, referindo-se ao rei que desfilava no seu cavalo, tal como se narra no célebre conto de Hans Christian Andersen. Mas a tal tipo de denúncia não me atrevo, mesmo porque, nesta “sociedade de informação” que prospera, a vida vai aparecendo despida, gentes e países.

»»»»» Seja lido este cenário hipotético enquanto uma performance que se pretenda mental, e tão provocatória como seria uma performance realizada por um artista do absurdo e da abstracção insustentável.

 

»»»»» (**) Já depois de escrito este texto, já entrado o mês de junho de 2015, ouço na televisão a notícia de que, além de grandes despedimentos na Europa, o britânico Lloyds Bank equaciona a transferência da sua sede para um país asiático emergente. [10.06.2015]

 

»»»»» (***) Classifico-me de europeu, mas talvez devesse, mais propriamente, dizer-me europeu-enviesado, pelo facto biográfico de ter nascido em África, e aí ter vivido infância e adolescência.

 

António Sá

[26.05.2015]

notas & noções.6

notas & noções.6                                                                                      

»»»»» Nota prévia: neste texto apenas se articulam as condições de uma hipótese.

»»»»» A “Europa” está construída enquanto “verdade” de facto. Uma verdade política geoestratégica.

»»»»» A partir desta “verdade” tal como está, vou elaborar um cenário puramente hipotético. Concebo que seja tido por improdutivo e desadequado, mas as hipóteses têm de se jogar em liberdade, e acaso participar de pressupostos ingénuos ou insípidos — foi na sua ingenuidade que uma criança disse “— Ele não traz nada vestido!”, referindo-se ao rei que desfilava no seu cavalo, tal como se narra no célebre conto de Hans Christian Andersen. Mas a tal tipo de denúncia não me atrevo, mesmo porque, nesta “sociedade de informação” que prospera, a vida vai aparecendo despida, gentes e países.

»»»»» Seja lido este cenário hipotético enquanto uma performance que se pretenda mental, e tão provocatória como seria uma performance realizada por um artista do absurdo e da abstracção insustentável.

António Sá

[25.05.2015]