Monthly Archives: July 2015

A caminho do mínimo

A caminho do mínimo

»»»»» A última grande obra, em tamanho e em qualidade, pintada por Rogier van der Weyden foi El calvario, que lhe ocupou sete anos (1457-1464), e se encontra hoje no Monasterio de San Lorenzo del Escorial. A dimensão da obra é índice do auge expansivo-vertical da arte sacra nesses meados do século XV. Similarmente, a dimensão expansivo-horizontal em Jackson Pollock é índice do auge do abstracionismo em pleno século XX. Pode acontecer assim em diversas artes, quando as condições históricas são propícias: os começos tentados e os auges pósitos: aqueles de dimensões modestas, caso das esculturas sacras dos séculos XII, XIII e mesmo XIV; estes de dimensões tendencialmente imensas, casos de Miguel Ângelo Buonarroti ou do citado Jackson Pollock, sem esquecer de os situar nos respectivos séculos. Entretanto tais auges, atingido um qualquer limite do possível, exaustão cultural, portanto histórica, são substituídos por outros horizontes de eventualidades.

El carvario, R. van der Weyden 001

»»»»» Esta última obra de Rogier van der Weyden surpreende pelo seu minimalismo em época tão pletórica de figuras e arquitecturas e paisagens, na representação de cenas bíblicas; época de que ele mesmo é um dos excelentes representantes.

»»»»» No tão abstracto calvário de van der Weyden, só há três figuras, com o Cristo no centro, na sua cruz. Obra de conceptual abstracção. O fundo é um inverosímil, inverificável, inhistoriável painel de azulejos vermelho-sanguíneo.

»»»»» Por quê este vermelho-sanguíneo, tão racionalmente contido em um largo painel quadrangular?

António Sá

[29.06.2015]

O jovem São João Baptista

O jovem São João Baptista

»»»»» Tropeço outra vez, acaso dos acasos tudo é acaso, no senhor Francisco de los Cobos y Molina (finais do séc. XV-1547), natural de Úbeda e secretário do imperador Carlos V. Sobre este secretário e mecenas, ao qual se deve o que ainda é hoje a tão arquitectonicamente monumental, plana e geométrica urbe de Úbeda, sul de Espanha, redigi algum tempo atrás um breve texto, Um templo para nada, e para ele remeto. [Para obviar o acesso, insiro nesta mesma entrada o referido texto, no final.]

»»»»» A razão por que tropeço em Francisco de los Cobos é ínvia: foi-lhe oferecida, no outono de 1537, uma obra dos primórdios escultóricos de Miguel Ângelo Buonarroti, estátua de razoável-juvenil tamanho, O jovem São João Baptista, conhecida em Espanha por San Juanito, de que apresento a foto junto.

San Juanito 001

»»»»» Não me alongo na história deste caso. Limito-me aos dados mais atinentes. Como informei antes, a estátua foi-lhe oferecida, sendo Cosme I de Médicis o ofertante. Fazia parte dos bens dos célebres Médicis de Florença, desde que fora executada em 1495-1496. Em 1537, Cosme I ofereceu-a ao secretário de Carlos V, porque este imperador o ajudara a impor-se em Florença. Foi esta a história. A estátua adornou um nicho da capela do Salvador, em Úbeda, até ficar em pedaços em 1936, no contexto da Guerra Civil de Espanha. Entretanto agora restaurada e exposta no Museo Nacional del Prado, até regressar ao seu nicho, em Úbeda. Um final feliz, pesem a injúria e a colagem visíveis, por sobre as turbulências da História.

António Sá

[28.06.2015]

Um templo para nada

»»»»» Que se construa uma igreja monumental numa aldeia de montanha, numa região em cujas cercanias não existe nenhuma cidade: eis o que se afigura um mistério, talvez nem tanto, apenas um caso. Caso explicável se nos ativermos aos meandros das psicologias e derivas dos poderes sociais e políticos. Esta igreja a que me reporto nunca foi uma igreja no pleno das suas funções, por isso os intérpretes da sua história preferem referi-la como “Ruínas de Santa María”, construídas no século XVI. Sem que a sua construção fosse nunca concluída, conheceu três destruições: a consequente à inundação do rio Cerezuelo e derrocada da montanha adjacente; a que decorreu das invasões napoleónicas, nos inícios do século XIX; e a da Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Apesar do sítio ou por causa do sítio, foi um membro da nobreza, o Cavaleiro da Ordem de Santiago Francisco de los Cobos y Molina (finais do séc. XV-1547), em ascensão na esfera do poder, que ordenou e custeou a sua quase-construção sempre quase. O que impressiona, para além das Ruínas a céu aberto, na sua desproporção relativamente à pequenez da povoação de Cazorla onde se situa, é que, sendo projectada para se erguer sobre o rio, se construiu, para a passagem das águas do mesmo rio, um extenso, ingente túnel de centenas de metros paredes-meias com a fundação das habitações, complexa obra de engenharia hoje tão subterrânea e grandiosa quanto inútil, desde sempre inútil para sempre inútil.

»»»»» Útil afinal para excursões turísticas guiadas às ruínas.

File:FranciscoDeLosCobos.jpg

»»»»» Francisco de los Cobos era um fidalgo que sempre soube ir ascendendo, em tempo de clivagens políticas optou por prestar vassalagem ao infante Carlos, esse que viria a ser o imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico e rei Carlos I de Espanha. Francisco de los Cobos foi seu secretário, acumulou fortuna que utilizou ordenando o plano de urbanização da cidade onde nasceu, Úbeda, e onde foi construído o seu palácio, assim como avantajada igreja. Cidade a bastantes quilómetros de Cazorla, esse povoado das grandiosas Ruínas de Santa María. As igrejas referidas, o palácio de los Cobos e muito do vasto conjunto arquitectónico de Úbeda são obra do arquitecto espanhol Andrés de Vandelvira (1509-1575).

»»»»» Consta que Francisco de los Cobos y Molina teria mandado erguer isso a que chamam Ruínas de Santa María, para contrapor uma igreja com grandiosidade cristã ao elevado castelo mouro de Cazorla, poeticamente dito Castelo de la Yedra, e que aliás era só um posto de vigilância; teria sido também para firmar o seu poder em toda a região, sendo o lugar de Cazorla, com seus dezanove moinhos de água ao longo do Cerezuelo, um próspero núcleo de produção de farinha e de azeite.

»»»»» Encontrei este lugar de Cazorla e a cidade renascentista de Úbeda, quando em demanda do Castelo de Jaén, em cujo cerco participou o trovador galego Afonso Anes do Coton no século XIII, mais exactamente no ano de 1246.

»»»»» [Nota iconográfica: a imagem reproduz o retrato de Don Francisco de los Cobos y Molina em todo o seu poder e plenitude, obra de Jan Gossaert, conhecido por Mabuse, datada de 1530-1532.]

António Sá

[02.07.2013/10.07.2013] / [texto revisto e corrigido a 06.09.2013]

notas & noções.9

notas & noções.9                                                                                      

»»»»» Havemos de meter numa “União Europeia” países alojados em espaços geográfico-económicos radicalmente diferentes (do Mediterrâneo ao Árctico); com modos de vida e recursos naturais radicalmente diferentes (da agricultura de subsistência e artesanato ancestral à mais sofisticada tecnologia); com recepção de imigrantes e refugiados radicalmente diferente (da Itália e Grécia, receptores de grandes ondas-de-choque, à Finlândia, cujo regime de recepção é híper-restritivo) (*).

»»»»» Havemos de meter estes países na ordem estrita de belas directrizes e regras politicamente correctas, burocrático-sanitário-paranóides.

»»»»» Havemos de meter grande parte destes países numa supra-inventada moeda única, o euro.

Nota:

»»»»» (*) Na sua crónica quinzenal na separata de Economia do hebdomadário Expresso, Manuela Ferreira Leite, ex-ministra de um governo de direita e actual comentadora televisiva, escreve o seguinte parágrafo:

»»»»» “Seria, no entanto, tempo de ouvir discutir como é que países, com diferentes riquezas naturais, com graus de competitividade incomparáveis, com níveis de desequilíbrios económicos, financeiros e sociais divergentes, podem sobreviver, em moeda única, com regras comuns, sem que isso não constitua um entrave ao desenvolvimento do país.”

»»»»» Reproduzo a seguir o artigo, publicado a 20 de junho de 2015, do qual se retirou o parágrafo anterior:

artigo M.F.L 001

António Sá

[21.06.2015]