O jovem São João Baptista

O jovem São João Baptista

»»»»» Tropeço outra vez, acaso dos acasos tudo é acaso, no senhor Francisco de los Cobos y Molina (finais do séc. XV-1547), natural de Úbeda e secretário do imperador Carlos V. Sobre este secretário e mecenas, ao qual se deve o que ainda é hoje a tão arquitectonicamente monumental, plana e geométrica urbe de Úbeda, sul de Espanha, redigi algum tempo atrás um breve texto, Um templo para nada, e para ele remeto. [Para obviar o acesso, insiro nesta mesma entrada o referido texto, no final.]

»»»»» A razão por que tropeço em Francisco de los Cobos é ínvia: foi-lhe oferecida, no outono de 1537, uma obra dos primórdios escultóricos de Miguel Ângelo Buonarroti, estátua de razoável-juvenil tamanho, O jovem São João Baptista, conhecida em Espanha por San Juanito, de que apresento a foto junto.

San Juanito 001

»»»»» Não me alongo na história deste caso. Limito-me aos dados mais atinentes. Como informei antes, a estátua foi-lhe oferecida, sendo Cosme I de Médicis o ofertante. Fazia parte dos bens dos célebres Médicis de Florença, desde que fora executada em 1495-1496. Em 1537, Cosme I ofereceu-a ao secretário de Carlos V, porque este imperador o ajudara a impor-se em Florença. Foi esta a história. A estátua adornou um nicho da capela do Salvador, em Úbeda, até ficar em pedaços em 1936, no contexto da Guerra Civil de Espanha. Entretanto agora restaurada e exposta no Museo Nacional del Prado, até regressar ao seu nicho, em Úbeda. Um final feliz, pesem a injúria e a colagem visíveis, por sobre as turbulências da História.

António Sá

[28.06.2015]

Um templo para nada

»»»»» Que se construa uma igreja monumental numa aldeia de montanha, numa região em cujas cercanias não existe nenhuma cidade: eis o que se afigura um mistério, talvez nem tanto, apenas um caso. Caso explicável se nos ativermos aos meandros das psicologias e derivas dos poderes sociais e políticos. Esta igreja a que me reporto nunca foi uma igreja no pleno das suas funções, por isso os intérpretes da sua história preferem referi-la como “Ruínas de Santa María”, construídas no século XVI. Sem que a sua construção fosse nunca concluída, conheceu três destruições: a consequente à inundação do rio Cerezuelo e derrocada da montanha adjacente; a que decorreu das invasões napoleónicas, nos inícios do século XIX; e a da Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Apesar do sítio ou por causa do sítio, foi um membro da nobreza, o Cavaleiro da Ordem de Santiago Francisco de los Cobos y Molina (finais do séc. XV-1547), em ascensão na esfera do poder, que ordenou e custeou a sua quase-construção sempre quase. O que impressiona, para além das Ruínas a céu aberto, na sua desproporção relativamente à pequenez da povoação de Cazorla onde se situa, é que, sendo projectada para se erguer sobre o rio, se construiu, para a passagem das águas do mesmo rio, um extenso, ingente túnel de centenas de metros paredes-meias com a fundação das habitações, complexa obra de engenharia hoje tão subterrânea e grandiosa quanto inútil, desde sempre inútil para sempre inútil.

»»»»» Útil afinal para excursões turísticas guiadas às ruínas.

File:FranciscoDeLosCobos.jpg

»»»»» Francisco de los Cobos era um fidalgo que sempre soube ir ascendendo, em tempo de clivagens políticas optou por prestar vassalagem ao infante Carlos, esse que viria a ser o imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico e rei Carlos I de Espanha. Francisco de los Cobos foi seu secretário, acumulou fortuna que utilizou ordenando o plano de urbanização da cidade onde nasceu, Úbeda, e onde foi construído o seu palácio, assim como avantajada igreja. Cidade a bastantes quilómetros de Cazorla, esse povoado das grandiosas Ruínas de Santa María. As igrejas referidas, o palácio de los Cobos e muito do vasto conjunto arquitectónico de Úbeda são obra do arquitecto espanhol Andrés de Vandelvira (1509-1575).

»»»»» Consta que Francisco de los Cobos y Molina teria mandado erguer isso a que chamam Ruínas de Santa María, para contrapor uma igreja com grandiosidade cristã ao elevado castelo mouro de Cazorla, poeticamente dito Castelo de la Yedra, e que aliás era só um posto de vigilância; teria sido também para firmar o seu poder em toda a região, sendo o lugar de Cazorla, com seus dezanove moinhos de água ao longo do Cerezuelo, um próspero núcleo de produção de farinha e de azeite.

»»»»» Encontrei este lugar de Cazorla e a cidade renascentista de Úbeda, quando em demanda do Castelo de Jaén, em cujo cerco participou o trovador galego Afonso Anes do Coton no século XIII, mais exactamente no ano de 1246.

»»»»» [Nota iconográfica: a imagem reproduz o retrato de Don Francisco de los Cobos y Molina em todo o seu poder e plenitude, obra de Jan Gossaert, conhecido por Mabuse, datada de 1530-1532.]

António Sá

[02.07.2013/10.07.2013] / [texto revisto e corrigido a 06.09.2013]

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s