Monthly Archives: August 2015

notas & noções.17

notas & noções.17                                                                                    

»»»»» A imaginação do Paraíso enquanto uma ideia do universo. Ou a ideia para um universo — aquele universo de facto criado em função da humanidade, que não coincide obviamente com o universo que existe de facto.

»»»»» Em notas & noções.16, explicando o sentido não-subjectivo que atribuía aos termos “cruel” e “crueldade”, escrevi: “Tanto o universo quanto a humanidade, ou seja todo o existente avança sem consideração por, ou melhor, inconsideradamente”; e assinalei “a ausência de unidade de sentido, a entredescoesão ou a des-solidariedade do criado”. Em clave poética, descreveria o planeta onde estamos como o lugar onde existe a amável brandura, “Tão brandamente os ventos os levavam / como quem o Céu tinha por amigo; / sereno o ar e os tempos se mostravam, / sem nuvens, sem receio de perigo.”, assim descreve Camões a passagem da armada portuguesa pelos mares da costa de Etiópia; e como o lugar onde existe um furioso desencadear, “Eis manso e manso as nuvens se entumecem, / eis o líquido peso / rompe os enormes, carregados bojos, / em torrentes sussurra e cai na terra. / Rebentam furacões, flamejam raios, / o estrondoso trovão no céu rebrama (…)”, assim descreve Bocage o mar no Helesponto. Ou seja, o planeta e, por extensão, o universo, o todo enfim existe enquanto descontinuidade, tanto acolhedor quanto aniquilante. De aí a percepção de avançar (o universo) inconsideradamente, de se caracterizar pela não-unidade-de-sentido, a entredescoesão, a des-solidariedade. Obviamente o pensamento mágico, que sempre acompanhou a emergência da espécie humana, é um fundamento da própria existência, sob risco de soçobrar (a espécie) em depressão, entropia e colapso. A pulsão religiosa formatou o Paraíso, esse lugar imaginário, tão útil de imaginar porquanto vem a ser o lugar onde toda a descontinuidade, ou seja, a alternância entre o amável e o agreste, o construtivo e o destrutivo, foi rasurada. Nesse lugar de Paraíso há uma continuidade entre os seres e as coisas, tudo concorre para o bem-estar dos seres, assim o viu o visionário Hieronymus Bosch (c. 1450 – 9 de Agosto de1516), quando executou essa obra hoje vista tão atentamente, minudentemente, conhecida pelo título de O jardim das delícias, tríptico de que apresento o painel da esquerda, correspondente ao Paraíso celestial. Nas muitas figurações pictóricas do Paraíso, no longo decurso da arte cristã, grandes felinos convivem com herbívoros: as carnificinas foram abolidas de tal feliz universo.

Nota de referências literárias:

»»»»» Os versos de Camões foram retirados do Canto I de Os Lusíadas; os de Bocage do longo poema elegíaco A morte de Leandro e Hero.

António Sá

[27.08.2015]

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notas & noções.16

notas & noções.16                                                                                    

»»»»» Introduzi no texto de notas & noções.15 (*), já em fase de revisão, ou seja, a posteriori, os termos “crueldade” (“crescendo em crueldade”) e “cruel” (“indiferente e cruel”); depois pensei em rasurá-los; depois pensei em deixá-los estar. Uso ambos os termos com a pretensão de os despojar de cargas subjectivas. Porque considerar que o cosmos, de que o nosso planeta é um ínfimo incidente, evoluciona indiferente aos seres que nele procriam e proliferam, não me era suficiente. O adjectivo crudelis, “cruel” em latim, é antónimo de pius, “pio, piedoso”. É no contexto desta antonímia que me leio ao escrever “cruel”, ou seja: “desprovido de piedade ou de consideração por”. Tanto o universo quanto a humanidade, ou seja todo o existente avança sem consideração por, ou melhor, inconsideradamente, embora participando da mesma existência, de uma mesma totalidade existente. Assim, “cruel” e “crueldade” densificam a noção de indiferença, acrescentam-lhe a ausência de unidade de sentido, a entredescoesão ou a des-solidariedade do criado: assim escrevo as palavras pretendendo que as leiam despojadas de dramaticidade ou subjectividade.

Nota:

»»»»» (*) O texto das notas & noções.15 foi este:

»»»»» Caminhar sem-objectivo, ressalvando a precaução de não nos perdermos no vasto território por onde caminhemos, o que seria um factor de ansiedade destrutiva dos benefícios do exercício, vem a ser uma cauta, modesta metáfora do caminhar universal, também ele sem-objectivo. Como defini nas notas & noções.13, o cosmos, tal como a humanidade, expandem-se tão-só, a humanidade crescendo em crueldade e encontrando sempre novas técnicas de se expandir agressivamente; cosmos e humanidade obedecendo até-ver a tal movimento expansivo, indiferente e cruel, determinado a partir de um princípio evolutivo a que o big-bang deu origem. Ganha actualmente a teoria de que o cosmos se expandirá indefinidamente, ao invés de se contrair.

»»»»» Assim, caminhar, deambular, tal como toda a actividade sem-objectivo, vem a ser um modo de estar com o movimento cósmico.

António Sá

[25.08.2015]

notas & noções.15

notas & noções.15                                                                                    

»»»»» Caminhar sem-objectivo, ressalvando a precaução de não nos perdermos no vasto território por onde caminhemos, o que seria um factor de ansiedade destrutiva dos benefícios do exercício, vem a ser uma cauta, modesta metáfora do caminhar universal, também ele sem-objectivo. Como defini nas notas & noções.13, o cosmos, tal como a humanidade, expandem-se tão-só, a humanidade crescendo em crueldade e encontrando sempre novas técnicas de se expandir agressivamente; cosmos e humanidade obedecendo até-ver a tal movimento expansivo, indiferente e cruel, determinado a partir de um princípio evolutivo a que o big-bang deu origem. Ganha actualmente a teoria de que o cosmos se expandirá indefinidamente, ao invés de se contrair.

»»»»» Assim, caminhar, deambular, tal como toda a actividade sem-objectivo, vem a ser um modo de estar com o movimento cósmico.

António Sá

[21.08.2015]

Desatino 53

Desatino / 53 [Ao volante, portugueses!]   

 

»»»»» Uma entertainer, profissional televisiva, falando num canal espanhol sobre uma figura pública cujo comportamento lhe parece desvairado, à beira de um ataque de nervos, estabelece este paralelo: tal personagem conduz-se “como um portugués a conducir”.  Como traduzir isto? Não vejo outro modo senão considerar que a comparação, aliás recorrente em Espanha, corresponde a dizer que, ao volante, o português conduz “como uma galinha atarantada”, ou “como uma barata tonta”.

António Sá

[14.08.2015]

notas & noções.14

notas & noções.14                                                                                    

»»»»» Caminhar só por caminhar, sem destino definido, enquanto modo de pensar. Ao andar sem objectivo não nos preocupa o percurso, nem o destino nos apressa. Para isso convém que conheçamos os lugares, que devem ser vastos, por onde andamos, e nos sintamos seguros neles; convém não os estarmos descobrindo, nem estarmos arriscando perder-nos. Ressalvado este pressuposto, podemos caminhar sem destino, ou indiferentes ao destino, e deixar que os pensamentos se encadeiem.

»»»»» As informações que no nosso cérebro se acumulam, as interpretações a partir delas variamente formuladas, as linhas de pensamento que nos são familiares, tudo isto se encadeia e redistribui e produz formas diversas de perceber o que nos rodeia e o que somos. Assim, este deambular é talvez o modo mais gratificante de estarmos sós.

»»»»» E esta não é necessariamente uma actividade passiva nem dolente. A gestação de ideias é um acto activo. Além de que o movimento de caminhar pode acelerar-se e objectivar-se em muito activa, intencional marcha. Ao convocar a célebre Marcha sobre Washington, realizada a 28 de agosto de 1963, I have a dream, discursou ele, Martin Luther King (1929-1968) inspirava-se na leitura de Henry David Thoreau (1817-1862), apologista das caminhadas meditativas, e cujas meditações o levaram à formulação hoje mais útil do que nunca, embora quase nunca posta em prática: “desobediência civil”.

António Sá

[17.08.2015]

notas & noções.13

notas & noções.13                                                                                    

»»»»» Intuitivamente, é-me reconhecível a ausência de qualquer direccionalidade universal. A intuição dá-me assim a resposta para a pergunta formulada em “notas & noções” anterior: “O existente, todo o existente — excrescência de quê? — segue numa direcção determinada?”

»»»»» Do mesmo modo, não reconheço qualquer direccionalidade para o afã da espécie humana. Daí que “progresso” se me afigure uma figura mítica (*). Há apenas — e não é pouco — crescimento, expansão enquanto destino cego (**) para a humanidade.

Notas:

»»»»» (*) A formulação “myth of progress” pertence a John Gray, e ocorre no decurso da sua reflexão sobre a novela An Outpost of Progress (1896) de Joseph Conrad. (Cf. John Gray, The Silence of Animals, Penguin Books, 2013, p.7).

»»»»» (**)  “Humankind is, of course, not marching anywhere” [“A espécie humana, é claro, não se encaminha para algum lugar”]. (Idem, ibidem, p.7).

António Sá

[12.08.2015]

notas & noções.12

notas & noções.12                                                                                    

»»»»» O existente, todo o existente — excrescência de quê? — segue numa direcção determinada? Os átomos perseguem um objectivo último? Os vírus criam-se e difundem-se no cumprimento de um destino teleológico?

António Sá

[12.08.2015]

Desatino 52

Desatino / 52 [— Qué coño?]          

 

»»»»» Diz enfadado um chefe de família para a sua mulher, atenta aos dois filhos pequenos, toda uma família de turistas espanhóis estacionada num passeio a pouca distância do Terreiro do Paço:

»»»»» — Qué coño estamos haciendo aquí? [“— Que raio estamos a fazer aqui?”]

António Sá

[julho, 2015]

Cinco em circuito

Cinco em circuito

»»»»» O conflito surge quando um dos cinco sobreviventes de um holocausto planetário, homem de feições duras, rosto fechado, apresentando-se como Eric e narrando-se a si-mesmo enquanto solitário e herói escalando o Evereste. Este heróico-sublimando-se estabelece um clima de confronto que, de guerra-fria, conhece desenvolvimentos de violência física, consumada no assassínio de Charles, o único negro do grupo, pelo qual duro-Eric manifestara a mais aberta e agressiva intolerância, produzira o mais odiento discurso. Mesmo no seio de um grupo no limite da sobrevivência, sobrevivendo de recursos precários, a presença de um negro era motivo de rejeição e aniquilamento, nos Estados Unidos da América, início dos anos cinquenta do século devoluto aqui ficcionalmente representado. Seja assim evidente esta injunção e parábola anti-racista num filme de ficção científica. O filme é Five (Arch Oboler, 1951), e o título indicia o número de sobreviventes, sendo de observar que, no entrecho, ocorre uma substituição de viventes: morre o banqueiro idoso, Mr. Barnstaple, que sobrevivera por estar encerrado num cofre do Banco, e que perdera o juízo, ao sair do cofre e presenciar tanta mortandade, continuando a falar dos negócios bancários, como se o mundo dos negócios humanos não se tivesse elidido em absoluto. Neste universo de colapsos bancários que tem sido o actual nestas primeiras décadas do século XXI, é-se, por extrapolação, tentado a ver neste personagem o infinito demencial do universo das instituições bancárias e bolsistas, a desrealidade ou realidade transversa dos seus agentes. Quanto à disposição anti-racista da intriga, ela é da mais óbvia intencionalidade, entendendo-se que o homem-sublime, super-homem que escala sozinho o Evereste, no que me evoca o montanhismo sublime da fatídica Leni Riefensthal, pois este intolerante e morcão (morcão no sentido em que não coopera nas tarefas do grupo e até as sabota) é o rosto da exclusão odienta com que trata o negro, típico negro obeso e de espírito dócil. Este libelo anti-racista é assim anterior de mais de dez anos ao assassinato de Martin Luther King, crime-de-ódio de teor rácico.

»»»»» O filme participa de uma mensagem pacifista e de uma inspiração bíblica, tendência apocalíptica, e um seu tom pioneiro, sem embargo ingénuo, decorre de tal excedente de seriedade bíblica. Pacifista é o louro protagonista masculino, Michael, que realiza um confronto-de-machos com o desabrido, implacável Eric, mas lhe propõe um pacto-de-cooperação. Neste confronto entre Michael, o “ordinary man”, como se define, o bom-homem, e Eric, o impositivo, o brutal, leia-se o confronto Estados Unidos versus União Soviética no desenhar da Guerra Fria, que podia ter degenerado numa catástrofe nuclear, tal como este filme a descreve, em continuum de sobreposições, no seu prólogo. Bíblico é o epílogo quando, dos cinco sobreviventes, já só sobrevivem dois: o bom-homem e a boa-mulher, que reiniciam o mundo agricolamente cavando a terra com uma pá, Adão e Eva expulsos-pós-apocalípticos.

»»»»» Estas mensagens de carácter político e moral são facilmente lisíveis, mas o que torna Five um filme-de-culto situa-se no campo das imagens, a preto-e-branco, de todo únicas. Não pretendendo descrevê-las, o que seria fastidioso, limito-me a uma sugestão geral. Fora as imagens plausíveis, em sequências finais, onde o espaço é a grande cidade, não ainda em ruína mas sim abandono, sob o angustiante grito de sirenes ininterruptas; fora estas imagens, o filme constrói as de estradas secundárias, baías e praias solitárias e, sobretudo, montes e rochedos, vales, canyons, enfim paisagens áridas sob uma neblina de poeiras onde o sol parece não entrar e, sobretudo, sobretudo, no alto de uma elevação, as estruturas de cimento, sobrepostas, da casa desenhada por Frank Lloyd Wright, de cuja base se despenha uma cascata. Também não pretendo descrever a casa — funcional, sucinta, elemental, aberta: aberta para um céu fosco, num terraço com estrados de madeira, lugar onde se passam largos momentos de entendimento e desentendimento entre os personagens.

»»»»» Este filme a preto-e-branco e sem efeitos especiais considera-se o filme inicial de uma vasta e sempre crescente vaga de filmes-catástrofe pós-nuclear, mas é mais de facto opressiva a sua atmosfera do que em recentes filmes pós-nucleares, que se afogam em ruído, efeitos especiais, imagens avassaladoras digitalmente produzidas, cenários pirotécnicos úteis para criar jogos digitais adolescentes.

António Sá

[04.06.2015]

notas & noções.11

notas & noções.11                                                                                    

»»»»» A instância da vida, todo o tipo de fenómeno vital, enquanto excesso [05.03.2015]. Axioma eventual: tudo o que existe é um excedente — um excesso [08.08.2015].

António Sá