Cinco em circuito

Cinco em circuito

»»»»» O conflito surge quando um dos cinco sobreviventes de um holocausto planetário, homem de feições duras, rosto fechado, apresentando-se como Eric e narrando-se a si-mesmo enquanto solitário e herói escalando o Evereste. Este heróico-sublimando-se estabelece um clima de confronto que, de guerra-fria, conhece desenvolvimentos de violência física, consumada no assassínio de Charles, o único negro do grupo, pelo qual duro-Eric manifestara a mais aberta e agressiva intolerância, produzira o mais odiento discurso. Mesmo no seio de um grupo no limite da sobrevivência, sobrevivendo de recursos precários, a presença de um negro era motivo de rejeição e aniquilamento, nos Estados Unidos da América, início dos anos cinquenta do século devoluto aqui ficcionalmente representado. Seja assim evidente esta injunção e parábola anti-racista num filme de ficção científica. O filme é Five (Arch Oboler, 1951), e o título indicia o número de sobreviventes, sendo de observar que, no entrecho, ocorre uma substituição de viventes: morre o banqueiro idoso, Mr. Barnstaple, que sobrevivera por estar encerrado num cofre do Banco, e que perdera o juízo, ao sair do cofre e presenciar tanta mortandade, continuando a falar dos negócios bancários, como se o mundo dos negócios humanos não se tivesse elidido em absoluto. Neste universo de colapsos bancários que tem sido o actual nestas primeiras décadas do século XXI, é-se, por extrapolação, tentado a ver neste personagem o infinito demencial do universo das instituições bancárias e bolsistas, a desrealidade ou realidade transversa dos seus agentes. Quanto à disposição anti-racista da intriga, ela é da mais óbvia intencionalidade, entendendo-se que o homem-sublime, super-homem que escala sozinho o Evereste, no que me evoca o montanhismo sublime da fatídica Leni Riefensthal, pois este intolerante e morcão (morcão no sentido em que não coopera nas tarefas do grupo e até as sabota) é o rosto da exclusão odienta com que trata o negro, típico negro obeso e de espírito dócil. Este libelo anti-racista é assim anterior de mais de dez anos ao assassinato de Martin Luther King, crime-de-ódio de teor rácico.

»»»»» O filme participa de uma mensagem pacifista e de uma inspiração bíblica, tendência apocalíptica, e um seu tom pioneiro, sem embargo ingénuo, decorre de tal excedente de seriedade bíblica. Pacifista é o louro protagonista masculino, Michael, que realiza um confronto-de-machos com o desabrido, implacável Eric, mas lhe propõe um pacto-de-cooperação. Neste confronto entre Michael, o “ordinary man”, como se define, o bom-homem, e Eric, o impositivo, o brutal, leia-se o confronto Estados Unidos versus União Soviética no desenhar da Guerra Fria, que podia ter degenerado numa catástrofe nuclear, tal como este filme a descreve, em continuum de sobreposições, no seu prólogo. Bíblico é o epílogo quando, dos cinco sobreviventes, já só sobrevivem dois: o bom-homem e a boa-mulher, que reiniciam o mundo agricolamente cavando a terra com uma pá, Adão e Eva expulsos-pós-apocalípticos.

»»»»» Estas mensagens de carácter político e moral são facilmente lisíveis, mas o que torna Five um filme-de-culto situa-se no campo das imagens, a preto-e-branco, de todo únicas. Não pretendendo descrevê-las, o que seria fastidioso, limito-me a uma sugestão geral. Fora as imagens plausíveis, em sequências finais, onde o espaço é a grande cidade, não ainda em ruína mas sim abandono, sob o angustiante grito de sirenes ininterruptas; fora estas imagens, o filme constrói as de estradas secundárias, baías e praias solitárias e, sobretudo, montes e rochedos, vales, canyons, enfim paisagens áridas sob uma neblina de poeiras onde o sol parece não entrar e, sobretudo, sobretudo, no alto de uma elevação, as estruturas de cimento, sobrepostas, da casa desenhada por Frank Lloyd Wright, de cuja base se despenha uma cascata. Também não pretendo descrever a casa — funcional, sucinta, elemental, aberta: aberta para um céu fosco, num terraço com estrados de madeira, lugar onde se passam largos momentos de entendimento e desentendimento entre os personagens.

»»»»» Este filme a preto-e-branco e sem efeitos especiais considera-se o filme inicial de uma vasta e sempre crescente vaga de filmes-catástrofe pós-nuclear, mas é mais de facto opressiva a sua atmosfera do que em recentes filmes pós-nucleares, que se afogam em ruído, efeitos especiais, imagens avassaladoras digitalmente produzidas, cenários pirotécnicos úteis para criar jogos digitais adolescentes.

António Sá

[04.06.2015]

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