notas & noções.17

notas & noções.17                                                                                    

»»»»» A imaginação do Paraíso enquanto uma ideia do universo. Ou a ideia para um universo — aquele universo de facto criado em função da humanidade, que não coincide obviamente com o universo que existe de facto.

»»»»» Em notas & noções.16, explicando o sentido não-subjectivo que atribuía aos termos “cruel” e “crueldade”, escrevi: “Tanto o universo quanto a humanidade, ou seja todo o existente avança sem consideração por, ou melhor, inconsideradamente”; e assinalei “a ausência de unidade de sentido, a entredescoesão ou a des-solidariedade do criado”. Em clave poética, descreveria o planeta onde estamos como o lugar onde existe a amável brandura, “Tão brandamente os ventos os levavam / como quem o Céu tinha por amigo; / sereno o ar e os tempos se mostravam, / sem nuvens, sem receio de perigo.”, assim descreve Camões a passagem da armada portuguesa pelos mares da costa de Etiópia; e como o lugar onde existe um furioso desencadear, “Eis manso e manso as nuvens se entumecem, / eis o líquido peso / rompe os enormes, carregados bojos, / em torrentes sussurra e cai na terra. / Rebentam furacões, flamejam raios, / o estrondoso trovão no céu rebrama (…)”, assim descreve Bocage o mar no Helesponto. Ou seja, o planeta e, por extensão, o universo, o todo enfim existe enquanto descontinuidade, tanto acolhedor quanto aniquilante. De aí a percepção de avançar (o universo) inconsideradamente, de se caracterizar pela não-unidade-de-sentido, a entredescoesão, a des-solidariedade. Obviamente o pensamento mágico, que sempre acompanhou a emergência da espécie humana, é um fundamento da própria existência, sob risco de soçobrar (a espécie) em depressão, entropia e colapso. A pulsão religiosa formatou o Paraíso, esse lugar imaginário, tão útil de imaginar porquanto vem a ser o lugar onde toda a descontinuidade, ou seja, a alternância entre o amável e o agreste, o construtivo e o destrutivo, foi rasurada. Nesse lugar de Paraíso há uma continuidade entre os seres e as coisas, tudo concorre para o bem-estar dos seres, assim o viu o visionário Hieronymus Bosch (c. 1450 – 9 de Agosto de1516), quando executou essa obra hoje vista tão atentamente, minudentemente, conhecida pelo título de O jardim das delícias, tríptico de que apresento o painel da esquerda, correspondente ao Paraíso celestial. Nas muitas figurações pictóricas do Paraíso, no longo decurso da arte cristã, grandes felinos convivem com herbívoros: as carnificinas foram abolidas de tal feliz universo.

Nota de referências literárias:

»»»»» Os versos de Camões foram retirados do Canto I de Os Lusíadas; os de Bocage do longo poema elegíaco A morte de Leandro e Hero.

António Sá

[27.08.2015]

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