Monthly Archives: October 2015

Desatino 59

Desatino / 59 [Ironia arrepiante? / 3]        

»»»»» Registei ironias arrepiantes da ex-ministra conservadora Manuela Ferreira Leite. Ironias ditas com o seu rosto pré-pós-fechado, mas ironias quand-même. Estão registadas, as ditas ironias arrepiantes, nos Desatinos 56 e 57. Neste novo Desatino, quinquagésimo-nono, registo uma mais que duvidosa ironia arrepiante, por isso lhe posponho um ponto de interrogação. A ser ironia, seria genialmente anti-autoritária; não sendo ironia, é apenas um statement autoritário. Disse a senhora, na sua conversa-entrevista num canal televisivo português, quinta-feira, quinze de outubro, que o Partido Socialista estava realizando um “golpe de estado” ao negociar, antes da formação de um governo e no contexto de gerais negociações para a eventual formação de um governo: estaria enfim este Partido de esquerda socialista realizando um “golpe de estado” ao negociar com o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, partidos ambos de esquerda à esquerda do Partido Socialista. A não ser ironia genialmente arrepiante, será a evidente manifestação de um fundo-profundo desiderato — a de que os partidos que constituem a coligação da “sua” direita liberal realizem um “golpe de estado” mágico, até com enlevo do Partido Socialista, de modo a instituírem-se enquanto maioria autoritária. É o evidente desiderato que se revela a contrario: é próprio do bicho humano apontar os outros por aquilo que ele-mesmo é ou quer. Mas, congeminando-o, a ex-ministra-hoje-golpista entressonharia qualquer coisa assim ao modo “português suave”, tanto que ninguém, nem mesmo o mais radical opinador de esquerda se lembrasse de contra-utilizar a expressão “golpe de estado”.

António Sá

[22.10.2015]

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Desatino 58

Desatino / 58 [A realidade também é boa]            

»»»»» Uma mulherzinha, ao menos fisicamente –zinha, explica amargamente ao paciente empregado de um café a situação periclitante, quanto a ela, de sua filha adolescente: a menina, inda nem com os dezoito feitos, deixou-se seduzir-levar por um adulto-maduro com um bruto descapotável e — diz a mãe — uma não menos bruta careca. Um homem duplamente descapotado, mas com aparente prestígio bancário, até ver, sabe-se lá como e por onde. E conclui derrotada:

»»»»» — Não consigo fazer nada com ela, por mais que lhe diga, não consigo convencê-la de que esse não é o caminho… Agora é tudo bom, tudo bonito, mas um dia ela vai cair na realidade.

»»»»» — Ah… — conforta-a o bom empregado. — A realidade também é boa.

António Sá

[11.10.2015]

Desatino 57

Desatino / 57 [Ironia arrepiante / 2]          

»»»»» Esta ironia é de Manuela Ferreira Leite, ex-ministra de um governo social-democrata, mais exactamente o Partido Social Democrata [PSD].

»»»»» A outras ironias desta senhora dediquei o anterior Desatino, quinquagésimo-sexto. Mas algum ano antes, já neste século XXI, foi produzida uma ironia arrepiante que provocou grande indignação e arrepios entre os comentadores no espaço virtual, essa classe de infelizes-felizes que disparam primeiro e pensam depois. Tais não entenderam a ironia arrepiante, que consistiu em declarar, dadas as indecisões e tendenciais recuos e recursos populistas por parte dos decisores políticos: face a tal impasse governamental, a ironia consistiu em declarar que, suspendendo-se a democracia por seis meses, os decisores poderiam então decidir autoritariamente e assim ultrapassar o impasse. Queria ela significar que a democracia exige processos negociais, eventualmente morosos, para resolver situações que um regime autoritário resolve expeditamente, ainda que em detrimento da dignidade e da vida de alguma parte da humanidade, quando não de toda a humanidade. Exemplo flagrante e holocáustico desta suspensão da democracia foi o regime hitleriano que, em seis anos de poder autoritário (1933-1939), criou a mais destrutiva das máquinas-de-guerra, que pôs o mundo a-ferro-e-fogo, nessa Segunda Grande Guerra, quando se aproximavam os meados do infausto século XX.

António Sá

[10.10.2015]

Desatino 56

Desatino / 56 [Ironia arrepiante / 1]          

»»»»» A ironia ou ironias são de Manuela Ferreira Leite, ex-ministra de um governo social-democrata, mais exactamente o Partido Social Democrata [PSD].

»»»»» Entrevistada, a cinco de outubro de 2015, por um humorista ao serviço de um canal televisivo [TVi], e dada a conjuntura favorável a que os socialistas, de um dito Partido Socialista, formem governo integrando personalidades de outras forças políticas, foi-lhe perguntado se aceitava um cargo ministerial a convite deste Partido. E aí vem a primeira ironia: muito assertivamente, a senhora declarou que, se fosse para trabalhar pouco e ganhar muito, aceitaria o cargo, porque já sabia o que era trabalhar muito e ganhar pouco.

»»»»» Para o fim da mesma entrevista, questionada sobre se achava bem que alguns feriados houvessem sido suprimidos pelo actual governo liderado pelo PSD, caso do feriado de cinco de outubro, data da implantação da Primeira República no ano de 1910, a senhora ex-ministra, de modo algo impetuoso e muito sério — rosto longo, o seu, quase-sempre sério, quase-fechado — discursou que era uma medida estrutural (tom de voz sublinhado) de extrema importância para o país a supressão de um ou dois feriados, e até seria mais estrutural se fossem suprimidos todos os feriados: a Páscoa, o 25 de Abril, o Natal e o Dia de Ano Novo!

»»»»» São ambas estas ironias arrepiantes, da parte de uma baronesa do PSD, ironias-farpas contra incongruências legislativas quer do PS quer da inda-actual governação, e com as quais ela significa: seria uma medida estruturante que os cargos de maior responsabilidade política fossem melhor pagos; não vem a ser uma medida estrutural a supressão de um ou de outro feriado.

António Sá

[08.10.2015]

Desatino 55

Desatino / 55 [Como votar]

»»»»» Dada a crise, é urgente tratar bem os clientes-que-não-pagam. Movido por esta reflexão, apresentei um exemplo de como proceder nos casos atinentes. Pode-se constatar-confrontar este bom exemplo no meu anterior desatino, o quinquagésimo-quarto.

»»»»» Avançando nesta linha de reflexões, concluo não ter respostas, qualquer mínima resposta, para a crise. Não sei como resolvê-la. Percebo que toda a gente sabe, menos eu. O próximo acto eleitoral vai resolvê-la. Basta votar nos lugares certos.

»»»»» No filme As mil e uma noites: volume 1, o inquieto (Miguel Gomes, 2015), uma senhora muito faladoramente explica às amigas como vota: põe uma cruzinha em todas as casas: “assim ninguém se fica a rir”.

»»»»» Nota explicativa para quem não se dá bem com quaisquer anarco-humorismos: eu não vou nessa, ponho o meu voto numa casinha só, vou ver qual… se existir…

António Sá

[29.09.2015]