Monthly Archives: November 2015

Desatino 60

Desatino / 60 [Estratégias felizes]  

 

»»»»» Há insectos que, sentindo-se muito ameaçados, desistem da fuga, fingem-se mortos. Estratégia inteligente para um insecto, ao nível do mais elevado quociente.

»»»»» Nas lutas ferozes entre mamíferos machos, o mais fraco ou mais entrado em aniversários abandona o terreno de luta, cede a vitória ao macho mais poderoso ou mais novo. Estratégia inteligente, que aos idosos lhes assegura a sobrevivência na velhice, ainda que sem pensão-de-reforma.

»»»»» Estas são estratégias felizes, há outras pode-ser que mais sofisticadas, mas não-menos felizes. É a estratégia de um jogador de futebol de um clube de topo, não digo qual clube para não ofender susceptibilidades. Esse jogador, comentado por um comentador, pleonasmo este inspirado nos milhares de pleonasmos diários em conversas televisivas; tal comentador, jovem aliás ponderado e sensato; tal comentador comentou que o tal jogador seria um profissional sem grandes recursos em-campo, sobrevivendo embora num grande clube. Tal jogador seria tendencialmente passivo, “espera o contacto físico do adversário”, nas palavras do comentador. Ou seja, ele não disputa a posse da bola, espera que o adversário o abalroe ou empurre. Estratégia inteligente porque, ao ser abalroado, diz o comentador:

»»»»» — Ele cai, e depois fica à espera que aconteça alguma coisa.

 

»»»»» Nota explicativa para o leigo em futebol: aquilo de que jogador visado fica à espera, é que o árbitro, ao vê-lo cair, assinale falta ao adversário.

»»»»» Nota informativa: o comentário em causa foi produzido na SIC notícias, durante o noticiário das doze horas do dia 22 de novembro de 2015.

 

António Sá

[22.11.2015]

notas & noções.20

notas & noções.20                                                                                    

 

»»»»» Sou fã, por razões que a minha razão desconhece, de Madonna, de Rihanna, de Lady Gaga, entre outras e outros, como Sam Smith, por exemplo, e não porque ele seja gay, mas porque aquele domínio-potência vocal me remove de mim (Writings on the wall).

»»»»» Sou fã, por razões que a minha razão conhece, de Lana del Rey. Como, muito antes de a ouvir, era fã de Marlene Dietrich, de Peggy Lee, de Chavela Vargas, de Françoise Hardy, de Jane Birkin, de Marianne Faithfull. Nunca me canso de ouvir o grão de voz enrouquecido-esgaçado de Chavela Vargas e de Marianne Faithfull. Assim como não me canso da luminosa limpidez vocal de Peggy Lee.

»»»»» Ser da ocidentalidade passa por estes fanatismos. E não refiro sequer grupos musicais de que sou fã, fanatismos não absolutos, antes tranquilos; não refiro grupos musicais — um leque muito ecléctico, que inclui tanto grupos como cantores, alguns deles gay ou relativos. Por muito que me pareça errado o que fez, antes de Obama, a administração estadunidense no Médio Oriente, ser ocidental passa por estes irracionais-racionais gostos da música popular-urbana, mesmo a mais banal, sem culpas nem complexos de aproximações ao kitsch (Lady Gaga).

»»»»» Mas, observação última, listei artistas que não fazem parte do universo da canção anglo-saxónica: Chavela Vargas (mexicana), Françoise Hardy (francesa), Jane Birkin (anglo-francesa). Também observo que, se Marlene Dietrich é um ícone insubstituível do star-system hollywoodiano, os seus começos, com Joseph von Sternberg, foram na Alemanha pré-nazi, e que parte do seu clássico repertório é cantado na densa língua alemã.

 

António Sá

[17.11.2015/21.11.2015]

 

notas & noções.19

notas & noções.19                                                                                    

 

Paulo Ribeiro, A festa 001

»»»»» Na vida-dos-dias, os movimentos disfóricos assombram-nos e aterrorizam, e entretanto na criação artística há lugar para a euforia e a sensualidade. O efémero efeito ou essência efémera da euforia, no bailado A festa (da insignificância) (Paulo Ribeiro, 2015), pode ser metáfora do efémero-dos-dias.

»»»»» O efémero da vida-dos-dias foi espectacularmente e horrivelmente testemunhado nos atentados em Paris, na noite de treze de novembro deste ano de dois-mil-e-quinze. Foi uma efeméride no sentido de acontecimentos que fazem história nos dias; e no sentido de efemeridade, assinalando quão passageiros são o momento e as vidas-humanas-no-momento. Efeméride imaginada e executada por seres disfóricos, em guerra com outros seres da sua espécie, guerra contra si-mesmos. Utilizei a palavra imaginada para a dita efeméride, e foi com um arrepio que a utilizei. Com um arrepio devo conceber e conceder que haja seres humanos a imaginar e a planear situações destas. Há evidências que se me impõem sempre com surpresa.

 

»»»»» Nota explicativa:

»»»»» Na noite do dia treze acompanhei, por três ou mais horas, e na tarde do dia seguinte outras mais, as imagens e as informações televisivas sobre os atentados terroristas em Paris; na noite do dia catorze assisti à apresentação da referida coreografia de Paulo Ribeiro, celebração da vitalidade e da alegria, nos antípodas do ódio e da intolerância, mas, concomitante ao cenário, à construção musical e à evolução dos corpos em situação-de-dança, toldava-me a memória-recente esse muito outro movimento-para-o-horror.

 

António Sá

[16.11.2015]

notas & noções.18

notas & noções.18                                                                                    

»»»»» Acompanho, na noite de sexta-feira, dia treze de novembro de dois-mil-e-quinze, por três horas, depois mais algum tempo, na cama, as notícias do nosso tempo a-ferro-e-fogo.

»»»»» Atentados terroristas em Paris: no Stade de France, na sala do Bataclan, em esplanadas-de-rua, restaurantes: terrorismo apocalíptico; ódio infinito, homicida, suicidário.

»»»»» Parte congénita da mente humana — o seu condicionamento pela violência, pelo suicídio, pelo homicídio, pelo massacre de outrem da mesma espécie.

»»»»» E cumpridos foram já dois milénios de civilização crística, contando o tempo pelo nascimento de Cristo.

»»»»» Aqui-agora não é nenhum Paraíso o que existe, e nenhum qualquer Paraíso vai acontecer, em nenhum lugar ou tempo.

António Sá

[15.11.2015]

São Martinho corta a sua capa

São Martinho corta a sua capa

»»»»» Nota prévia: para a linearidade da leitura, convém ler primeiro o texto São Martinho não traz dinheiro, editado há um ano e aqui inserto em adenda.

»»»»» Depois de informar o pobre pedinte que não traz dinheiro e perguntar aos dois pajens se eles trazem algo que dar, recebendo destes resposta negativa, “No ciertamente”, passos estes que foram anotados no texto São Martinho não traz dinheiro, que se insere em adenda, este cavaleiro, Martinho, que boamente se passeia a cavalo com seus dois pajens, este Martinho que virá a ser santo, mas entretanto é apenas cavaleiro, exprime a sua compaixão pelo pobre, que se queixa de sentir todas as dores, nem mais nem menos: “No hay dolor que en mí no lo sienta” (“Não há dor que em mim não a sinta”). Martinho exprime a sua compaixão nestes dois versos:

Quién ahora tuviesse d’aquessa passión

la parte que tienes que más t’atormenta!

»»»»» Explicando estes versos traduzidamente, Martinho exprime o voto-lamento, bem retórico, de que alguém suportasse, do sofrimento do pobre, a parte de sofrimento que mais o atormenta: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”

»»»»» Enfim, na última fala deste brevíssimo Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504), última fala composta por oito versos, o futuro-santo toma a decisão, por defeito de qualquer outro recurso, de cortar com a espada de cavaleiro a sua capa ao meio: “Partamos aquesta mi capa por medio; / pues otra limosna no traigo aquí” (“Cortemos esta minha capa ao meio; / pois outra esmola não trago aqui”).

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos no presente texto são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

António Sá

[09.11.2015]

Adenda

São Martinho não traz dinheiro

»»»»» Entenda-se desolada, e logo resolvida em modo de embaraço fidalgo, a atitude e gesticulação de São Martinho, no início da conversa com o pobre pedinte, momento em que o santo-a-haver se descobre sem dinheiro para uma esmola. Pode-se perguntar: por que não traz dinheiro? Ele questiona os três pajens sobre o que eles disponham entre eles. Diz um verso para o pobre e o seguinte para os pajens:

Hermano, ahora no traigo dinero:

vosotros traéis que demos por Dios?

»»»»» Os pajens respondem No ciertamente. Estariam no decurso de um passeio a cavalo. Face a tal evidência, Martinho insiste contrafeito: Entrambos a dos / no traéis que demos a este romero? E não obtém resposta, que seria a mesma. Desnecessário andar com dinheiro numa incursão campestre a cavalo.

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos no presente texto são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

António Sá

[12.11.2014]