São Martinho corta a sua capa

São Martinho corta a sua capa

»»»»» Nota prévia: para a linearidade da leitura, convém ler primeiro o texto São Martinho não traz dinheiro, editado há um ano e aqui inserto em adenda.

»»»»» Depois de informar o pobre pedinte que não traz dinheiro e perguntar aos dois pajens se eles trazem algo que dar, recebendo destes resposta negativa, “No ciertamente”, passos estes que foram anotados no texto São Martinho não traz dinheiro, que se insere em adenda, este cavaleiro, Martinho, que boamente se passeia a cavalo com seus dois pajens, este Martinho que virá a ser santo, mas entretanto é apenas cavaleiro, exprime a sua compaixão pelo pobre, que se queixa de sentir todas as dores, nem mais nem menos: “No hay dolor que en mí no lo sienta” (“Não há dor que em mim não a sinta”). Martinho exprime a sua compaixão nestes dois versos:

Quién ahora tuviesse d’aquessa passión

la parte que tienes que más t’atormenta!

»»»»» Explicando estes versos traduzidamente, Martinho exprime o voto-lamento, bem retórico, de que alguém suportasse, do sofrimento do pobre, a parte de sofrimento que mais o atormenta: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”

»»»»» Enfim, na última fala deste brevíssimo Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504), última fala composta por oito versos, o futuro-santo toma a decisão, por defeito de qualquer outro recurso, de cortar com a espada de cavaleiro a sua capa ao meio: “Partamos aquesta mi capa por medio; / pues otra limosna no traigo aquí” (“Cortemos esta minha capa ao meio; / pois outra esmola não trago aqui”).

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos no presente texto são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

António Sá

[09.11.2015]

Adenda

São Martinho não traz dinheiro

»»»»» Entenda-se desolada, e logo resolvida em modo de embaraço fidalgo, a atitude e gesticulação de São Martinho, no início da conversa com o pobre pedinte, momento em que o santo-a-haver se descobre sem dinheiro para uma esmola. Pode-se perguntar: por que não traz dinheiro? Ele questiona os três pajens sobre o que eles disponham entre eles. Diz um verso para o pobre e o seguinte para os pajens:

Hermano, ahora no traigo dinero:

vosotros traéis que demos por Dios?

»»»»» Os pajens respondem No ciertamente. Estariam no decurso de um passeio a cavalo. Face a tal evidência, Martinho insiste contrafeito: Entrambos a dos / no traéis que demos a este romero? E não obtém resposta, que seria a mesma. Desnecessário andar com dinheiro numa incursão campestre a cavalo.

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos no presente texto são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

António Sá

[12.11.2014]

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