Distracção 49

Distracção / 49 [Roubar pela saúde]

 

 

»»»»» O meu filósofo, já não o via há largos meses, ainda vive!, e sobraçava um molho de papéis sebentos, aspecto de fólios ratados como papiros, coisa recolhida de um contentor de lixo. Assim que me viu na esquina da rua, veio a correr do seu jardim-polis-wc-canino, e brandiu, ao aproximar-se ofegante, esses fólios-papiros amarelo-sebentos.

»»»»» — Olá! — disse eu, atacando em defesa in extremis.

»»»»» — Este é o manuscrito do meu novo livro! — espichou, alterado de entusiasmo. E lembrei-me que ele, na sua promissora juventude, tinha editado um livro de breves anotações, com o qual pretendia desautorizar Wittgenstein.

»»»»» — Como assim? — perguntei torpemente, em agonia-de-causa.

»»»»» — Há-de ser um best-seller!— adiantou-se ele ao futuro, ávido e ofegante. — No género de livros de autoajuda, esta minha obra está concebida para aconselhar os jovens sem-abrigo, que andam por aí pela cidade a pedir e a roubar quanto podem. Foi um vasto trabalho de pesquisa este, pesquisa e entrevistas a mais de uma centena de muito-jovens e jovens-adultos. Tudo chavalos que me falam francamente, porque sabem quem eu sou e como vivo de modo íntegro, de sol-a-sol, neste abençoado jardim! Eu sou um deles! — excedeu-se: — Eles são um de mim! — parou para pensar e corrigiu: — Bom, não sei…

»»»»» — Oiça, eu estou com pressa — disse-lhe, levando a mão à testa, como sujeito a grande pressão conjuntural.

»»»»» — Mas oiça o que lhe estou a dizer! — disse ele, autoritário. — E tenha paciência!

»»»»» Eu suspirei, o semáforo vermelho agredia-me, sem ver a hora de escapar-me à-má-fila.

»»»»» — Este manuscrito — explicou, — resume todo o meu trabalho de entrevistas e pesquisa, árdua pesquisa, e a leitura desta minha obra vai constituir um precioso auxiliar para todos os jovens actuais e futuros que, muito pobres ou mesmo sem-abrigo, esses que roubam o que podem nos centros comerciais e nos supermercados, possam enfim ter acesso ao ensinamento dos mais experientes, gerações que passam assim a sua experiência e o seu saber, quer aos que querem enveredar pela carreira da indigência, quer a esses a quem não é dada alternativa.

»»»»» — Sem dúvida — disse eu, confundido e paralisado pela excelência do discurso.

»»»»» — Pois a que vem este meu livro? — perguntou, inchado pela minha hesitação e retórico por sua natureza. — Vem a que — prosseguiu, — havendo, como há, tantos alertas contra os malefícios de muitos dos produtos alimentares vendidos por aí, e cruzando os dados científicos com os das entrevistas aos jovens que enveredaram por vidas desabrigadas e, por consequência, desobrigadas do dever de honestidade, eu dou a conhecer, em capítulos informados e sucintos, os princípios e os métodos de como roubar numa onda saudável, evitando os produtos potencialmente cancerígenos, mesmo que mais à-mão de cómoda e segura subtracção. A minha obra intitula-se Roubar pela saúde e, a título de exemplo, posso dizer-lhe que contempla os casos de: alimentos com excesso de sal, como as manteigas, os queijos curados, os amendoins e os cajus torrados, as batatas fritas, as pipocas; alimentos com excesso de açúcar, como a Coca-Cola e os refrigerantes em geral, o leite-condensado, as bolachas achocolatadas, as pipocas; carnes processadas, vulgo “enchidos”, altamente cancerígenos, assim com as embalagens de carne assada, tão à-mão de meter disfarçadamente no bolso de um blusão largo, útil tanto de inverno como de verão. Claro que estes furtos têm de ser feitos em termos de entrar e sair à-sorrelfa, sem comprar nada, sem passar por detectores, de facto nunca se encontra nada que valha a pena comprar num supermercado. Nos tristes tempos que correm, é mais fácil sacar coisas de mercearias antigas, tipo tradicional, sem seguranças nem detectores. Faço muitas advertências quanto aos cuidados a ter com estes esbirros do nosso tempo, os seguranças. Enfim, voltando ao assunto da saúde alimentar, há que ter atenção aos aditivos, aos conservantes, aos gelificantes, etc. Também aconselho a que, caso se roubem, por rapidez e ocasião, produtos cancerígenos, aí aconselho a que se troquem ou mesmo ofereçam tais produtos a quem os queira consumir. Por exemplo: trocar por coisa mais saudável com os lorpas, que de nada percebem ou não ligam à saúde; e quanto a oferecer, aconselho que se ofereçam àqueles tipos que queremos ver despachados depressa prós infernos.

»»»»» — Tudo bem pensado — não resisti a comentar.

»»»»» — Eu penso em tudo. É uma obra de mérito, garanto-lhe… e o sucesso é garantido…

»»»»» — Sem dúvida — disse eu, e o semáforo-verde-para-mim libertou-me deste impasse. Zarpei mas, olhando para trás a meio da estrada, ainda o vi à-beira do passeio, brandindo triunfalmente os papiros do seu futuro best-seller.

 

António Sá

[13.12.2015 / 15.12.2015]

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