Monthly Archives: January 2016

Desatino 62

Desatino / 62 [As pequenas merdas]          

 

»»»»» Na rua, à entrada de um restaurante, um fumador alto, esgalgado, fala, em regime argumentativo-guinchante, a um outro, tipo alfacinha de baixa estatura:

»»»»» — ‘Tás a ver? ‘Tava tudo bem, mas por uma pequena merda começou logo tudo a descambar!

 

António Sá

[28.01.2016]

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Desatino 61

Desatino / 61 [Espírito na tasca]     

 

»»»»» Comentário estridente de uma juvenil empregada de balcão numa tasca inda arcaica, sita no turístico Rossio (Lisboa), atendendo um bando de bêbedos provincianos, e em resposta à pergunta de um deles: “Isso é bom?”:

»»»»» — Aqui tudo é bom, excepto os empregados!

 

António Sá

[21.01.2016]

A dignidade última dos despojos

A dignidade última dos despojos

 

»»»»» Plano decerto ambicioso, aquele a que obedece a série de fotografias de Rui Dias Monteiro (Os despojos do dia, 2015): centrar-situar objectos, mais exactamente objectos-dejectos-já em cenários de uma natureza agreste. Dar relevância, dignidade terminal a objectos já tornados inúteis, bidões e garrafões de plástico, panos, pedaços de madeira, despojos cuja última utilidade consiste neste uso estético enquanto modelos fotográficos. Enquadrá-los em planos aproximados que recortam uma natureza procurada pelo seu abandono, a sua aridez. E estabelecer fortes contrastes cromáticos ou luminosos entre objectos e natureza-de-fundo. Em dois casos os contrastes encontram-se abolidos: as  duas fotos de panos abandonados em terreno revolto, poeirento: aí revela-se uma hegemonia cromática, sem que as formas dos objectos e do terreno percam a definição das suas circunvoluções e dobras.

Sem título (2015)

»»»»» No lugar centrado destes objectos, muitos pintores do século XVII punham nas suas telas caveiras, eventualmente acompanhadas de outros adereços sinalizando a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte: eram as vanitas, ou seja, as telas que suscitavam uma reflexão sobre a inconsequência das “vaidades” humanas. Estes despojos das fotografias de Rui Dias Monteiro podem ser vistos, entre outras hipóteses interpretativas,  enquanto sucessores ou substitutos das caveiras dessa tradição pictórica, anotando a perecibilidade das coisas e dos seres — restos destinados à dissolução, despojos que nós, humanos (e desumanos), seremos um dia, um sempre já breve dia.

 

António Sá

22.01.2016

Saco & panos

Saco & panos

»»»»» Centro rotundo da imagem fotográfica — o rotundo azul de um saco estandardizado para a recolha de lixo. O saco emerge de um contentor de plástico preto. Deixa lugar, na parte superior da imagem, a um espaço que configura a esquina de paredes corroídas de humidade, talvez o interior de uma arrecadação ou um anexo; do lado esquerdo alinha-se na vertical o que parece ser uma trave pintada de vermelho-tijolo. Pode inferir-se que o saco contenha resíduos sólidos resultantes do trabalho agrícola. Para isso remete o título geral desta série fotográfica de Rui Dias Monteiro, Sobre cada erva, em que cada fotografia se apresenta “sem título”. Sobre cada erva evoca um espaço campestre: a série forma um conjunto de evidente vocação agrícola. Captação do trabalho humildemente invisível, aqui tornado visível em imagens focadas em objectos mínimos, cujo carácter básico e útil vai sendo consignado imagem a imagem. Nada de heróico neste labor, que é mais propriamente uma labuta, a labuta de cada dia para que tudo se crie e produza. E afinal, tudo há de heróico aí, nesse trabalho tantas vezes gorado, inglório.

Rui Dias Monteiro 1 001

»»»»» O azul-marinho-intenso acrescenta a perspectiva do devir inócuo desses resíduos: uma das múltiplas funções da cor azul, cor com que mentalmente sói representar-se-nos a água, remete para a ideia de  esterilização, ou a mais simples ideia genérica de lavagem. O lixo, acondicionado no saco azul-marinho-intenso, não irá sujar, poluir os arredores da casa e terrenos agrícolas. Sugestão de controlo, de ordem a que o cotidiano das actividades, da labuta, se submete.

»»»»» No caso de outras duas fotos desta série, os panos abandonados — um azul, outro mate — entende-se que tenham uma utilização laboral, servirão para criar barreiras, orientar os cursos de água nos regueiros pelos quais se espraiam.

»»»»» Naquela que foca o pano azul-marinho-claro, umas calças-trapo desportivas, perspectiva-se uma orientação diagonal do pano, que é o centro da imagem; disruptivamente, uma perna das calças, acasos da hora, sai do alinhamento da regueira e avança para o olhar do espectador, criando um apêndice transverso relativamente à diagonal do restante pano, acamado na regueira e preso por pequenas lajes sobrepostas, para que a força da água o não transvie. Punctum desta foto, uma laje-pedra isolada no terreno, desviada do regueiro, reduzida a ocasional inutilidade. O azul destas calças-trapo, algo deslavado, azul que por ali se expande, alude ainda à liquidez da água corrente, que servirá para as regas.

Rui Dias Monteiro 2 001

»»»»» Na outra foto, já sem azul nenhum, panos compósitos e amarfanhados alinham-se também na diagonal, criando uma orientação visual forte, estendendo-se de uma margem a outra da fotografia. Entende-se que criem também uma orientação para o curso das águas, mesmo que se afigure delimitarem um escavado mais largo e cursivo do que um regueiro normalizado. O conjunto amorfo de panos, de um mate-sujo, pode sugerir, por esta relativa ausência de cor, as águas enlameadas da terra revolvida.

Rui Dias Monteiro 3 001

»»»»» Estes trapos, numa e noutra das duas fotos, relacionam-se com as tarefas de rega numa ruralidade de tipo caseiro, agricultura de auto-abastecimento. Longinquamente, pelo uso anterior que terão tido, poderão significar, tal como as calças-trapo azuis, a perda da forma humana, agora nesta sua outra vida, outra utilidade das peças de vestuário que enformaram o corpo humano. O pano caído, assim tornado objecto de fruição estética, constitui o nódulo de um ensaio de Georges Didi-Huberman, que teoriza, a partir de tal imagem, a do pano caído, a longínqua referência à forma humana operada pela percepção artística contemporãnea.

»»»»» E nesta série constata-se ainda, e mudados os tempos, os trabalhos e os bucolismos, a persistência, na vida humana, da vivência campestre e agrícola, que já o latino Virgílio (70-19 a.C.), por exemplo nas Geórgicas (29 a.C.), havia posto em verso.

»»»»» [Referências bibliográficas: para sugestões interpretativas sobre a cor azul foi utilizada a obra de Michel Pastoureau Dicionário das cores do nosso tempo (Editorial Estampa, 1993); o conceito de punctum vem de Roland Barthes, A câmara clara (Edições 70, 1981); quanto à interpretação dos panos, evoca-se o ensaio Ninfa moderna, essai sur le drapé tombé (Gallimard, 2002), de Georges Didi-Huberman.]

António Sá

25.03.2014 / 27.03.2014