Monthly Archives: February 2016

Corpos-lastro em fusão

Corpos-lastro em fusão

Lastro 1 001

 

»»»»» Dez corpos quase nus e manchados de uma mescla roxo-cinza-metálico evoluem pelo cenário ao som de ruídos: contactos eléctricos disruptivos, intermitentes, que mais tarde se combinam com sons de harpa céltica e tambor produzidos por intérpretes em palco. Uma e outra vez estes corpos reúnem-se, sobrepõem-se, formando uma colina humana sem rosto; encenam, uma outra vez, poses grupais em diferentes e coactivas figuras, encarando o público de frente. Outra e outra vez criam círculos-circuitos com os quais, em interacção, desencadeiam movimentos de tracção em sentidos que vão divergindo. Prende o olhar, neste espectáculo de dança intitulado Lastro (Né Barros, 2016) tal aproximação-afastamento de corpos; e tal episódica fusão física em que os dez performers em colina se indistinguem. Mas esta fusão física nenhum erotismo convoca, esse erotismo fusional de Seven in bed (Louise Bourgeois, 2001), escultura têxtil a que fiz referência nos textos Cabeças, corpos, cordões umbilicais (2013) e Dois na cama (2016) [https://distractos.wordpress.com/]. E se o róseo das figuras de Bourgeois remete para a verdade do desejo sexual, o roxo-cinza de Lastro aproxima os corpos da terra, anotando-lhes peso e fundamento terrestres.

 

 

Lastro 2 001

 

»»»»» “Lastro” tem o sentido unívoco de “peso”, mas com diversas utilizações, incluindo a ligada à navegação. Cenografia de Cristina Mateus, coreografia de Né Barros, a peça Lastro inclui este uso náutico: em toda a sua duração, uma larga vela, a princípio com aspecto de lua-minguante, sobrevoa os bailarinos; mais adiante, sobe, desce, oscila, agita-se, obrigando os mesmos a interagir com esse tal adereço cambiante, que sinalizaria a embarcação, um veleiro; e o corpo de baile seria o lastro, ou seja, essa “matéria pesada e de pouco ou nenhum valor comercial que, à falta de mercadorias para transporte, é colocada no fundo de uma embarcação” (Houaiss).

»»»»» Mas outros usos da palavra podem interessar para ler esta dança: lastro no sentido de matéria que dá fundamento às coisas, como quando se diz: “este conjunto de estudos científicos constitui o lastro de recentes e futuras descobertas nesta área”. Assim estes corpos que se amontoam ou afastam sejam o lastro da indagação do movimento humano, perpétua aproximação-afastamento que define o curso e o lastro (= fundamento) da vida. E há o lastro que é o “depósito em ouro que serve de garantia ao papel-moeda” (Houaiss): segundo este último sentido, os performers metalizadamente manchados, quais blocos de ferro ou de aço a servir de lastro ao veleiro, sejam o ouro que, no seu devir, os nossos olhos colhem.

»»»»» [Nota: para os significados da palavra “lastro” foi utilizado o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Círculo de Leitores, Lisboa, 2003.]

António Sá

[20.02.2016]

 

 

 

 

 

Advertisements

Desatino 65

Desatino / 65 [O esconjuro]

 

»»»»» A avó veio tomar café com a neta jovem-pós-adolescente e a tia desta. Veio tomar café com elas ao restaurante classe-média nas Avenidas Novas. No decurso das conversas, entre um e outro gole de café, a avó increpou a juvenil neta: achava-a fria, pouco dada, nem sequer lhe conhecia namorados.

»»»»» A neta insurgiu-se:

»»»»» Eu apaixono-me muito, sou até uma apaixonada, tive alguns namorados… até gostava muito do último que tive, mas vi que ele era gay

»»»»» — Ai credo! — esconjurou a avó esconjuro instantâneo.

 

António Sá

[12.02.2016]

Dois na cama

 

 

 

»»»»» Não sei o título da foto de Ricky Ribeiro, nem sei se o tem, creio que não, mas intitulo-a Dois na cama, ou deveria ser Two in bed, para retomar, alterando, o título de uma escultura têxtil de Louise Bourgeois (1911-2010): Seven in bed. Isto porque ao ver a foto de Ricky Ribeiro, personagem que desconheço, lembrei a referida escultura.

»»»»» Num texto datado de 2013 sobre alguns têxteis de Louise Bourgeois, escrevi o seguinte parágrafo, relativo à obra agora evocada:

»»»»» Outra, belíssima e de enigmática ironia peça têxtil, é uma conjunção de pequenos corpos jacentes. Não resulta fácil contá-los, porque alguns dos pescoços se ramificam para dar origem a duas cabeças. Todos estes corpos cor-de-rosa se achegam uns aos outros, como numa cópula colectiva, e são sete, embora haja mais do que sete cabeças: Seven in bed (2001).

»»»»» No acaso das mensagens digitais, detenho-me naquela fotografia, na qual dois corpos masculinos belamente constituídos se deitam sugeridamente em repouso, espera-se que merecido, o dito “merecido repouso do guerreiro”, atribuída a Ricky Ribeiro, e suponho que datada de 2015, não sei nem me dei ao trabalho. Parece-me uma foto arty, herança pop, casual urbano-íntimo contemporâneo, casual este que aparece hoje muito nos spots publicitários televisivos, sobretudo os orientados para adolescentes e jovens adultos. Foto amável, enfim, não fere como as fotos de negros desnudos captados pela câmara impenitente de Robert Mapplethorpe (1946 – 1989). É também o tipo de foto que se encontra nos escaparates-rotativos de livrarias e sex-shops gays, neste nosso querido mundo ocidental, de que não prescindimos, por muito que lhe deploremos os muito deploráveis mecanismos financeiros.

»»»»» Mas observemos a fotografia, de uma sensibilidade gay tão agradavelmente sugestiva do homoerotismo: a evidência é vermos ali um casal masculino em repouso. O facto de um, aliás o que mais definidos tem os músculos, oferecer o dorso ao outro, de contornos musculares suaves e com uma tatuagem a envolver-lhe o ombro visível, não tem de significar uma repartição passiva-activa no interior da relação, que tanto pode constituir um compromisso mútuo duradouro, quanto corresponder ao engate de uma noite. À imaginação de cada um: quem-quiser que invente enredos. O que nos leva a ver ali um enlevo homoerótico deve-se à intimidade, posse e abandono físicos, encaixe simétrico dos corpos aproximável ao encaixe harmónico entre as figuras do têxtil de Bourgeois; e ainda à barba curta, hoje um expoente do gay-look; à plenitude e atractividade dos corpos; às tatuagens: para além da já referida no menos musculado, o outro exibe intrincados desenhos envolvendo um antebraço e a zona acima do tornozelo, numa perna.

»»»»» Em todo ocaso, a fotografia despoletou-me a tal associação com o Seven in bed, essas sete figuras róseas que se deitam lado a lado, algumas delas oferecendo o dorso à figura contígua. Estas figuras todas róseas ensaiam o movimento amoroso múltiplo e, se teriam de ser sete, eu conto nove-dez cabeças ávidas, assim o frenesim osculativo as multiplica. Algumas destas figuras, todas com um volume corporal aproximado, ostentam um sexo masculino em potencial erecção. A ironia, a que fiz referência no texto datado de 2013, residirá nesta avidez sexual de cabeças grotescas que se desdobram; e na espécie de indiferenciação física dos corpos. Mas o grotesco, categoria artística que é marca estruturante dos trabalhos de Louise Bourgeois, inclui uma celebração da vida, seja uma celebração estuante ou agónica.

Bourgeois 5 001

»»»»» Quanto ao texto anterior sobre têxteis de Louise Bourgeois, pode ser lido neste mesmo sítio, editado sob o título de Cabeças, corpos, cordões umbilicais. Aliás, este texto emparelha com outro, também de 2013 e editado justapostamente: Não me abandones.

António Sá

[26.01.2016/10.02.2016]

 

 

Cabeças, corpos, cordões umbilicais

Cabeças, corpos, cordões umbilicais

»»»»» Em outras obras de Louise Bourgeois (1911-2010) supõe-se a mesma ironia que perspectivei no transverso parto em Do not abandon me (1999). Ironia crua — cruel, aceite-se — mas contendo em si uma verdade dos seres e desse modo invertendo a noção de ironia, sugerindo uma figura hipotética que fosse ironia-verdade, contrária à ironia usual que consiste numa enunciação pretendidamente falsa, oposta à verdade. Esta outra ironia consiste em usar o cor-de-rosa, cor que incorpora mistamente os valores do amor universal e da sabedoria infinita. Assim coincidiriam estes dois valores no uso de tal cor em representações-limite da imponderabilidade dos corpos. E aí se constitui a ironia: como é crível que tal seja tal, ou seja, que tais valores sejam entendidos como tais? No entanto devem permanecer tais, para a totalidade do sentido da obra. E a verdade dos seres persiste em simultâneo: tal é tal, em alguma instância. O que situa estas obras plásticas para além da típica ironia do Surrealismo, num resultado que fixo na fórmula atrás utilizada, ironia-verdade ou ironia em segundo grau, para a distinguir da ironia-ironia.Bourgeois 4 001

»»»»» Esta ironia em segundo grau surge numa outra escultura têxtil, menos
perfectível que a obra-prima Do not abandon me: refiro-me a Umbilical cord (2003), na qual a figura feminina cor-de-rosa está erecta, de braços decepados como a Vitória de Samotrácia, e uma gaze branca figura-lhe o ventre prenhe cujo interior fica assim exposto ao olhar: dentro desta bolsa-ventre vê-se o feto e a trama envolta de um cordão umbilical.

»»»»» Outra, belíssima e de enigmática ironia peça têxtil, é uma conjunção de

Bourgeois 5 001pequenos corpos jacentes. Não resulta fácil contá-los, porque alguns dos pescoços se ramificam para dar origem a duas cabeças. Todos estes corpos cor-de-rosa se achegam uns aos outros, como numa cópula colectiva, e são sete, embora haja mais do que sete cabeças: Seven in bed (2001).

»»»»» De entre as tantas representações de cabeças cortadas, em que algum mestre do barroco escultórico hispânico seiscentista se excedeu, e em que pictoricamente Lucas Cranach (1472-1553) caprichou no mais exquisito luxo visual, Louise Bourgeois teceu uma cabeça cortada têxtil cor-de-rosa e pousou-a sobre uma banqueta no interior de uma cell (cela ou gaiola), uma das suas inumeráveis cells: Cell XXIII (Portrait) (2000). Esta cabeça assombra: por estar cortada cerce e tetricamente exposta como numa exibição pública pós-executória, e porque a expressão do rosto representado resulta indescritível: uma agonia neutra, um estertor final puramente físico, fixado no momento da decapitação. E aqui a ironia estará ampliada em ser esta a representação de múltiplas representações: evoca o exibicionismo mórbido em voga no regime de terror (Danton, Robespierre) pós-revolução de 1789. Louise Bourgeois não desiste da verdade irónica de se ter ou ter deixado de se ter corpo.

António Sá

[31.01.2013]

Não me abandones

Não me abandones

»»»»» Dentro de uma vitrina rectangular de pouco mais de cinquenta centímetros de comprimento jazem a figura feminina e o recém-nascido, ambos feitos de pano recosido, costuras suturando secções dos corpos, pano revestido de um uniforme pigmento cor-de-rosa velho-acinzentado. Nesta escultura têxtil pode encontrar-se o valor invariante do entrosamento amor-sabedoria para que tal cor mista remete, entendendo, segundo valores simbólicos estáveis, o vermelho enquanto a cor da verdade e o branco a cor da sabedoria e do conhecimento que lhe é associado.Bourgeois 3 001

»»»»» Figura-se o acto físico da maternidade, momento-revelação desse amor universal e experiência-conhecimento da origem da vida. No entanto, um erro de inserção umbilical incorre no escândalo de uma inverdade anatómico-fisiológica. A mãe, deitada numa posição hirta, esforço do corpo distendido, é flagrada no momento de dar à luz o nascituro, que lhe surde de entre as pernas flectidas, já só os pés infantes não saíram do útero. As cabeças de uma e de outro apontam em sentidos opostos, e a da mãe lança-se para trás, como num espasmo. Após o primeiro impacto emotivo, e a um olhar mediato, atenta-se no cordão umbilical, descrevendo uma larga curva desde o umbigo materno até à garganta do bebé, envolvendo-a numa volta simples.

»»»»» A que se deve este erro flagrante? Uma ligação umbilical mãe-cria que excede a função biológica e se prolonga para além do nascimento: ligação, mais do que biológica, investida de uma dimensão psíquica, porventura cosmo-simbólica, no imaginário inerente ao universo de Louise Bourgeois (1911-2010).

»»»»» O título desta obra, Do not abandon me (1999), aponta na dimensão psico-ontológica. Não me abandones nesta vida, neste ambiente inóspito para sempre, que é o ambiente não-uterino. Mas, não me abandonando me sufocas — mais cruamente: me estrangulas, desde quando estou a nascer. Isto, se se entender que a urgência é a do ser que nasce. Mas o título admite a ambiguidade, abre para a ideia de que quem se ressente do abandono é a instância materna, que aprisiona, desde o seu umbigo, o ser nascente, prende-o a si visceralmente, e logo simbolicamente, tanto quanto se percepcione a obra artística como representação simbólica.

»»»»» Perante tal representação e respectivo título, o entrosamento amor-sabedoria indiciado pela uniforme tonalidade cor-de-rosa é passível de entender-se enquanto ironia tortuosa, prenhe de visceral, ontológica angústia.

António Sá

[07.01.2013/21.01.2013]

Desatino 64

Desatino / 64 [O candelabro na cabeça]    

 

»»»»» Um velho mendigo meio-invisual, seguindo o seu rafeiro pela trela, depara com um candelabro de tecto, todo em múltiplas expansões de pepitas vítreas, abandonado junto a contentores do lixo.

»»»»» — Eh pá — diz ele, manipulando a braços o emaranhado objecto tilintante,— isto é tão bonito!

»»»»» — Leva, leva isso! — diz-lhe o compincha trôpego, que o acompanha logo atrás. — Podes pendurar essa coisa à noite na cabeça, para dar luz!

 

António Sá

[05.02.2016]

Desatino 63

Desatino / 63 [Sacrifícios prandiais]           

 

»»»»» Esta minha amiga, com a qual vou jantar esporadicamente a um restaurante popular, procede a um ritual sempre-o-mesmo há vários anos, que consiste em escolher os pratos mais ricos em sabor e, quase por consequência, mais inflacionados em sal, molhos, gorduras e calorias. Ela não o ignora, por isso no próprio momento em que está a fazer o pedido ao empregado, queixa-se-me de que aquele prato é um conglomerado de produtos culinários devastador para a saúde — e para a sua legendária dieta, sempre a começar e a acabar logo. Ela lamenta-se-me antes, durante e depois da refeição, resmunga olhando o prato com raiva, protesta a cada garfada, “olha-me só esta porcaria!”, ela é assim vítima de um sacrifício prandial inenarrável. E fala-me da sua mítica dieta, sempre a começar. Eu solidarizo-me, encorajo-a: estou certo, enfim, de que a dieta seguirá dentro de momentos mas, entretanto:

»»»»» — Eu — ela informa — já engordei mais um bocadinho ultimamente.

 

António Sá

[01.02.2016]