Cabeças, corpos, cordões umbilicais

Cabeças, corpos, cordões umbilicais

»»»»» Em outras obras de Louise Bourgeois (1911-2010) supõe-se a mesma ironia que perspectivei no transverso parto em Do not abandon me (1999). Ironia crua — cruel, aceite-se — mas contendo em si uma verdade dos seres e desse modo invertendo a noção de ironia, sugerindo uma figura hipotética que fosse ironia-verdade, contrária à ironia usual que consiste numa enunciação pretendidamente falsa, oposta à verdade. Esta outra ironia consiste em usar o cor-de-rosa, cor que incorpora mistamente os valores do amor universal e da sabedoria infinita. Assim coincidiriam estes dois valores no uso de tal cor em representações-limite da imponderabilidade dos corpos. E aí se constitui a ironia: como é crível que tal seja tal, ou seja, que tais valores sejam entendidos como tais? No entanto devem permanecer tais, para a totalidade do sentido da obra. E a verdade dos seres persiste em simultâneo: tal é tal, em alguma instância. O que situa estas obras plásticas para além da típica ironia do Surrealismo, num resultado que fixo na fórmula atrás utilizada, ironia-verdade ou ironia em segundo grau, para a distinguir da ironia-ironia.Bourgeois 4 001

»»»»» Esta ironia em segundo grau surge numa outra escultura têxtil, menos
perfectível que a obra-prima Do not abandon me: refiro-me a Umbilical cord (2003), na qual a figura feminina cor-de-rosa está erecta, de braços decepados como a Vitória de Samotrácia, e uma gaze branca figura-lhe o ventre prenhe cujo interior fica assim exposto ao olhar: dentro desta bolsa-ventre vê-se o feto e a trama envolta de um cordão umbilical.

»»»»» Outra, belíssima e de enigmática ironia peça têxtil, é uma conjunção de

Bourgeois 5 001pequenos corpos jacentes. Não resulta fácil contá-los, porque alguns dos pescoços se ramificam para dar origem a duas cabeças. Todos estes corpos cor-de-rosa se achegam uns aos outros, como numa cópula colectiva, e são sete, embora haja mais do que sete cabeças: Seven in bed (2001).

»»»»» De entre as tantas representações de cabeças cortadas, em que algum mestre do barroco escultórico hispânico seiscentista se excedeu, e em que pictoricamente Lucas Cranach (1472-1553) caprichou no mais exquisito luxo visual, Louise Bourgeois teceu uma cabeça cortada têxtil cor-de-rosa e pousou-a sobre uma banqueta no interior de uma cell (cela ou gaiola), uma das suas inumeráveis cells: Cell XXIII (Portrait) (2000). Esta cabeça assombra: por estar cortada cerce e tetricamente exposta como numa exibição pública pós-executória, e porque a expressão do rosto representado resulta indescritível: uma agonia neutra, um estertor final puramente físico, fixado no momento da decapitação. E aqui a ironia estará ampliada em ser esta a representação de múltiplas representações: evoca o exibicionismo mórbido em voga no regime de terror (Danton, Robespierre) pós-revolução de 1789. Louise Bourgeois não desiste da verdade irónica de se ter ou ter deixado de se ter corpo.

António Sá

[31.01.2013]

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