Não me abandones

Não me abandones

»»»»» Dentro de uma vitrina rectangular de pouco mais de cinquenta centímetros de comprimento jazem a figura feminina e o recém-nascido, ambos feitos de pano recosido, costuras suturando secções dos corpos, pano revestido de um uniforme pigmento cor-de-rosa velho-acinzentado. Nesta escultura têxtil pode encontrar-se o valor invariante do entrosamento amor-sabedoria para que tal cor mista remete, entendendo, segundo valores simbólicos estáveis, o vermelho enquanto a cor da verdade e o branco a cor da sabedoria e do conhecimento que lhe é associado.Bourgeois 3 001

»»»»» Figura-se o acto físico da maternidade, momento-revelação desse amor universal e experiência-conhecimento da origem da vida. No entanto, um erro de inserção umbilical incorre no escândalo de uma inverdade anatómico-fisiológica. A mãe, deitada numa posição hirta, esforço do corpo distendido, é flagrada no momento de dar à luz o nascituro, que lhe surde de entre as pernas flectidas, já só os pés infantes não saíram do útero. As cabeças de uma e de outro apontam em sentidos opostos, e a da mãe lança-se para trás, como num espasmo. Após o primeiro impacto emotivo, e a um olhar mediato, atenta-se no cordão umbilical, descrevendo uma larga curva desde o umbigo materno até à garganta do bebé, envolvendo-a numa volta simples.

»»»»» A que se deve este erro flagrante? Uma ligação umbilical mãe-cria que excede a função biológica e se prolonga para além do nascimento: ligação, mais do que biológica, investida de uma dimensão psíquica, porventura cosmo-simbólica, no imaginário inerente ao universo de Louise Bourgeois (1911-2010).

»»»»» O título desta obra, Do not abandon me (1999), aponta na dimensão psico-ontológica. Não me abandones nesta vida, neste ambiente inóspito para sempre, que é o ambiente não-uterino. Mas, não me abandonando me sufocas — mais cruamente: me estrangulas, desde quando estou a nascer. Isto, se se entender que a urgência é a do ser que nasce. Mas o título admite a ambiguidade, abre para a ideia de que quem se ressente do abandono é a instância materna, que aprisiona, desde o seu umbigo, o ser nascente, prende-o a si visceralmente, e logo simbolicamente, tanto quanto se percepcione a obra artística como representação simbólica.

»»»»» Perante tal representação e respectivo título, o entrosamento amor-sabedoria indiciado pela uniforme tonalidade cor-de-rosa é passível de entender-se enquanto ironia tortuosa, prenhe de visceral, ontológica angústia.

António Sá

[07.01.2013/21.01.2013]

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