Corpos-lastro em fusão

Corpos-lastro em fusão

Lastro 1 001

 

»»»»» Dez corpos quase nus e manchados de uma mescla roxo-cinza-metálico evoluem pelo cenário ao som de ruídos: contactos eléctricos disruptivos, intermitentes, que mais tarde se combinam com sons de harpa céltica e tambor produzidos por intérpretes em palco. Uma e outra vez estes corpos reúnem-se, sobrepõem-se, formando uma colina humana sem rosto; encenam, uma outra vez, poses grupais em diferentes e coactivas figuras, encarando o público de frente. Outra e outra vez criam círculos-circuitos com os quais, em interacção, desencadeiam movimentos de tracção em sentidos que vão divergindo. Prende o olhar, neste espectáculo de dança intitulado Lastro (Né Barros, 2016) tal aproximação-afastamento de corpos; e tal episódica fusão física em que os dez performers em colina se indistinguem. Mas esta fusão física nenhum erotismo convoca, esse erotismo fusional de Seven in bed (Louise Bourgeois, 2001), escultura têxtil a que fiz referência nos textos Cabeças, corpos, cordões umbilicais (2013) e Dois na cama (2016) [https://distractos.wordpress.com/]. E se o róseo das figuras de Bourgeois remete para a verdade do desejo sexual, o roxo-cinza de Lastro aproxima os corpos da terra, anotando-lhes peso e fundamento terrestres.

 

 

Lastro 2 001

 

»»»»» “Lastro” tem o sentido unívoco de “peso”, mas com diversas utilizações, incluindo a ligada à navegação. Cenografia de Cristina Mateus, coreografia de Né Barros, a peça Lastro inclui este uso náutico: em toda a sua duração, uma larga vela, a princípio com aspecto de lua-minguante, sobrevoa os bailarinos; mais adiante, sobe, desce, oscila, agita-se, obrigando os mesmos a interagir com esse tal adereço cambiante, que sinalizaria a embarcação, um veleiro; e o corpo de baile seria o lastro, ou seja, essa “matéria pesada e de pouco ou nenhum valor comercial que, à falta de mercadorias para transporte, é colocada no fundo de uma embarcação” (Houaiss).

»»»»» Mas outros usos da palavra podem interessar para ler esta dança: lastro no sentido de matéria que dá fundamento às coisas, como quando se diz: “este conjunto de estudos científicos constitui o lastro de recentes e futuras descobertas nesta área”. Assim estes corpos que se amontoam ou afastam sejam o lastro da indagação do movimento humano, perpétua aproximação-afastamento que define o curso e o lastro (= fundamento) da vida. E há o lastro que é o “depósito em ouro que serve de garantia ao papel-moeda” (Houaiss): segundo este último sentido, os performers metalizadamente manchados, quais blocos de ferro ou de aço a servir de lastro ao veleiro, sejam o ouro que, no seu devir, os nossos olhos colhem.

»»»»» [Nota: para os significados da palavra “lastro” foi utilizado o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Círculo de Leitores, Lisboa, 2003.]

António Sá

[20.02.2016]

 

 

 

 

 

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