Monthly Archives: March 2016

Luciferinamente

Luciferinamente

 

»»»»» Parte do mundo arma outra parte do mundo — é preciso haver armas, todo o tipo de armas, para que armas, todo o tipo de armas, se sujem, façam seu trabalho de armas.

»»»»» É apelando às armas que Lúcifer reage ao Anjo, quando este o repreende pela arrogância e lhe antevê o temor perante Cristo, quando este surgir ressuscitado. Esta reacção está plasmada nos versos que Carlo Sigismondo Capece escreveu para o Oratorio per la Resurrezione di nostro Signor Gesu Cristo (1708), obra de George Frideric Handel sumariamente conhecida em português por A Ressurreição. São estes os versos que transportam tal reacção luciferina, transcritos primeiro no italiano em que são cantados, depois traduzidos em inglês:

 

Io tremante! Io si vile! E quando? e come?

 

Sconvolgerò gl’ abissi,

Dal suo centro commossa

Dissiperò la terra,

All’ aria coi respiri,

Al fuoco coi sospiri,

Co gli aneliti al Ciel muoverò guerra!

 

O voi, dell’ Erebo

Potenze orribili,

Su, meco armatevi

D’ira e valor!

E dell’ Eumenidi

Gli angui terribili

Con fieri sibili

Ai cieli mostrino

Ch’hanno i suoi fulmini

Gli Abissi ancor!

 

 

»»»»» Versos assim traduzidos para inglês, no folheto que acompanha a edição discográfica:

 

I, tremble? I, abase myself? When, and how?

 

I’ll throw Hell into confusion,

I’ll convulse the Earth from within

and scatter it abroad

into the air with my breath

and into the fire with my sighs,

and storm the gates of Heaven with ambition!

 

Oh ye dread powers

of Erebus.

Come, arm yourselves like me

with rage and courage!

And let the hideous serpentes

of the Furies

fiercely hiss

that Heaven may know

that Hell has yet

its thunderbolts!

 

»»»»» É próprio da instância luciferina este recurso à violência e apelo às armas: “meco armatevi / D’ira e valor!” (“armai-vos comigo / de ira e audácia!”). As empresas que as fabricam, sitas nos países industrialmente desenvolvidos, necessitam escoar a produção, assim os cenários de guerra lhes são propícios.

 

»»»»» [Observação: os versos em italiano e a sua tradução para inglês constam do folheto que acompanha o duplo CD La Resurrezione (1708), Éditions de l’Oiseau-Lyre, The Decca Record Company Limited. London, England, 1982 e 1988.]

 

António Sá

[25.03.2016/28.03.2016]

 

 

 

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Dois textos sobre “Bright star”

Bright star

»»»»» Transformar Keats numa estrela, embora depressiva e cadente? Não tão escuramente depressiva e suicidária quanto Gus van Sant figurou Kurt Cobain, líder dos Nirvana, em Last days (2005), ainda que van Sant observe uma distância ficcional, e crisme de Blake o protagonista do seu filme. Não acreditei, não acredito que os biopics tenham muito a ver com as figuras históricas e humanas que se supõe representarem. Serão filmes que ou valem pela visão e estrutura que compõem, ou simplesmente nada de consistente compõem, valem pouco ou não valem. Mas afinal isto vale para todos os filmes. Aos biopics, biografias épicas ou nem por isso, nem por isso é o caso do referido filme de van Sant, faço por apreciá-los enquanto construções autónomas relativamente aos seres que supostamente retratam, os quais, admita-se, servem de suporte ou estímulo, por referentes biográficos verídicos ou míticos, para desencadear narrativas, discursos ideológicos ou ideológico-visuais, imaginários enfim, mais imputáveis ao realizador ou à equipa ou estúdio produtores.

»»»»» Assim aprecio, e de modo positivamente valorativo, o biopic Bright star (Jane Campion, 2009), inspirado na figura do poeta romântico britânico John Keats (1795-1821). Aprecio o cuidado da cineasta relativamente a texturas, tonalidades, lugares campestres, fachadas de edifícios, interiores de habitações. Escrevo lugares e não paisagens, porque se trata mesmo de lugares rústicos; e as casas, os interiores apresentam um aspecto rústico na justa medida de um olhar não estilizado, ao contrário do que acontece em geral nos filmes de época britânicos, academicamente limpos. Sendo tais filmes um dos filões da indústria cinematográfica e televisiva britânica, este também integra o género, e no entanto traz consigo a marca do estilo Campion, um Campion’s touch, na respiração imponderável da montagem, respiração tranquila com muito breves acelerações, sobretudo em sequências grupais, muito breves surpresas de raccord, pontualmente inesperados, abruptos. Campion’s touch nos lugares, em planos fulgurantes, como o das roupas estendidas a secar em fileiras paralelas, ou o caminho emadeirado entre campos de trigo louro; nas texturas e tonalidades dos tecidos, das roupagens, dos materiais, dos objectos, dos mobiliários, das paredes; e, lembrando e transformando a primitividade griffithiana, na invasão elemental e animal de ambientes no entanto socializados, sempre centrada a narrativa, como em Griffith, nas interacções humanas. No caso de Bright star, o sol e a chuva enquadrando as acções; o gato tão domesticamente a propósito enquanto prolongamento das emoções; as borboletas que se instalam oniricamente no quarto de dormir da protagonista, “miss Brawne”, que se vai apaixonando pelo jovem Keats.

»»»»» Vai-se apaixonando até ao delírio que a leva a ficar de cama alguns dias, e a sofrer uma viuvez sem casamento, após a morte do poeta em Itália, para onde fora curar-se da tuberculose, aos vinte e cinco anos. Esta subtileza e progressividade com que o amor, o ciúme, a rivalidade se vão instalando entre os protagonistas pode ser vista também enquanto traço da perspectiva típica a Jane Campion, esse Campion’s touch sobretudo se a vemos associada às indefinições sexuais, ou antes, à ausência de qualquer envolvência sexualmente definida entre os três protagonistas: o mentor e poeta “senhor Brown”, sempre controlando e orientando o jovem Keats, que confessa a sua confusão face às mulheres, mesmo à mãe; e a jovem “miss Brawne”, inabalavelmente apaixonando-se por Keats, contra a hostilidade feroz do “senhor Brown”. Trata-se de amores e correlativos ódios emotivamente intensos até à insanidade, mas situados numa região algo abstracta, ou mental, que não é no entanto platónica, porque caracterizadamente sensual, como convém à ambiência de uma poesia dos sentidos, sensual sem ser erótica, porque implicitamente isenta de qualquer enlace sexual.

»»»»» Reiterando a ideia inicial, nada duvido de que não existe coincidência entre o que viveu Keats e o que Jane Campion imaginou para ele. Vejo o Keats de Jane Campion como a figura de um qualquer poeta, o que melhora definitivamente o filme, lhe explica alguma preceituação romântica, ao gosto do modo contemporâneo de percepcionar os artistas do Romantismo, preceituação aceitável se se representa tão-só um poeta-de-argumento-cinematográfico.

António Sá

[23.08.2012]

 

 

Uma costureira (ainda sobre “Bright star”)

»»»»» Fanny Brawne, ou “miss Brawne”, como é usualmente tratada, tem a costura como ocupação cotidiana, faz os seus próprios vestidos e vende a roupa que fabrica. Orgulha-se desse seu trabalho, e com alguma arrogância aborda os poetas, que desde logo a tratam com displicência intelectual, aliás a arrogância dela funciona como resposta e defesa: ela observa-lhes em alguma ocasião que o seu trabalho de costureira lhe rende dinheiro e, ao que consta, o poema Endymion (1818), recém-editado pelo jovem Keats, não vende nenhum exemplar. O que não obsta a que ela resolva, com a humildade da paixão nascente, solicitar-lhe e pagar-lhe lições de poesia, paixão nascente que decorre, decerto, do contacto pessoal com o poeta, e se completa e cresce com a experiência da leitura de poemas do mesmo, que ela não sabe avaliar, mas lhe permitem considerar a poesia de modo diverso, mais respeitoso, a ela, herdeira britânica de um espírito prático e útil.

»»»»» Estas lições de poesia despertam em Keats perplexidade, levam-no a uma reflexão ab initio; e a tais lições o seu mentor, o poeta Charles Brown, reage com incredulidade e escândalo iniciais, e logo com resistência declarada e hostil. Mas a inteligente Fanny progride no entendimento da poesia e cumpre, com alguma extravagância, um programa de leitura dos clássicos, sem por isso abandonar as agulhas e os bailes galantes.

»»»»» O genérico do filme é já uma excelente introdução ao universo da costureira: planos muito aproximados, mais do que de pormenor — na zona da indistinção representativa, ao nível visual da abstracção, até se perceber que, na textura tensa de um tecido, uma agulha e uma linha fazem o seu caminho. A este labor da costura, paciente artesanato, Fanny vai, em algumas observações, teorizá-lo comparativamente ao trabalho dos poetas. E eu efabulo uma teorização possível: a alternância, a utilização sábia dos diversos pontos de costura para formar o todo, as combinações cromáticas, a sua distribuição, contrastes e rimas — tudo isto joga na fabricação de um vestido, e tudo isto similar à escolha e uso da matéria verbal na construção do poema.

»»»»» Com silenciosa gratidão e respeito, Keats aprecia o bordado belíssimo, na simplicidade das suas linhas, que ela lhe oferece para servir de fronha ao irmão do poeta, esse jovem irmão que agoniza na última fase do deperecimento tísico.

»»»»» Estes parágrafos ocorrem a propósito da película Bright star (Jane Campion, 2009), e complementam outro texto anterior redigido sob o título (óbvio) de Bright star.

António Sá

[04.09.2012 / 11.09.2012]

Desatino 66

Desatino / 66 [O sabor do mosquito]          

 

»»»»» Em resposta a uma pergunta sobre a ameaça do mosquito sul-americano na ordem-do-dia, o respeitado, venerando psicanalista expôs esta teoria optimizante e, por consequência, optimista:

»»»»» “Já pensou que em vez de estarmos aflitos com o mosquito que transmite o Zika, devíamos pensar que isso pode ser um processo de resolver as dificuldades de proteínas, e começar a comer esses mosquitos num prato especial? [risos]. Com manteiga, um bocadinho de mel…”

 

»»»»» [Nota: a surreal-optimizadora resposta, aqui reportada ipsis uerbis, deve-se ao psicanalista António Coimbra de Matos, em entrevista publicada na edição de 21 de fevereiro de 2016 no cotidiano “Público”.]

 

António Sá

[26.02.2016]