Monthly Archives: June 2016

Desatino 71

Desatino / 71 [Nem que te matem!]          

 

»»»»» Ao balcão de um bar nocturno, um jovem moreno de barba-rasa, muito alcoolizado, hostiliza o barman que se recusa a servir-lhe mais álcool:

»»»»» — Por que é que tu não morres, pá?

»»»»» E a esta cruel questão, responde logo com resposta cruel:

»»»»» — Não. Tu não morres, nem que te matem!

 

António Sá

[03.06.2016]

 

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Julga-me a gente toda por perdido

Julga-me a gente toda por perdido

 

»»»»» Uma auto-reflexão de Luís de Camões sob a forma de soneto:

 

Julga-me a gente toda por perdido,

vendo-me tão entregue a meu cuidado,

andar sempre dos homens apartado,

e dos tratos humanos esquecido.

 

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,

e quási que sobre ele ando dobrado,

tenho por baixo, rústico, enganado,

quem não é com meu mal engrandecido.

 

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,

busquem riquezas, honras a outra gente,

vencendo ferro, fogo, frio e calma;

 

que eu só em humilde estado me contento,

de trazer esculpido eternamente

vosso fermoso gesto dentro n’alma.

 

»»»»» Numa síntese-imediata, considero que o poeta se manifesta alheado de tudo o que sejam actividades sociais ou ambições pessoais: contenta-se com o estado de contemplação mental do ente amado.

»»»»» Mas, feita esta síntese, o poema merece comentário e contextualização subsequentes.

 

 

»»»»» (Para a transcrição do soneto utilizei a edição das Rimas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Atlântida Editora, Coimbra, 1973.)

 

António Sá

[10.06.2016]