Monthly Archives: November 2016

Flash 5

Flash / 5

 

»»»»» I’m irrational, so irrational! You’re irrational, so irrational! Toda a gente tão irracional!

»»»»» Everybody believes irrational items. Irrational believers! Todos e todas crêem em coisas irracionais. É tão irracional! Todos y todas lo creen — en irracionalidades. En las horas. Las horas irracionales.

»»»»» As horas são abstracções irracionais. Hours are irrational abstractions. Why are they so irrational ? Por que são as horas tão irracionais?

»»»»» Se tudo não fosse irracional, ninguém acreditava nesse tudo. All absolutely irrational. If it wasn’t irrational nobody would believe it. You’re so irrational! I’m so irrational!

 

»»»»» [Clues:”Theories of human rationality increasing through social evolution are so groundless today as they were…”, comentário de John Gray a propósito das teorias de Herbert Spencer, no ensaio The silence of animals, 2013, p.79.]

 

António Sá

[21.11.2016]

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Perspectiva sobre São Martinho

Perspectiva sobre São Martinho

 

 

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»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» Quem agora tivesse desse sofrimento

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» a parte que tens que mais te atormenta!

 

 

São Martinho não traz dinheiro

»»»»» Entenda-se desolada, e logo resolvida em modo de embaraço fidalgo, a atitude e gesticulação de São Martinho, no início da conversa com o Pobre pedinte, momento em que o santo-a-haver se descobre sem dinheiro para uma esmola. Pode-se perguntar: por que não traz dinheiro? Ele questiona os três Pajens sobre o que eles disponham que sirva de esmola. Diz um verso para o Pobre e o seguinte para os Pajens, versos em castelhano, no original:

Hermano, ahora no traigo dinero:

vosotros traéis que demos por Dios?

(“Irmão, agora não trago dinheiro:

vós outros trazeis que demos por Deus?”)

»»»»» Os Pajens respondem No ciertamente. Estariam todos no decurso de um passeio a cavalo. Face a tal evidência, Martinho insiste contrafeito: Entrambos a dos / no traéis que demos a este romero? (“Entre ambos dois / não trazeis que demos a este romeiro?”). E não obtém resposta, que seria a mesma. Desnecessário andar com dinheiro numa incursão campestre a cavalo.

[12.11.2014]

 

 

São Martinho corta a sua capa

»»»»» Depois de informar o Pobre pedinte que não traz dinheiro, e perguntar aos dois Pajens se eles trazem algo que dar, recebendo destes resposta negativa, No ciertamente, passos estes anotados antes, este cavaleiro, Martinho, que boamente se passeia a cavalo com seus três Pajens, este Martinho que virá a ser santo, mas entretanto é apenas cavaleiro, exprime a sua compaixão pelo Pobre, que se queixa de sentir todas as dores, nem mais nem menos: No hay dolor que en mí no lo sienta (“Não há dor que em mim não a sinta”). Martinho exprime a sua compaixão nestes dois versos:

Quién ahora tuviesse d’aquessa passión

la parte que tienes que más t’atormenta!

»»»»» Explicando estes versos traduzidamente, Martinho exprime o voto-lamento, bem retórico, de que alguém suportasse, do sofrimento do pobre, a parte de sofrimento que mais o atormenta: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”

»»»»» Enfim, na última fala deste muito breve Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504), última fala composta por oito versos, o futuro-santo decide, defectivo qualquer outro recurso, cortar com a espada de cavaleiro a sua capa ao meio: Partamos aquesta mi capa por medio; / pues otra limosna no traigo aquí (“Cortemos esta minha capa ao meio; / pois outra esmola não trago aqui”).

[09.11.2015]

 

 

A compaixão retórica e a compaixão reenviada

»»»»» São Martinho manifesta a compaixão num conceito divisivo do sofrimento em partes mais fortes e mais fracas, conceito assim traduzido do castelhano: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”. Ou seja, ser-lhe-ia mais leve o sofrimento, ao Pobre, se alguém suportasse, em substituição, a parte em que tal sofrer mais pesado lhe fosse.

»»»»» Conceito que, piedosamente, em compaixão reenviada, e com recurso à divindade, o Pobre rejeita: Guárdeos Dios de tan grande afrenta (“Guarde-os Deus de tão grande afronta”), ou seja, que Deus resguarde todos os humanos de se defrontarem com a parte de sofrimento que mais o atormenta.

[14.11.2016]

 

 

 

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1. A imagem que acompanha este texto corresponde a um pormenor da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

»»»»» 2. Em projecto, a redacção de um texto subsequente, sob o título Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho, incidindo sobre o delírio conceptual do Pobre, no discurso inicial da peça vicentina; este texto subsequente será o segundo painel, cujo primeiro é o já redigido e aqui editado, Perspectiva sobre São Martinho. Título geral para este painel: Perspectivas sobre São Martinho e seu pedinte.

 

 

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

 

António Sá

[12.11.2014/16.11.2016]

Facturas simplificadas 4

Facturas simplificadas / 4

 

Versão outra de “Corpos enxutos, corpos roliços”

Corpos enxutos e magros

resultam bem se tostados.

Corpos roliços, cheiinhos,

resultam melhor negrinhos.

»»»»» [Por acréscimo se acresce a tempo um reparador reparo, que consiste na consistente ideia de que: os corpos tostados podem ser de todo e qualquer tipo humano, africano, asiático, ameríndio e também europeu bronzeado; sendo os corpos branquinhos mais dos nortes europeus, e os corpos negrinhos mais dos suis africanos. Cada qual leitor escolha a versão de suas inclinações e preferências, entre a primitiva, que termina com o termo “branquinhos”, e esta outra, que acaba com o contratermo “negrinhos”.]

António Sá

[20.11.2016]

 

Distracção 54

Distracção / 54 [O enterro do hemisfério]

 

»»»»» Eu, que tento sempre evitar encontros com o meu filósofo desconstrutivo-desconectivo-no-seu-jardim, e que, quando me vê, me vem cobrar um euro por eu passar ali, compensando-me com reflexões excedentárias, por esta vez fui ter com ele no-seu-banco-de-jardim, achei-o absorto e emurchecido, talvez por efeito de preocupações ambientais, cósmicas, ou de outra natureza. Aproximei-me, estendendo entre os dedos a moeda de euro, antes que ele ma pedisse, reduzindo-o à humilhante condição de filósofo-ao-euro-por-opinião. Queria muito ouvi-lo quanto à recente eleição do senhor Donald Trump, pacato, sóbrio e cumpridor chefe-de-família, para Presidente dos Estados Unidos, e incitei-lhe a opinião desde logo:

»»»»» — Você desta vez não se enganou!

»»»»» — Eu só me engano quando quero — disse ele, e era uma voz cava, saída da profunda absorção reflexiva em que se abysmava. E com esta observação desarmou-me, fiquei confundido com a solenidade da voz e a profundidade inesperada do conceito, mas ele atalhou: — Não me enganei a respeito de quê?

»»»»» — Da eleição de Trump. Você deu-me a entender que ele havia de ganhar, na última conversa que tivemos, antes das eleições.

»»»»» — Ah, pois foi…

»»»»» — Mas também disse que abominava o dito senhor, mas não me explicou o porquê de tal abominação…

»»»»» — Por uma razão muito simples — explicou ele, com voz mais correntia e argumentativa. — Porque sonhei que vi o senhor Trump com uma pá na mão, a abrir uma grande cova num descampado, e nesse descampado estava plantado um grande hemisfério, desses que representam o nosso planeta, e se põem em cima das secretárias. Então ele despegava o hemisfério do suporte onde estava, atirava-o para o fundo da cova que tinha cavado, e começava logo, com muita energia, esbaforido, a lançar terra para a cova, com a pá…

»»»»» — Ah! — disse eu. — Esse sonho é claro como a água de uma nascente de montanha. O homem estava a enterrar o planeta!

»»»»» — Foi mesmo! — confirmou-me o filósofo. — E desde aí — concluiu — fiquei a abominá-lo. Este senhor dá-me pesadelos…

 

António Sá

[16.11.2016]

Distracção 53

Distracção / 53 [Da comédia à tragédia]

 

»»»»» Se há alguma coisa que aprecie na filosofia do meu filósofo-no-seu-jardim é esta: ele erra sempre as perspectivas futuras por onde o seu filosofar se abalance. Um exemplo flagrante foi o de ele me ter declarado, com solenidade no gesto e na voz, que o povo dos Estados Unidos nunca elegeria nem um negro nem uma mulher para a presidência do país — isto meses antes da primeira eleição de Barack Obama. Enganou-se portanto no primeiro palpite, nem um negro, mas esqueceu-se deste engano, o muito álcool faz destas coisas, e persiste no outro engano, nem uma mulher, não crendo que Hillary Clinton ganhe as eleições — mas abominando Donald Trump. Eis o que ele me declarou agora, dias antes das eleições, reclinado no seu banco-de-jardim, agarrando a garrafa de vinho contra o peito, e não sem me cravar antes a moeda de euro que, ocasionalmente, eu lhe esmolo:

»»»»» — Os Estados Unidos vão ser alvo da chacota de todo o mundo inteligente, por via da sua figura presidencial. Vai proliferar o anedotário-Trump. Isto, até a comédia burlesca se transformar em tragédia universal, que a natureza do homenzinho é da ordem do desvario e, ainda por cima, ele será sempre inimputável — foi o povo que o quis lá.

 

António Sá

[02.11.2016/05.11.2016]

 

Distracção 52

Distracção / 52 [Sem comentários]

 

»»»»» Deixo inscrita aqui, sem comentários, a declaração de um taxista, digna de figurar numa antologia das melhores declarações pronunciadas pelo candidato à presidência Donald Trump, ao longo da sua vida de glórias e escórias.

»»»»» Acrescento tão-só a fonte e o contexto. A primeira veio de um artigo de opinião, “Uma batalha de todos os dias” (São José Almeida, jornal Público, edição de 15 de Outubro de 2016). Quanto ao contexto, é o de uma manifestação em forma de marcha-lenta, e posterior concentração, dos taxistas de Lisboa, em protesto contra as plataformas de transportes transnacionais, Uber e Cabify. Manifestação e concentração ocorridas na segunda-feira, dia 10 de Outubro.

»»»»» Eis as palavras do taxista, proferidas frente às câmaras de televisão:

»»»»» “As leis são como as meninas virgens, são para ser violadas.”

 

António Sá

[18.10.2016]