Distracção 54

Distracção / 54 [O enterro do hemisfério]

 

»»»»» Eu, que tento sempre evitar encontros com o meu filósofo desconstrutivo-desconectivo-no-seu-jardim, e que, quando me vê, me vem cobrar um euro por eu passar ali, compensando-me com reflexões excedentárias, por esta vez fui ter com ele no-seu-banco-de-jardim, achei-o absorto e emurchecido, talvez por efeito de preocupações ambientais, cósmicas, ou de outra natureza. Aproximei-me, estendendo entre os dedos a moeda de euro, antes que ele ma pedisse, reduzindo-o à humilhante condição de filósofo-ao-euro-por-opinião. Queria muito ouvi-lo quanto à recente eleição do senhor Donald Trump, pacato, sóbrio e cumpridor chefe-de-família, para Presidente dos Estados Unidos, e incitei-lhe a opinião desde logo:

»»»»» — Você desta vez não se enganou!

»»»»» — Eu só me engano quando quero — disse ele, e era uma voz cava, saída da profunda absorção reflexiva em que se abysmava. E com esta observação desarmou-me, fiquei confundido com a solenidade da voz e a profundidade inesperada do conceito, mas ele atalhou: — Não me enganei a respeito de quê?

»»»»» — Da eleição de Trump. Você deu-me a entender que ele havia de ganhar, na última conversa que tivemos, antes das eleições.

»»»»» — Ah, pois foi…

»»»»» — Mas também disse que abominava o dito senhor, mas não me explicou o porquê de tal abominação…

»»»»» — Por uma razão muito simples — explicou ele, com voz mais correntia e argumentativa. — Porque sonhei que vi o senhor Trump com uma pá na mão, a abrir uma grande cova num descampado, e nesse descampado estava plantado um grande hemisfério, desses que representam o nosso planeta, e se põem em cima das secretárias. Então ele despegava o hemisfério do suporte onde estava, atirava-o para o fundo da cova que tinha cavado, e começava logo, com muita energia, esbaforido, a lançar terra para a cova, com a pá…

»»»»» — Ah! — disse eu. — Esse sonho é claro como a água de uma nascente de montanha. O homem estava a enterrar o planeta!

»»»»» — Foi mesmo! — confirmou-me o filósofo. — E desde aí — concluiu — fiquei a abominá-lo. Este senhor dá-me pesadelos…

 

António Sá

[16.11.2016]

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