Perspectiva sobre São Martinho

Perspectiva sobre São Martinho

 

 

vivarini-1-001

 

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» Quem agora tivesse desse sofrimento

»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»» a parte que tens que mais te atormenta!

 

 

São Martinho não traz dinheiro

»»»»» Entenda-se desolada, e logo resolvida em modo de embaraço fidalgo, a atitude e gesticulação de São Martinho, no início da conversa com o Pobre pedinte, momento em que o santo-a-haver se descobre sem dinheiro para uma esmola. Pode-se perguntar: por que não traz dinheiro? Ele questiona os três Pajens sobre o que eles disponham que sirva de esmola. Diz um verso para o Pobre e o seguinte para os Pajens, versos em castelhano, no original:

Hermano, ahora no traigo dinero:

vosotros traéis que demos por Dios?

(“Irmão, agora não trago dinheiro:

vós outros trazeis que demos por Deus?”)

»»»»» Os Pajens respondem No ciertamente. Estariam todos no decurso de um passeio a cavalo. Face a tal evidência, Martinho insiste contrafeito: Entrambos a dos / no traéis que demos a este romero? (“Entre ambos dois / não trazeis que demos a este romeiro?”). E não obtém resposta, que seria a mesma. Desnecessário andar com dinheiro numa incursão campestre a cavalo.

[12.11.2014]

 

 

São Martinho corta a sua capa

»»»»» Depois de informar o Pobre pedinte que não traz dinheiro, e perguntar aos dois Pajens se eles trazem algo que dar, recebendo destes resposta negativa, No ciertamente, passos estes anotados antes, este cavaleiro, Martinho, que boamente se passeia a cavalo com seus três Pajens, este Martinho que virá a ser santo, mas entretanto é apenas cavaleiro, exprime a sua compaixão pelo Pobre, que se queixa de sentir todas as dores, nem mais nem menos: No hay dolor que en mí no lo sienta (“Não há dor que em mim não a sinta”). Martinho exprime a sua compaixão nestes dois versos:

Quién ahora tuviesse d’aquessa passión

la parte que tienes que más t’atormenta!

»»»»» Explicando estes versos traduzidamente, Martinho exprime o voto-lamento, bem retórico, de que alguém suportasse, do sofrimento do pobre, a parte de sofrimento que mais o atormenta: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”

»»»»» Enfim, na última fala deste muito breve Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504), última fala composta por oito versos, o futuro-santo decide, defectivo qualquer outro recurso, cortar com a espada de cavaleiro a sua capa ao meio: Partamos aquesta mi capa por medio; / pues otra limosna no traigo aquí (“Cortemos esta minha capa ao meio; / pois outra esmola não trago aqui”).

[09.11.2015]

 

 

A compaixão retórica e a compaixão reenviada

»»»»» São Martinho manifesta a compaixão num conceito divisivo do sofrimento em partes mais fortes e mais fracas, conceito assim traduzido do castelhano: “Quem agora tivesse desse sofrimento / a parte que tens que mais te atormenta!”. Ou seja, ser-lhe-ia mais leve o sofrimento, ao Pobre, se alguém suportasse, em substituição, a parte em que tal sofrer mais pesado lhe fosse.

»»»»» Conceito que, piedosamente, em compaixão reenviada, e com recurso à divindade, o Pobre rejeita: Guárdeos Dios de tan grande afrenta (“Guarde-os Deus de tão grande afronta”), ou seja, que Deus resguarde todos os humanos de se defrontarem com a parte de sofrimento que mais o atormenta.

[14.11.2016]

 

 

 

 

 

»»»»» Notas:

»»»»» 1. A imagem que acompanha este texto corresponde a um pormenor da tela São Martinho e o pobre (Bartolomeo Vivarini, 1491).

»»»»» 2. Em projecto, a redacção de um texto subsequente, sob o título Perspectiva sobre o pedinte de São Martinho, incidindo sobre o delírio conceptual do Pobre, no discurso inicial da peça vicentina; este texto subsequente será o segundo painel, cujo primeiro é o já redigido e aqui editado, Perspectiva sobre São Martinho. Título geral para este painel: Perspectivas sobre São Martinho e seu pedinte.

 

 

»»»»» [Os versos em castelhano transcritos são retirados do Auto de São Martinho (Gil Vicente, 1504). Utiliza-se o volume I da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, introdução e normalização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1984.]

 

António Sá

[12.11.2014/16.11.2016]

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