Monthly Archives: January 2017

notas & noções 4 (2ª série)

notas & noções 4 (2ª série)

 

sobre o “sentido” e as leituras adolescentes

»»»»» Não ressinto, enquanto falta, a ausência de “sentido” de tudo o que existe, enquanto existe, mas antes o considero ambiente natural humano em que tranquilamente me movimento, líquido amniótico.

»»»»» Acaso me foi assim sempre? Desde a adolescência que fui definindo um “sentido” para-mim, para o meu percurso: a escrita criativa. Despertou-me fortemente para isso a leitura da tradução portuguesa do romance-diário A náusea, de Jean-Paul Sartre. Teria os meus dezasseis anos, e li essa obra na tranquila e bem iluminada Biblioteca Municipal de Nova Lisboa, Huambo, em meados dos anos sessenta do século XX. Escrevo “fortemente”, porque já antes me sentira estimulado pela leitura dos deliciosos diálogos de Os desastres de Sofia, da Condessa de Ségur; e a leitura de uma novela de que lembro o título, Em pleno azul, mas não lembro o nome da autora, portuguesa esta; e enfim, na dita biblioteca, a leitura de uma biografia de Antoine de Saint-Exupéry creio que de André Maurois, e muito me empolgou a vida do “piloto de guerra”; e logo, em contexto liceal, a incursão em L’île des pingouins, de Anatole France, leitura já no francês original. Mas a leitura devastadora foi mesmo a do romance-diário sartriano: fiquei num torpor psicológico, uma primeira experiência do que hoje se chama depressão, e a que eu à época não sabia dar nome, cuja duração contabilizei em catorze dias, não sei por que assim contabilizei. Entretanto fazia a minha vida escolar e familiar cotidiana, força do hábito, embora a minha cabeça estivesse habitada pelo fantasma do nada que o livro me convocara e em que me deixara.

 

 

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Li Sartre numa edição da Europa-América, 1964, com uma belíssima capa avermelhada, em tradução de António Coimbra Martins.

»»»»» 2) Dos outros livros referidos, não sei nem lembro a edição em que os li, excepto a obra de Anatole France, edição da Le Livre de Poche.

 

 

António Sá

[01.01.2017/07.01.2017]

 

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notas & noções 3 (2ª série)

notas & noções 3 (2ª série)

sobre “la fama y la gloria”

»»»»» Excelente exemplo do anseio humano de imortalidade é entoado num registo musical amplo, serenamente majestoso e meditativo no vilancico “Todos los bienes del mundo”, cujas palavras explicam que todos os bens deste mundo depressa se vão, excepto a “fama” e a “glória”. Isto é o dito no mote, os três versos iniciais, a partir do qual se seguem os desenvolvimentos, três coplas, estrofes de sete versos, sendo o sétimo verso a reprodução do último verso do mote: “salvo la fama y la gloria” (“excepto a fama e a glória”).

»»»»» 1) Na primeira copla, considera-se que o tempo destrói alguns, a outros leva a fortuna e a boa sorte, sendo que enfim a morte a todos leva; e que todos os bens a ocasião os proporciona, e são de breve memória, “excepto a fama e a glória”.

»»»»» 2) Na segunda copla, postula-se que a “fama” segue um percurso seguro, mesmo quando morre o dono dela; que os outros bens são um sonho e uma sepultura assegurada; e que a melhor e grande felicidade passa depressa, e a memória dela, “excepto a fama e a glória”.

»»»»» 3) Na terceira e última copla, o poeta, transformando-nos em interlocutores, exorta-nos a perseguir boa “fama”, que não se perde nunca; porque é, metaforicamente, árvore sempre verdejante e com frutos nas ramagens; e enfim, todo o bem, enquanto bem, depressa se vai, e a sua memória, “excepto a fama e a glória”.

»»»»» Feita esta versão livre do castelhano, apresento o vilancico na sua língua original, mote e três coplas:

Todos los bienes del mundo

pasan presto, y su memoria,

salvo la fama y la gloria.

 

El tiempo lleva los unos,

a otros fortuna y suerte,

y al cabo viene la muerte

que no nos dexa ningunos.

Todos son bienes fortunos

y de muy poca memoria,

salvo la fama y la gloria.

 

La fama bive segura

aunque se muera su dueño,

los otros bienes son sueño

y una cierta sepultura.

La mejor y más ventura

pasa presto, y su memoria,

salvo la fama y la gloria.

 

Procuremos buena fama,

que jamás nunca se pierde,

árbol que siempre está verde

y con el fruto en la rrama.

Todo bien que bien se llama

pasa presto, y su memoria,

salvo la fama y la gloria.

»»»»» Esta forma, o vilancico (cast., villancico), corresponde ao vilancete português, etimologicamente cantiga vilã, e é uma forma poético-musical de teor profano que derivará, no século XVII, para um canto litúrgico, adaptado ao calendário religioso.

»»»»» Este vilancico, “Todos los bienes del mundo”, foi composto pelo dramaturgo e músico Juan del Enzina (1468-1529 ou 1530), sob a vigência do rei Carlos I de Espanha, coroado no ano de 1516 e que, pouco depois, por morte do rei e imperador Maximiliano, e com a compra ilegal de votos do colégio eleitoral patrocinada pelos banqueiros Fugger, vem a herdar, em 1519, enquanto Carlos V, os títulos do falecido Maximiliano: rei alemão e imperador do Santo Império romano-germânico. Na linha do seu antecessor, Carlos V consolida o Estado moderno, absolutista e centralizador, abrangendo grande parte do território europeu, e abolindo os regimes feudais tardios. Sem dúvida, trabalhava já para a “fama” e a “glória”, e assim prosseguiu, por todo o seu tempo de condução dos povos europeus, desde as duas datas assinaladas (1516 e 1519) até à abdicação, em 1556. Reconheçam-se-lhe ambas, “fama” e “glória”, embora equívocas, na minha perspectiva. A construção do seu império, abrangendo tendencialmente toda a Europa, e ainda a crescente expansão além-mar, deveu-se a uma política más bien maquiavélica, compulsivamente belicista. Mas não me adianto em juízos retrospectivos, ciente de quanto os mesmos tendem a ser anacrónicos, se se atender às conjunturas sociais e geopolíticas e às mentalidades possíveis e vigentes em séculos revolutos.

»»»»» Metaforicamente pode considerar-se que Carlos V, enquanto espírito militar, disparava primeiro e ponderava depois. Assim aconteceu com a revolta dos “comuneros”, rebelião popular nas urbes espanholas em defesa dos direitos e prerrogativas que o centralismo administrativo imperial, de inspiração centro-europeia, anulava; rebelião controlada em 1521, com recurso a uma repressão feroz, tendo mais tarde o monarca ponderado nas razões de ser das reivindicações populares, e se ter contrito e considerado que aprendera a lição. Assim aconteceu com o desencadear de hostilidades contra Francisco I, rei de França, a pretexto da anexação da Borgonha, região do território francês que Carlos V reivindicava enquanto parte do seu império, hostilidades que culminaram na derrota de Francisco I em Pavia, no ano de 1525; mas, na sequência de outros confrontos, é assinada a Paz de Nice, em 1538, reconhecendo o imperador Carlos V a integridade do território sob a coroa do rei francês. Assim aconteceu, em 1527, quando uma armada imperial do Santo Império, amotinada, invadiu e saqueou Roma, a Cidade Santa, ameaçando a vida do Papa; e se neste motim não se supõe a responsabilidade de Carlos V, pode no entanto auscultar-se a disposição incontinentemente bélica das tropas imperiais. Assim aconteceu, ainda, na muito católica oportunidade havida de mover uma guerra contra os príncipes protestantes alemães, derrotando-os na batalha de Mühlberg, em 1547; mas, percebendo a inutilidade do combate contra a imparável expansão dos ideais protestantes, o imperador ratificou a Paz de Augsburgo, em 1555, onde reconhecia a igualdade de direitos entre estados católicos e protestantes.

»»»»» Enfim, a “fama” e a “glória” do imperador do Santo Império Carlos V e rei Carlos I de Espanha reconheço-as, mas inspiram-me, no mínimo, desconforto. E não me surpreende que tal predador compulsivo fosse entranhadamente católico; tanto que, após a abdicação em 1556, se retirou, no ano seguinte, para o mosteiro de São Jerónimo de Yuste, alojando-se numa habitação despojada, tal uma cela de monge, e submetendo-se a um regime monástico alentado por cantos litúrgicos. Aí veio a falecer em setembro de 1558.

»»»»» Enfim esta combinação de violência predatória e misticismo solipsista, insisto, não me surpreende, considero-os faces da mesma moeda, e descortino-a em outros “unificadores”, acaso menos contritos e contemporizadores, caso de Napoleão, sendo que o misticismo pode revestir ideários profanos. Assim se revelaram, no século XX, por todos os continentes, uns tantos místicos predadores em quantidade não propriamente razoável, com Hitler à cabeça, e seu misticismo morfinómano-alucinatório, tendência ariana.

»»»»» Nos dias que tendem a escorrer-nos entre os dedos, regista-se algum recuo quanto à arrogância do per omnia saecula saeculorum (“por todos os séculos dos séculos”), ficando-se os elogios fúnebres, quanto à “fama” e à “glória” de figuras públicas de relevo, por considerar a perenidade do defunto na história de um país, de um continente, da humanidade… perenidade assim relativizada — suspensa num contexto em que os seres humanos ainda persistem enquanto tal e conservam a memória de tempos históricos… mas uma perenidade ad aeternum não é, cientificamente, previsível. Entretanto, o recuo dessa arrogância própria de séculos mais ignorantes em cosmologia, não inibe, nos nossos escorregadios dias, discursos a bem-dizer mais funéreos que fúnebres, nos órgãos de comunicação social, prenhes de um cansado kitsch ora rasamente perfunctório, ora pateticamente laudatório. Ámen.

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) O texto do vilancico “Todos los bienes del mundo” foi recolhido no opúsculo que acompanha os dois CD’s Obra musical completa de Juan del Enzina, Pro Musica Antigua de Madrid y solistas, Centro de Publicaciones del Ministerio de Educación y Ciencia, Madrid,1990.

»»»»» 2) Sobre a noção de vilancico foi consultado o Dicionário de Literatura, dir. de Jacinto do Prado Coelho, 4º volume, 3ª ed., Livraria Figueirinhas, Porto, 1984.

»»»»» 3) Para o percurso de Carlos V foi basicamente utilizada a informação constante do texto de Rui Vieira Nery, inserto no opúsculo que acompanha o CD Carlos V. ‘Mille regretz’: la canción del emperador, La Capela Real de Catalunya / Hespèrion XXI, ALIA VOX, 2000.

António Sá

[11.01.2017/18.01.2017]

Distracção 55

Distracção / 55 [O corte de relações]

 

»»»»» Há tempos que não via o melhor filósofo, nem no seu jardim nem arredores… pensei alguma vez que estivesse hospitalizado ou pior… Mas encontro-o numa rua distante, com melhor aspecto, e saúda-me e diz-me, à queima-roupa, que está a dormir no Pavilhão ali perto… e faz-se-me luz: ele está a ser protegido pela intenção e atenção piedosa da Câmara Municipal, que vem disponibilizando instalações camarárias para os que dormem na rua, nestes dias em que as temperaturas desceram a pique. Não só lhes dão tecto, no Pavilhão Multiusos, como os alimentam com uma refeição diária… daí o melhor aspecto do melhor filósofo. E embora lhe fuja, sempre que posso, agora a piedade camarária inspirou-me súbita piedade por tão bom filósofo tão desvalido. E eu, que costumo achar excedentária a sua opinião, apressei-me a indagá-lo sobre aquele gajo que toma hoje posse enquanto presidente, lembrando-me das últimas conversas que havíamos tido no jardim:

»»»»» — Então como encara a ascensão do senhor Donald à Casa Branca?… Está triste, acredito…

»»»»» — Nem triste, nem alegre… — disse ele, circunspecto. — Encaro isso desprendidamente como um acidente, dos muitos a que o mundo está sujeito, e em relação ao qual nada podemos…

»»»»» E após uma pausa solene, espetando a barba contra o vento frio, acrescentou, soberano:

»»»»» — Quanto a mim, cortei oficialmente relações com os Estados Unidos da América… e agora, fazendo apelo ao meu estoicismo, espero tudo o que venha, com ânimo igual e tranquilo…

»»»»» Palavras sábias, pensei, afastando-me sem ousar despedir-me da sua figura enorme e estática, barba hirsuta, olhos em alvo, pose de oráculo secular.

 

António Sá

[20.01.2017]

notas & noções 2 (2ª série)

notas & noções 2 (2ª série)

 

sobre ausência de “sentido” e tranquilidade

»»»»» Toda a presunção de que alguém leia o que escrevo, nestes dias ou depois de eu morrer, é totalmente fátua. A noção disto pode ter-me bloqueado algum tempo, mas pressinto que já não me bloqueará futuramente. Escrevo com a mesma ausência de “sentido” que institui o universo. Ausência de “sentido”, não ausência de objectivos imediatos para uso pessoal, para mim definidos.

»»»»» Na sua travessia pelo Inferno, Dante encontra, entre um grupo de almas condenadas por sodomia, o seu mestre Brunetto Latini e, em conversa com ele, lembra como a sua paternal figura lhe ensinava no mundo de que modo um homem ganha a eternidade. Decorre do imaginário religioso esta ideia de uma possível eternidade das “almas” e, por extensão, das “famas” que preenchem o Paraíso. Tal imaginário habitou a medievalidade cultural e o impulso renascentista, tendo sido relativizado pelas conceptualidades do Maneirismo e os sombrios escaninhos do Barroco seiscentista. Uma desinteressada, lúcida observação do andamento cósmico reduz a poeiras siderais toda a hipótese de eternização do que é humano e terrestre. Dante, Michelangelo, Lutero, Einstein vão sobrevivendo nos interstícios da memória humana por esta veloz, provisória eternidade-em-consumação em que nos resolvemos.

»»»»» E não é, não tem de ser, com um sentimento de desconsolo, nem qualquer modalidade do desespero, que vivo tal ausência de “sentido”, não estou a abdicar do que os meus sentidos despertos actualmente me proporcionem, nem do prazer do raciocínio, da reflexão, da escrita. Será antes um sentimento de tranquilidade, de paz cósmica, assim entregue, sem teias de aranha místicas, nem culturais, na cabeça, entregue assim ao meu devir no seio do devir do universo.

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Este texto foi escrito nos dois últimos dias de 2016, salvo o segundo parágrafo, redigido a 09.01.2017.

»»»»» 2) A passagem do Inferno de Dante Alighieri (“M’ensegnavate come l’uom s’eterna”, XV, 85) é citada por Joaquim Manuel Magalhães em Um pouco da morte, Editorial Presença, 1989, p.63.

 

António Sá

[30.12.2016/09.01.2017]

notas & noções 1 (2ª série)

notas & noções 1 (2ªsérie)

 

sobre o “sentido” da vida

»»»»» As nossas vidas individuais são partículas ínfimas de matéria soltas no cosmos: expansão e deriva cósmicas.

»»»»» Schopenhauer considera a nossa vida enquanto “um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada”. Mas este modo de considerar afigura-se-me dramaticamente antropocentrado: para a “beatitude” do universo, o “episódio” da emergência humana é uma lava espúria no devir da voragem sideral, e não “perturba”, de nenhum modo, esse devir de que é parte.

»»»»» Sendo que não vem junto, com tal expansão e deriva cósmicas, qualquer “sentido” para as vidas humanas, na sua emergência, ou para a vida em geral, tudo inutilmente emergente. O ser humano, único “animal doente”, na pertinente expressão de Freud, fantasia inúmeros “sentidos” para a vida, e historicamente vai deixando testemunho desses “sentidos”, úteis para suportar o fardo da doença-da-vida, mas todos eles fantasias, até muito bem imaginadas, que se vão sucedendo e substituindo ao longo dos milénios.

»»»»» Sendo todos os “sentidos” fantasias inconsistentes e assorties, oferecias aos gostos de cada-uns, ainda que úteis para a comum psicologia dos humanos, resta a evidência da reprodutibilidade, que não pode constituir um “sentido”, porque vem com o pacote da deriva cósmica em expansão infinita, tal como Stephen Hawking a probabilizou. E tal como o universo se encontra em expansão ad infinitum, assim no planeta latinamente baptizado terra toda a vida existente se reproduz, sem “sentido” cognoscível, infinitamente ou, pelo menos, até que a terra arrefeça e se extinga.

»»»»» Mas nos diferentes magmas de cultura, conforme as latitudes, em que os seres humanos nascem e se desenvolvem, há “sentidos” larvarmente assinalados para cada-uns, mormente os fantasiosos “sentidos” místico-religiosos: assinalados, mais que escolhidos. Os “sentidos” para a vida são como fontes de água fresca, ou rios, ou torneiras, onde desde criança cada-uns se desalteram — e têm o mesmo valor que essas mesmas águas correntes.

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Este texto foi escrito em convalescença no Hospital Curry Cabral, entre 10.12.2016 e 17.12.2016, excepto o segundo parágrafo, redigido já a 03.01.2017.

»»»»» 2) Traduzi, a partir da versão francesa, a frase de Schopenhauer, que ocorre na página 31 da recolha Douleurs du monde, pensées et fragments, Édition Rivages, 1990.

»»»»» 3) A expressão de Freud é citada por John Gray, no ensaio The silence of animals, on progress and other modern myths, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013).

»»»»» 4) A probabilidade expansiva ocorre em Stephen Hawking: O universo numa casca de noz, Gradiva, 2ª ed. 2002 (1ª ed. ingl., 2001).

 

 

António Sá

[10.12.2016/03.01.2017]

Desatino 73

Desatino / 73 [Valor relativo da doença]   

 

»»»»» Diz um hipocondríaco a outro:

»»»»» — Vou dizer-te o que vais achar um sacrilégio…

»»»»» — Sim?…

»»»»» — Acredita: as minhas enfermidades são piores do que as tuas.

 

António Sá

[06.01.2017]