notas & noções 1 (2ª série)

notas & noções 1 (2ªsérie)

 

sobre o “sentido” da vida

»»»»» As nossas vidas individuais são partículas ínfimas de matéria soltas no cosmos: expansão e deriva cósmicas.

»»»»» Schopenhauer considera a nossa vida enquanto “um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada”. Mas este modo de considerar afigura-se-me dramaticamente antropocentrado: para a “beatitude” do universo, o “episódio” da emergência humana é uma lava espúria no devir da voragem sideral, e não “perturba”, de nenhum modo, esse devir de que é parte.

»»»»» Sendo que não vem junto, com tal expansão e deriva cósmicas, qualquer “sentido” para as vidas humanas, na sua emergência, ou para a vida em geral, tudo inutilmente emergente. O ser humano, único “animal doente”, na pertinente expressão de Freud, fantasia inúmeros “sentidos” para a vida, e historicamente vai deixando testemunho desses “sentidos”, úteis para suportar o fardo da doença-da-vida, mas todos eles fantasias, até muito bem imaginadas, que se vão sucedendo e substituindo ao longo dos milénios.

»»»»» Sendo todos os “sentidos” fantasias inconsistentes e assorties, oferecias aos gostos de cada-uns, ainda que úteis para a comum psicologia dos humanos, resta a evidência da reprodutibilidade, que não pode constituir um “sentido”, porque vem com o pacote da deriva cósmica em expansão infinita, tal como Stephen Hawking a probabilizou. E tal como o universo se encontra em expansão ad infinitum, assim no planeta latinamente baptizado terra toda a vida existente se reproduz, sem “sentido” cognoscível, infinitamente ou, pelo menos, até que a terra arrefeça e se extinga.

»»»»» Mas nos diferentes magmas de cultura, conforme as latitudes, em que os seres humanos nascem e se desenvolvem, há “sentidos” larvarmente assinalados para cada-uns, mormente os fantasiosos “sentidos” místico-religiosos: assinalados, mais que escolhidos. Os “sentidos” para a vida são como fontes de água fresca, ou rios, ou torneiras, onde desde criança cada-uns se desalteram — e têm o mesmo valor que essas mesmas águas correntes.

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Este texto foi escrito em convalescença no Hospital Curry Cabral, entre 10.12.2016 e 17.12.2016, excepto o segundo parágrafo, redigido já a 03.01.2017.

»»»»» 2) Traduzi, a partir da versão francesa, a frase de Schopenhauer, que ocorre na página 31 da recolha Douleurs du monde, pensées et fragments, Édition Rivages, 1990.

»»»»» 3) A expressão de Freud é citada por John Gray, no ensaio The silence of animals, on progress and other modern myths, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013).

»»»»» 4) A probabilidade expansiva ocorre em Stephen Hawking: O universo numa casca de noz, Gradiva, 2ª ed. 2002 (1ª ed. ingl., 2001).

 

 

António Sá

[10.12.2016/03.01.2017]

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