notas & noções 2 (2ª série)

notas & noções 2 (2ª série)

 

sobre ausência de “sentido” e tranquilidade

»»»»» Toda a presunção de que alguém leia o que escrevo, nestes dias ou depois de eu morrer, é totalmente fátua. A noção disto pode ter-me bloqueado algum tempo, mas pressinto que já não me bloqueará futuramente. Escrevo com a mesma ausência de “sentido” que institui o universo. Ausência de “sentido”, não ausência de objectivos imediatos para uso pessoal, para mim definidos.

»»»»» Na sua travessia pelo Inferno, Dante encontra, entre um grupo de almas condenadas por sodomia, o seu mestre Brunetto Latini e, em conversa com ele, lembra como a sua paternal figura lhe ensinava no mundo de que modo um homem ganha a eternidade. Decorre do imaginário religioso esta ideia de uma possível eternidade das “almas” e, por extensão, das “famas” que preenchem o Paraíso. Tal imaginário habitou a medievalidade cultural e o impulso renascentista, tendo sido relativizado pelas conceptualidades do Maneirismo e os sombrios escaninhos do Barroco seiscentista. Uma desinteressada, lúcida observação do andamento cósmico reduz a poeiras siderais toda a hipótese de eternização do que é humano e terrestre. Dante, Michelangelo, Lutero, Einstein vão sobrevivendo nos interstícios da memória humana por esta veloz, provisória eternidade-em-consumação em que nos resolvemos.

»»»»» E não é, não tem de ser, com um sentimento de desconsolo, nem qualquer modalidade do desespero, que vivo tal ausência de “sentido”, não estou a abdicar do que os meus sentidos despertos actualmente me proporcionem, nem do prazer do raciocínio, da reflexão, da escrita. Será antes um sentimento de tranquilidade, de paz cósmica, assim entregue, sem teias de aranha místicas, nem culturais, na cabeça, entregue assim ao meu devir no seio do devir do universo.

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Este texto foi escrito nos dois últimos dias de 2016, salvo o segundo parágrafo, redigido a 09.01.2017.

»»»»» 2) A passagem do Inferno de Dante Alighieri (“M’ensegnavate come l’uom s’eterna”, XV, 85) é citada por Joaquim Manuel Magalhães em Um pouco da morte, Editorial Presença, 1989, p.63.

 

António Sá

[30.12.2016/09.01.2017]

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