notas & noções 3 (2ª série)

notas & noções 3 (2ª série)

sobre “la fama y la gloria”

»»»»» Excelente exemplo do anseio humano de imortalidade é entoado num registo musical amplo, serenamente majestoso e meditativo no vilancico “Todos los bienes del mundo”, cujas palavras explicam que todos os bens deste mundo depressa se vão, excepto a “fama” e a “glória”. Isto é o dito no mote, os três versos iniciais, a partir do qual se seguem os desenvolvimentos, três coplas, estrofes de sete versos, sendo o sétimo verso a reprodução do último verso do mote: “salvo la fama y la gloria” (“excepto a fama e a glória”).

»»»»» 1) Na primeira copla, considera-se que o tempo destrói alguns, a outros leva a fortuna e a boa sorte, sendo que enfim a morte a todos leva; e que todos os bens a ocasião os proporciona, e são de breve memória, “excepto a fama e a glória”.

»»»»» 2) Na segunda copla, postula-se que a “fama” segue um percurso seguro, mesmo quando morre o dono dela; que os outros bens são um sonho e uma sepultura assegurada; e que a melhor e grande felicidade passa depressa, e a memória dela, “excepto a fama e a glória”.

»»»»» 3) Na terceira e última copla, o poeta, transformando-nos em interlocutores, exorta-nos a perseguir boa “fama”, que não se perde nunca; porque é, metaforicamente, árvore sempre verdejante e com frutos nas ramagens; e enfim, todo o bem, enquanto bem, depressa se vai, e a sua memória, “excepto a fama e a glória”.

»»»»» Feita esta versão livre do castelhano, apresento o vilancico na sua língua original, mote e três coplas:

Todos los bienes del mundo

pasan presto, y su memoria,

salvo la fama y la gloria.

 

El tiempo lleva los unos,

a otros fortuna y suerte,

y al cabo viene la muerte

que no nos dexa ningunos.

Todos son bienes fortunos

y de muy poca memoria,

salvo la fama y la gloria.

 

La fama bive segura

aunque se muera su dueño,

los otros bienes son sueño

y una cierta sepultura.

La mejor y más ventura

pasa presto, y su memoria,

salvo la fama y la gloria.

 

Procuremos buena fama,

que jamás nunca se pierde,

árbol que siempre está verde

y con el fruto en la rrama.

Todo bien que bien se llama

pasa presto, y su memoria,

salvo la fama y la gloria.

»»»»» Esta forma, o vilancico (cast., villancico), corresponde ao vilancete português, etimologicamente cantiga vilã, e é uma forma poético-musical de teor profano que derivará, no século XVII, para um canto litúrgico, adaptado ao calendário religioso.

»»»»» Este vilancico, “Todos los bienes del mundo”, foi composto pelo dramaturgo e músico Juan del Enzina (1468-1529 ou 1530), sob a vigência do rei Carlos I de Espanha, coroado no ano de 1516 e que, pouco depois, por morte do rei e imperador Maximiliano, e com a compra ilegal de votos do colégio eleitoral patrocinada pelos banqueiros Fugger, vem a herdar, em 1519, enquanto Carlos V, os títulos do falecido Maximiliano: rei alemão e imperador do Santo Império romano-germânico. Na linha do seu antecessor, Carlos V consolida o Estado moderno, absolutista e centralizador, abrangendo grande parte do território europeu, e abolindo os regimes feudais tardios. Sem dúvida, trabalhava já para a “fama” e a “glória”, e assim prosseguiu, por todo o seu tempo de condução dos povos europeus, desde as duas datas assinaladas (1516 e 1519) até à abdicação, em 1556. Reconheçam-se-lhe ambas, “fama” e “glória”, embora equívocas, na minha perspectiva. A construção do seu império, abrangendo tendencialmente toda a Europa, e ainda a crescente expansão além-mar, deveu-se a uma política más bien maquiavélica, compulsivamente belicista. Mas não me adianto em juízos retrospectivos, ciente de quanto os mesmos tendem a ser anacrónicos, se se atender às conjunturas sociais e geopolíticas e às mentalidades possíveis e vigentes em séculos revolutos.

»»»»» Metaforicamente pode considerar-se que Carlos V, enquanto espírito militar, disparava primeiro e ponderava depois. Assim aconteceu com a revolta dos “comuneros”, rebelião popular nas urbes espanholas em defesa dos direitos e prerrogativas que o centralismo administrativo imperial, de inspiração centro-europeia, anulava; rebelião controlada em 1521, com recurso a uma repressão feroz, tendo mais tarde o monarca ponderado nas razões de ser das reivindicações populares, e se ter contrito e considerado que aprendera a lição. Assim aconteceu com o desencadear de hostilidades contra Francisco I, rei de França, a pretexto da anexação da Borgonha, região do território francês que Carlos V reivindicava enquanto parte do seu império, hostilidades que culminaram na derrota de Francisco I em Pavia, no ano de 1525; mas, na sequência de outros confrontos, é assinada a Paz de Nice, em 1538, reconhecendo o imperador Carlos V a integridade do território sob a coroa do rei francês. Assim aconteceu, em 1527, quando uma armada imperial do Santo Império, amotinada, invadiu e saqueou Roma, a Cidade Santa, ameaçando a vida do Papa; e se neste motim não se supõe a responsabilidade de Carlos V, pode no entanto auscultar-se a disposição incontinentemente bélica das tropas imperiais. Assim aconteceu, ainda, na muito católica oportunidade havida de mover uma guerra contra os príncipes protestantes alemães, derrotando-os na batalha de Mühlberg, em 1547; mas, percebendo a inutilidade do combate contra a imparável expansão dos ideais protestantes, o imperador ratificou a Paz de Augsburgo, em 1555, onde reconhecia a igualdade de direitos entre estados católicos e protestantes.

»»»»» Enfim, a “fama” e a “glória” do imperador do Santo Império Carlos V e rei Carlos I de Espanha reconheço-as, mas inspiram-me, no mínimo, desconforto. E não me surpreende que tal predador compulsivo fosse entranhadamente católico; tanto que, após a abdicação em 1556, se retirou, no ano seguinte, para o mosteiro de São Jerónimo de Yuste, alojando-se numa habitação despojada, tal uma cela de monge, e submetendo-se a um regime monástico alentado por cantos litúrgicos. Aí veio a falecer em setembro de 1558.

»»»»» Enfim esta combinação de violência predatória e misticismo solipsista, insisto, não me surpreende, considero-os faces da mesma moeda, e descortino-a em outros “unificadores”, acaso menos contritos e contemporizadores, caso de Napoleão, sendo que o misticismo pode revestir ideários profanos. Assim se revelaram, no século XX, por todos os continentes, uns tantos místicos predadores em quantidade não propriamente razoável, com Hitler à cabeça, e seu misticismo morfinómano-alucinatório, tendência ariana.

»»»»» Nos dias que tendem a escorrer-nos entre os dedos, regista-se algum recuo quanto à arrogância do per omnia saecula saeculorum (“por todos os séculos dos séculos”), ficando-se os elogios fúnebres, quanto à “fama” e à “glória” de figuras públicas de relevo, por considerar a perenidade do defunto na história de um país, de um continente, da humanidade… perenidade assim relativizada — suspensa num contexto em que os seres humanos ainda persistem enquanto tal e conservam a memória de tempos históricos… mas uma perenidade ad aeternum não é, cientificamente, previsível. Entretanto, o recuo dessa arrogância própria de séculos mais ignorantes em cosmologia, não inibe, nos nossos escorregadios dias, discursos a bem-dizer mais funéreos que fúnebres, nos órgãos de comunicação social, prenhes de um cansado kitsch ora rasamente perfunctório, ora pateticamente laudatório. Ámen.

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) O texto do vilancico “Todos los bienes del mundo” foi recolhido no opúsculo que acompanha os dois CD’s Obra musical completa de Juan del Enzina, Pro Musica Antigua de Madrid y solistas, Centro de Publicaciones del Ministerio de Educación y Ciencia, Madrid,1990.

»»»»» 2) Sobre a noção de vilancico foi consultado o Dicionário de Literatura, dir. de Jacinto do Prado Coelho, 4º volume, 3ª ed., Livraria Figueirinhas, Porto, 1984.

»»»»» 3) Para o percurso de Carlos V foi basicamente utilizada a informação constante do texto de Rui Vieira Nery, inserto no opúsculo que acompanha o CD Carlos V. ‘Mille regretz’: la canción del emperador, La Capela Real de Catalunya / Hespèrion XXI, ALIA VOX, 2000.

António Sá

[11.01.2017/18.01.2017]

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