Monthly Archives: February 2017

notas & noções 6 (2ª série)

notas & noções 6 (2ª série)

 

o discernimento e a lucidez

»»»»» Intuição e razão, sensação e emoção — instrumentos que me ligam ao mundo e me permitem avaliá-lo — negam-me a hipótese de um “sentido” para a existência em geral. Assim, se não posso conceber um “sentido” universal para a vida, ele para mim não existe.

»»»»» Se a actividade e acuidade do espírito humano, a capacidade humana de discernimento e de lucidez não aponta, porque não concebe, esse mesmo “sentido”, então ele há-de ser dado como inexistente.

»»»»» Não se me afigura válido o argumento de que existe um sentido oculto, algo situado na esfera dos desígnios divinos, inalcançável pela razão humana, e não o valido por ser um argumento que: 1º) suspende a referida capacidade humana de discernimento e de lucidez; 2º) escora-se, ele mesmo, num uso reverso dessa mesma capacidade humana de discernimento e de lucidez. Ou seja, é um argumento que, a um tempo, usa soberanamente e suspende arbitrariamente o alcance da razão humana.

»»»»» Tal argumento, o do sentido oculto, constante do discurso católico, não podendo ser validado nem pela razão nem pela ciência, recorre em seu apoio à instância da para se autovalidar, mas segue-se que este recurso místico invalida qualquer hipótese de diálogo ou de razoabilidade: é um argumento terminal. Acresce que, talvez por intermédio da , torna-se viável alcançar o sentido oculto do universo e, com tal conhecimento, explicar e demonstrar em que consistem os “misteriosos” desígnios divinos, prescrevendo-se directivas estritas para a vida humana em função do respectivo “sentido”.

»»»»» Por outro lado, o mesmo discurso católico que, apelando ao “mistério” da , suspende ou infirma a capacidade humana de discernimento e de lucidez, convém que o ser humano foi “criado à imagem e semelhança divinas”…

»»»»» Para deixar esta nota & noção clara, retomo o mote inicial: a minha desafeição a um “sentido” para o universo é de natureza intuitiva e racional, sensorial e emocional. Ou ainda: todo o meu ser, tanto o animal quanto o humano, tem parte neste sentimento da ocasionalidade e deriva cósmicas. Ocasionalidade e deriva para o nada, pelo menos o nada para a vida terrestre, tão facilmente redutível a cinzas. E enfim: por que não considerar a hipótese, afinal a mais simples, de que toda a matéria-energia existente no universo realiza o grau zero de “sentido”, existe apenas por-existir e para-existir, alheia e desconexa de qualquer humana noção imperiosa e exigente de “sentido”. Como crianças mimadas, fazemos birra para obter um “sentido”, como elas para obter um brinquedo.

»»»»» E, escrevendo isto, entro em vertigem mental ao imaginar, num rapto involuntário, sistemas estelares, constelações, buracos negros, universos paralelos, se os há…

 

 

António Sá

[13.02.2017/17.02.2017]

 

notas & noções 5 (2ª série)

notas & noções 5 (2ª série)

 

a comum necessidade de um “sentido”

»»»»» Tenho afinal de ir-estando-enquanto, como ficou implícito em notas & noções precedentes, sem o sustento nem a morada de um “sentido”, pelo menos um “sentido” geral para a existência, incluindo assim no sem-sentido universal o “sentido”-para-mim ou, mais exactamente, o “objectivo” ou o “projecto” particular, que eu me tenha encontrado para uso próprio. Porque obviamente um projecto-para-mim que eu me forje não tem validade universal, nem sendo tão-só o projecto de me manter em vida: este mesmo só projecto, o de cada ser vivo conservar a vida, não constitui um “sentido”, realiza apenas aquilo que advém da emergência inútil do cosmos e sua respectiva expansão, além de que tal projecto ultrapassa o poder efectivo dado a cada um, que não pode projectar manter-se vivo: está todo o tempo de vida exposto à extinção.

»»»»» Assim, com a vida entre os parênteses da sua perecibilidade, como todas as vidas, posso conceder que forjei um “sentido”-para-mim, gerado na imersão cultural em que cresci e me formei, “sentido” (a que melhor chamo projecto), que só pode ser singular e precário (depende do meu devir mental e físico) e perecível (posso achar-me na contingência de o anular; em todo o caso, ele extingue-se com a minha morte).

»»»»» Sob um ponto de vista racional, um “sentido” global, universal, não é perceptível ou concebível pelo ser humano, e portanto, estritamente considerando, ele não existe, sendo que este é o ponto de vista de facto válido, não contando com fantasias e delírios religiosos e místicos em todas as suas formulações e variantes, dada a impossibilidade de validar tais construções subjectivas, por muito que se queiram autovalidar com recurso a inflações retóricas, as do mistério e da transcendência, de que tais construções discursivas estão armadas e armadilhadas.

»»»»» Entretanto, e não pondo de lado a minha convicção intuitiva e racional do sem sentido do universo e da vida, atendo a que os seres humanos têm necessidade, pelo menos enquanto seres conscientes-da-vida-e-da-morte, de ter ou de se constituir um “sentido”: é nesta necessidade que radica a emergência religiosa, de criação anónima, emanando de um espírito colectivo. Não se conhecem agregados humanos, desde as mais remotas idades, que não engendrem um culto dos mortos, um culto a qualquer transcendência. Em tempos historicamente recentes, as ficções ideológicas e as novas mitologias disputam o seu predomínio com as religiões na criação de “sentidos” universais para a vida: no caso das ficções e dos mitos recentes, não tanto “sentidos” divinos, antes teleológicos. O que sempre acontece, porque comummente o ser humano não pode estar-na-vida, ou seja, estruturar o seu curso de vida, sem a ilusão de um “sentido”; esta ilusão é como um instinto protector, destinado a garantir a estabilidade psico-emocional humana. Não será aconselhável, no caso de ser possível, o que não é evidente, retirar a qualquer humano esse conforto no divino ou no teleológico, sem o qual o seu equilíbrio funcional eventualmente entraria em colapso. É necessária alguma experiência vital e alguma elaboração mental, enfim um equipamento psíquico e existencial, para se ser capaz de dispensar ilusões e ficções.

»»»»» E considero que os mitos têm o seu papel e a sua bondade na criação de objectivos e projectos, mitos enquanto mitos, ou seja, edifícios mentais. Por exemplo, tem a sua terna bondade o mito expresso na canção Imagine (John Lennon), mito pacifista, de carácter utópico, da harmonia do mundo, mundo desprovido de autoritarismos, que destroem os equilíbrios e as felicidades; harmonia tanto concebida a nível social, quanto entendida num âmbito inter-nações. Os mitos, arcaicos e recentes, não dispensam a análise crítica: aparecem revestidos de gangas ilusórias, totalitárias, transcendentais. Lembre-se o mito ariano-nazi da “raça pura”; tal como os mitos, aqui e ali reivindicados, do “povo escolhido de Deus” (Camões andou por aqui, quanto ao povo lusíada). Roland Barthes interpretou criticamente, em Mythologies, mitos actuais cotidianos. Convém interpretá-los, analisar a sua substância à luz do nosso entorno e da nossa existência, mas não deixam de ser um auxiliar, omnipresente e disponível, na criação ou adopção de perspectivas para uso particular.

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) O enredo conceptual constituído pelos termos ilusão, ficção e mito foi colhido no ensaio de John Gray The silence of animals, on progress and other modern myths, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013).

»»»»» 2) De Roland Barthes refere-se o ensaio Mythologies, Éditions du Seuil, 1957.

 

 

António Sá

[11.02.2017/15.02.2017]