notas & noções 5 (2ª série)

notas & noções 5 (2ª série)

 

a comum necessidade de um “sentido”

»»»»» Tenho afinal de ir-estando-enquanto, como ficou implícito em notas & noções precedentes, sem o sustento nem a morada de um “sentido”, pelo menos um “sentido” geral para a existência, incluindo assim no sem-sentido universal o “sentido”-para-mim ou, mais exactamente, o “objectivo” ou o “projecto” particular, que eu me tenha encontrado para uso próprio. Porque obviamente um projecto-para-mim que eu me forje não tem validade universal, nem sendo tão-só o projecto de me manter em vida: este mesmo só projecto, o de cada ser vivo conservar a vida, não constitui um “sentido”, realiza apenas aquilo que advém da emergência inútil do cosmos e sua respectiva expansão, além de que tal projecto ultrapassa o poder efectivo dado a cada um, que não pode projectar manter-se vivo: está todo o tempo de vida exposto à extinção.

»»»»» Assim, com a vida entre os parênteses da sua perecibilidade, como todas as vidas, posso conceder que forjei um “sentido”-para-mim, gerado na imersão cultural em que cresci e me formei, “sentido” (a que melhor chamo projecto), que só pode ser singular e precário (depende do meu devir mental e físico) e perecível (posso achar-me na contingência de o anular; em todo o caso, ele extingue-se com a minha morte).

»»»»» Sob um ponto de vista racional, um “sentido” global, universal, não é perceptível ou concebível pelo ser humano, e portanto, estritamente considerando, ele não existe, sendo que este é o ponto de vista de facto válido, não contando com fantasias e delírios religiosos e místicos em todas as suas formulações e variantes, dada a impossibilidade de validar tais construções subjectivas, por muito que se queiram autovalidar com recurso a inflações retóricas, as do mistério e da transcendência, de que tais construções discursivas estão armadas e armadilhadas.

»»»»» Entretanto, e não pondo de lado a minha convicção intuitiva e racional do sem sentido do universo e da vida, atendo a que os seres humanos têm necessidade, pelo menos enquanto seres conscientes-da-vida-e-da-morte, de ter ou de se constituir um “sentido”: é nesta necessidade que radica a emergência religiosa, de criação anónima, emanando de um espírito colectivo. Não se conhecem agregados humanos, desde as mais remotas idades, que não engendrem um culto dos mortos, um culto a qualquer transcendência. Em tempos historicamente recentes, as ficções ideológicas e as novas mitologias disputam o seu predomínio com as religiões na criação de “sentidos” universais para a vida: no caso das ficções e dos mitos recentes, não tanto “sentidos” divinos, antes teleológicos. O que sempre acontece, porque comummente o ser humano não pode estar-na-vida, ou seja, estruturar o seu curso de vida, sem a ilusão de um “sentido”; esta ilusão é como um instinto protector, destinado a garantir a estabilidade psico-emocional humana. Não será aconselhável, no caso de ser possível, o que não é evidente, retirar a qualquer humano esse conforto no divino ou no teleológico, sem o qual o seu equilíbrio funcional eventualmente entraria em colapso. É necessária alguma experiência vital e alguma elaboração mental, enfim um equipamento psíquico e existencial, para se ser capaz de dispensar ilusões e ficções.

»»»»» E considero que os mitos têm o seu papel e a sua bondade na criação de objectivos e projectos, mitos enquanto mitos, ou seja, edifícios mentais. Por exemplo, tem a sua terna bondade o mito expresso na canção Imagine (John Lennon), mito pacifista, de carácter utópico, da harmonia do mundo, mundo desprovido de autoritarismos, que destroem os equilíbrios e as felicidades; harmonia tanto concebida a nível social, quanto entendida num âmbito inter-nações. Os mitos, arcaicos e recentes, não dispensam a análise crítica: aparecem revestidos de gangas ilusórias, totalitárias, transcendentais. Lembre-se o mito ariano-nazi da “raça pura”; tal como os mitos, aqui e ali reivindicados, do “povo escolhido de Deus” (Camões andou por aqui, quanto ao povo lusíada). Roland Barthes interpretou criticamente, em Mythologies, mitos actuais cotidianos. Convém interpretá-los, analisar a sua substância à luz do nosso entorno e da nossa existência, mas não deixam de ser um auxiliar, omnipresente e disponível, na criação ou adopção de perspectivas para uso particular.

 

 

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) O enredo conceptual constituído pelos termos ilusão, ficção e mito foi colhido no ensaio de John Gray The silence of animals, on progress and other modern myths, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013).

»»»»» 2) De Roland Barthes refere-se o ensaio Mythologies, Éditions du Seuil, 1957.

 

 

António Sá

[11.02.2017/15.02.2017]

 

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