notas & noções 6 (2ª série)

notas & noções 6 (2ª série)

 

o discernimento e a lucidez

»»»»» Intuição e razão, sensação e emoção — instrumentos que me ligam ao mundo e me permitem avaliá-lo — negam-me a hipótese de um “sentido” para a existência em geral. Assim, se não posso conceber um “sentido” universal para a vida, ele para mim não existe.

»»»»» Se a actividade e acuidade do espírito humano, a capacidade humana de discernimento e de lucidez não aponta, porque não concebe, esse mesmo “sentido”, então ele há-de ser dado como inexistente.

»»»»» Não se me afigura válido o argumento de que existe um sentido oculto, algo situado na esfera dos desígnios divinos, inalcançável pela razão humana, e não o valido por ser um argumento que: 1º) suspende a referida capacidade humana de discernimento e de lucidez; 2º) escora-se, ele mesmo, num uso reverso dessa mesma capacidade humana de discernimento e de lucidez. Ou seja, é um argumento que, a um tempo, usa soberanamente e suspende arbitrariamente o alcance da razão humana.

»»»»» Tal argumento, o do sentido oculto, constante do discurso católico, não podendo ser validado nem pela razão nem pela ciência, recorre em seu apoio à instância da para se autovalidar, mas segue-se que este recurso místico invalida qualquer hipótese de diálogo ou de razoabilidade: é um argumento terminal. Acresce que, talvez por intermédio da , torna-se viável alcançar o sentido oculto do universo e, com tal conhecimento, explicar e demonstrar em que consistem os “misteriosos” desígnios divinos, prescrevendo-se directivas estritas para a vida humana em função do respectivo “sentido”.

»»»»» Por outro lado, o mesmo discurso católico que, apelando ao “mistério” da , suspende ou infirma a capacidade humana de discernimento e de lucidez, convém que o ser humano foi “criado à imagem e semelhança divinas”…

»»»»» Para deixar esta nota & noção clara, retomo o mote inicial: a minha desafeição a um “sentido” para o universo é de natureza intuitiva e racional, sensorial e emocional. Ou ainda: todo o meu ser, tanto o animal quanto o humano, tem parte neste sentimento da ocasionalidade e deriva cósmicas. Ocasionalidade e deriva para o nada, pelo menos o nada para a vida terrestre, tão facilmente redutível a cinzas. E enfim: por que não considerar a hipótese, afinal a mais simples, de que toda a matéria-energia existente no universo realiza o grau zero de “sentido”, existe apenas por-existir e para-existir, alheia e desconexa de qualquer humana noção imperiosa e exigente de “sentido”. Como crianças mimadas, fazemos birra para obter um “sentido”, como elas para obter um brinquedo.

»»»»» E, escrevendo isto, entro em vertigem mental ao imaginar, num rapto involuntário, sistemas estelares, constelações, buracos negros, universos paralelos, se os há…

 

 

António Sá

[13.02.2017/17.02.2017]

 

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