notas & noções 7 (2ª série)

notas & noções 7 (2ª série)

 

não há consolação

»»»»» Dois usos para a palavra sentido, que inscrevi nas notas & noções anteriores: o uso leve, em frases como “com esta vitória, a minha vida ganhou novo sentido”, caso em que escrevo sentido sem aspas, e leio como significado (ou, extensivamente, objectivo, propósito); e o uso pesado, em “há um plano e um sentido divinos para a Criação”, e aqui sentido aponta para finalidade, fins últimos, sendo que, neste caso, escrevo a palavra com aspas, deixo assim em suspenso o seu valor significativo, mas trata-se de um uso particular-meu das aspas.

»»»»» E não retomo a clarificação do meu desentendimento com o “sentido”, enquanto “sentido” universal da vida, noção que considero inválida: já clarifiquei tal desentendimento, e até profusamente, em quase todas as notas & noções anteriores. Avanço agora para o aspecto subsequente, que consiste em expor as consequências ou, de modo mais preciso e mais justo, as autoconsequências desta invalidação. Aflorei-as já em notas & noções 2, onde escrevi:

»»»»» E não é, não tem de ser, com um sentimento de desconsolo, nem qualquer modalidade do desespero, que vivo tal ausência de “sentido”, não estou a abdicar do que os meus sentidos despertos actualmente me proporcionem, nem do prazer do raciocínio, da reflexão, da escrita. Será antes um sentimento de tranquilidade, de paz cósmica, assim entregue, sem teias de aranha místicas, nem culturais, na cabeça, entregue assim ao meu devir no seio do devir do universo.

»»»»» E também, de modo mais sucinto, em notas & noções 4:

»»»»» Não ressinto, enquanto falta, a ausência de “sentido” de tudo o que existe, enquanto existe, mas antes o considero ambiente natural humano em que tranquilamente me movimento, líquido amniótico.

»»»»» Tanto num excerto como noutro, descrevo um sentimento construído, ou seja, resultante de uma longa elaboração mental e sentimental, decorrente do processo de viver, elaboração em parte intuída e subterrânea (como se fosse pensando, mas não me esforçasse por trazer isso a uma luz clara); e em parte consciente e lúcida. Enfim, uma intuição-pensamento, ciclicamente mais intuição ou mais pensamento, que se sedimenta no que traduzo pela fórmula do início: sentimento construído. Mas o processo de construção, lento que foi, foi semeado de momentos e fases desse desconsolo-que-não-tem-de-ser, do convívio estreito com o absurdo do tempo e a obsolescência da matéria. Actualmente pacifica-me tal assunção, inspira-me essa paz cósmica, como enunciei; constitui o líquido amniótico onde me movo. É um sentimento construído estável, e nele confio, mas nada me garante a sua permanência, visto que nada no espírito humano pode ser considerado permanente. E não exclui uma espécie de luta constante contra um ocasional, acaso recorrente desânimo, face a cada mínima tarefa cotidiana que há que realizar-para-quê?, porque estar activo é condição necessária enquanto ser-individual e ser-em-relação. Desconsolo provisório, quando se alinham inúmeras tarefas repetitivas, de organização, de sobrevivência. No ensaio The silence of animals, John Gray aponta o caso do imperador Marco Aurélio (121-180) que, tendo de assegurar o cumprimento dos seus deveres, se fortalecia na ideia de que cada pessoa tem um lugar, um papel a desempenhar no esquema “natural” do mundo, e assim institui a natureza enquanto modo ordenador do mundo. No entanto… Marco Aurélio considerou só um aspecto da natureza… Esqueceu que a natureza é não só o modo da ordem, da harmonia, mas ainda o modo da desordem, da entropia.

»»»»» Tal como não encontro consolação no conceito cristão de um “sentido divino”, também esta consolação “natural” (tanto de natureza social, quanto da ordem dos acontecimentos), que Marco Aurélio adopta, não me é suficiente, ainda que a paciência (atributo do “justo”, na sua terminologia) seja um instrumento indispensável na condução da vida.

»»»»» Identifico-me antes com a configuração freudiana, exposta no ensaio acima citado, que consiste em aceitar simplesmente o caos. E acrescento e particularizo: o caos e a dissolução das sociedades, das nações, do universo; caos e dissolução finais, tão inevitáveis quanto irresolúveis e, para mim, não passíveis de efeitos mágico-transcendentais. No quadro freudiano, a psicanálise não se destinaria a “curar” os seres enquanto indivíduos, mas levá-los a aceitar o seu destino pessoal, constitucionalmente inescapável desde a primeira infância; pressupondo, entretanto, uma margem de liberdade e livre decisão.

»»»»» E acrescento enfim que Marco Aurélio, com muita propriedade, manifesta uma concepção do binómio caos / ordem, no seguinte parágrafo:

»»»»» “Estarás tu descontente da sorte que te coube no grande todo? Lembra-te então da disjuntiva: ou há uma providência ou mero concurso de átomos, e repassa as provas com as quais te demonstravam que este mundo está ordenado como uma cidade.”

»»»»» Bons tempos seriam esses, os de Marco Aurélio, em que a ordem da cidade… e do império… se afiguravam coisas fiáveis. Pela minha parte, confio mais no “mero concurso de átomos”; concurso este, repito, sem desnecessários “efeitos especiais” de teor mágico-transcendental.

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) Fiz recurso, como ficou escrito, ao ensaio de John Gray The silence of animals, on progress and other modern myths, Penguin Books, 2014 (Allen Lane, 2013).

»»»»» 2) O parágrafo de Marco Aurélio foi colhido em Pensamentos (Livro IV, 3). Utilizei a edição que tinha mais imediatamente disponível, da Editorial Verbo / Livros RTP, 1971, tradução de João Maia.

 

 

António Sá

[11.02.2017/05.03.2017]

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