O patético enquanto instância artística (“A morte de Maria Malibran”)

O patético enquanto instância artística (“A morte de Maria Malibran”)

 

»»»»» Exaustiva, acabada expressão da instância do patético, assim entendo Der Tod der Maria Malibran (A morte de Maria Malibran, Werner Schroeter, 1972). Tal expressão consubstancia-se nas infindáveis sequências de rostos femininos muito produzidos, maquilhados até ao regime de máscaras vivas, mais frequentemente dois, por vezes três rostos, os das actrizes Magdalena Montezuma, Christine Kaufmann, Ingrid Caven e outras, sempre em grandes-planos e planos-de-pormenor, rostos que se aproximam muito lentamente, numa atracção lânguida, um indecifrável êxtase mútuo.

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»»»»» No decurso da construção-fusão magmática do filme, onde a regularidade são esses grandes planos recursivos de rostos femininos aproximando-se e rasando-se cariciosamente, essa instância do patético é pontuada por incursões no grotesco, em sequências onde vemos a Malibran, mítica cantora de ópera do século XIX, a vacilar penosamente num túnel ao fundo de um caminho rústico, ladeado de grades em ruína, e se ouve em off a referência à sua loucura, se conta como era apedrejada por crianças e as perseguia com um bastão; e a referência à sua pantanosa perdição, pântanos literais e simbólicos, a que se juntam citações relativas à morte aquática de Ofélia. Outras citações de Shakespeare ocorrem, noutros momentos, a respeito de Hamlet e do seu inescapável destino de vingança, e aqui é o trágico que se institui, mas o fio contínuo e condutor a que sempre se regressa é o do patético impresso nesses rostos inexpressivos em atracção inconclusa; só muito no final, numa coda, a aproximação de dois rostos vem a selar-se num beijo estático, boca contra boca.

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»»»»» Mas o grande contraponto ao patético é a emergência da crueldade, corporizada na figura paterna travestida de mulher, que vem a ser a actriz Magdalena Montezuma envergando fraque e chapéu alto. A crueldade consiste no acto de extracção, por este progenitor travestido, de um dos luminosos olhos azuis da Malibran, para que ela receba uma côdea de pão, na contingência de uma travessia pela floresta coberta de neve. A primeira imagem do filme é o plano-de-pormenor de uma incisão sangrenta na base da cavidade ocular. A insustentabilidade de tal violência é atenuada pelo esteticismo da imagem: só a parte inferior, abaixo do olho azul, sangra, o olho permanece intacto. Mas a imaginação do acto, assim elidido, arrepia. Esse plano-de-pormenor inicial reaparecerá mais tarde, reiteradamente, em momentos finais.

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»»»»» Excurso: arrepiantes, insustentáveis foram as imagens explícitas da invasão de globos oculares em filmes com L’âge d’or (Luis Buñual, 1930); Saló (Pier Paolo Pasolini, 1975); e um filme de Ingmar Bergman, cujo título não recordo agora, em que um casal idoso em conluio depressivo se vasa os olhos; e mal-incluo Edipo re (Pier Paolo Pasolini, 1967), porque esqueci a cena.

»»»»» Regressando ao filme de Schroeter, se nele se convoca a loucura e a crueldade, no contexto do seu fundamental patético, também se revela um filme eminentemente musical. É constante o fluxo musical e passa, obviamente, pela ópera, além de outras peças clássicas do Romantismo; algum kitsch latino e, sobre imagens de urbanismo contemporâneo, um tema do repertório de Marlene Dietrich.

 

António Sá

[21.01.2017]

 

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