Quatro castelãs no seu castelo

Quatro castelãs no seu castelo

 

 

»»»»» Nota: as duas fotos que acompanham este texto são a preto-e-branco, mas o filme é scopicamente e luxuosamente em CinemaScope, De Luxe Colour.

 

»»»»» CinemaScope, De Luxe Colour, estes são os meios necessários para se visualizar o esplendor dos longos cabelos, ou soltos ou caprichosamente penteados, de quatro noras, todas ainda jovens e todas, menos uma, não se sabe qual, já viúvas. As esplêndidas cabeleiras são: uma ruiva, outra negra, as outras duas louras: uma louro-platina, outra louro-dourado. Todas correspondem a mulheres de caracteres e temperamentos diversos, sendo a morena a mais sensual e aparentemente letal, tratada pelo protagonista como quem domestica um animal selvagem. Quatro mulheres assim cromáticas no écran, espectacularmente e diversamente hipervestindo-se, hipertoucando-se, eventualmente cantando e dançando para esse homem que aportou baleado à propriedade onde viviam, castelãs lá enclausuradas. Ele é um aventureiro de espertíssima perfídia, cinismo, amoralidade, e elas são quatro noras de uma anciã tirânica ferozmente, espingarda sempre pronta para qualquer disparo certeiro, discurso e olhar cortantes, impiedosos. Esta anciã é Ma McDade (Jo van Fleet), únicos cabelos grisalhos do filme The king and four queens (Raoul Walsh, 1956), e o aventureiro é Dan Kehoe (Clark Gable), rei provisório daquele castelo, caninamente, milimetricamente defendido por essa intangível actriz que foi Jo van Fleet, falsa anciã de trinta e quatro anos na vida, caracterizada para ser anciã neste filme, tal como naquele pelo qual é mais conhecida, onde contracena com James Dean: East of Eden (Elia Kazan, 1955).

 

 

Dan Kehoe (Clark Gable) no solo, baleado por Ma McDade (Jo van Fleet)

»»»»» É uma história de ouro, um western em que o ouro é objecto que todos mobiliza, para todos os males e para um relativo bem final, mas que não se vê senão em abstracto, subsumido na maleta enterrada nos arredores da casa, e depois em sacos de pano, alguns deles atirados para a poeira do caminho. E ninguém está a salvo das ambições e perversidades que o “vil metal”, na expressão de Camões, suscita. Este ouro que a todos consome, que se perde para muitas (todas, excepto uma) e de que poucos usufruem, apenas os mais maquiavélicos, e só parcialmente, a saber, Dan Kehoe (Clark Gable) e a ruiva Sabina McDade (a belíssima Eleanor Parker); este ouro lembra-me um outro ouro perdido, mas mais decididamente moralizante, o do conto O tesouro, do já inefável Eça de Queiroz, publicado na “Gazeta de Notícias” em1894; e ainda um outro ouro, que fica dolosamente “bem entregue” nas mãos “insuspeitas” de um xerife (Henry Fonda), esses sacos de ouro do lucidamente implacável There was a crooked man (Joseph L. Mankiewicz, 1970).

»»»»» Um nódulo portador de sentidos icónicos que transcendem a materialidade do representado, polarizando o imaginário, suscita-me a tensão-atenção — nódulo constituído pela série de planos concomitantes à acção do filme, que expõem a arquitectura, o conjunto edificado que habitam as quatro noras sequestradas pela sogra ferozmente armada não só da espingarda-a-prolongar-o-braço, mas de um exemplar da Bíblia que a municia de feroz conceptualização dos laços humanos: a memória dos seus filhos mortos, excepto um não-se-sabe-qual, só ela sabe e não o revela para manter as noras sob suspense e controle e respeito por essa memória, mesmo sendo memória de delinquentes relapsos, filhos-dela e maridos-das-noras, três dos quais mortos em confronto com as forças da ordem, estando o outro foragido. As quatro respectivas mulheres são assim as four queens e estão condenadas à abstinência perpétua, pelo menos até que apareça o foragido, para isso ali a sogra as enclausura.

 

Ma McDade (Jo van Fleet) faz badalar o sino entre três das suas noras McDade, faltando Sabina McDade (Eleanor Parker)

»»»»» Mas regressando ao conjunto edificado: difícil descrevê-lo. Surge por primeira vez num plano-de-conjunto: edifícios oblongos, compósitos, aplastados na paisagem árida, aberta; enegrecidos de uma fuligem intemporal, parcialmente derruídos. Na aparência um fortim, com anexos de tipo rural, conjunto de edificações isoladas num extenso vale protegido por montes rochosos, um forte usado na defesa contra os ataques dos índios, durante a saga de expansão para oeste, mas agora em abandono. O seu isolamento na paisagem evoca as muralhas de um castelo medieval que o tempo escureceu e vai corroendo, de que restem ainda troços de muros, uma torre sineira a emergir do destroço que fora uma igreja, além de um corpo central coeso e habitado. É o décor da maior parte da acção do filme, exteriores decadentes, interiores acomodados. Trata-se enfim de um castelo de épocas mais recentes, século XIX fictivo, sendo as castelãs as quatro coloridas noras, e a guardiã do castelo e da abstinência sexual. essa feroz sogra, personificação da lei ali vigente (diz ela, numa sibilina réplica a Dan Kehoe: “Aqui a Lei não entra”). A assegurar-me quanto a uma aproximação medieva, fixo-me na sequência em que este décor aparece primeiro: o cavaleiro, não medieval, apenas “herói” amoral deste filme, atravessa a ponte, que é de madeira mas não levadiça, e nessa travessia é ferido quase-de-morte pela guardiã, cujo tiro insuficientemente certeiro, para mal dela, sua futura despossessão do tesouro, não mata o intruso. Ocorre-me de seguida, associação divagante, o cavaleiro da ponte, tal como Bernardim Ribeiro no século XVI o imaginou, e assim como a imagem medievalista me ocorre, assim anacrónica a deixo aqui.

 

 

Referências

»»»»» Cinema: The king and four queens (Raoul Walsh, 1956); East of Eden (Elia Kazan, 1955); There was a crooked man (Joseph L. Mankiewicz, 1970).

»»»»» Escrita: Camões, Eça de Queiroz, Bernardim Ribeiro.

 

 

António Sá

[14.02.2012 / revisto a 18.03.2017]

 

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