notas & noções 8 (2ª série)

notas & noções 8 (2ª série)

 

ordem e ordem nenhuma

»»»»» Fechei o texto anterior desta série com uma citação de Marco Aurélio (121-180), abro este com outra, apontando no mesmo sentido (e uso aqui esta palavra enquanto sinónima de “direcção”):

»»»»» “Uma de duas, ou um mundo perfeitamente ordenado, ou uma massa de matéria que para aí amontoaram sem ordem nenhuma.”

»»»»» Esta frase claudica por excessos quanto a ambas opções, que não se excluem uma à outra. E vou tentar explicar tais excessos a seguir:

»»»»» O mundo conhecido obedece a certas leis (vulgarmente ditas leis da natureza) que o organizam; e a certas irrupções que lhe suspendem ou destroem tais leis orgânicas que aparentemente o regiam: assim será impossível conceber um universo ordenado ao pormenor, “perfeitamente ordenado”, tanto quanto a palavra “ordenado” remete para “ordem”, na acepção comum. Por exemplo, a atracção de um qualquer corpo celeste, um planeta, ou mesmo uma nave espacial, para um buraco-negro, suspende irremediavelmente a ordem ou as leis orgânicas vigentes nesse planeta ou nessa nave espacial, e até a sua respectiva integridade, desintegrando-o. A não ser que se considere a anulação da matéria inerente ao regime de um buraco-negro enquanto participando da “ordem do universo”, mas então esta ordem integrará a imersão de tudo o que existe em episódios de caos desintegrativo e, participando a desintegração de uma ordem geral, absoluta, desaparece a distinção entre ordem e caos.

»»»»» Não se pode prever em que regiões do universo sairão, dispersas, as partículas em que se desintegra um objecto que entre num buraco-negro: segundo Stephen Hawking, partículas podem sair de um buraco negro, ao tempo em que este entre num processo de perda de massa. Esta imprevisibilidade, a nível cósmico, pode também ser exemplificada a nível terrestre, com as erupções vulcânicas e outros fenómenos naturais de carácter pontual, como a queda de um meteorito e, claro, a nossa própria queda acidental. Assim, sendo infinito o grau de imprevisibilidade no curso do universo e dos acontecimentos imediatos, pode ser um exagero, a partir de regularidades observáveis na natureza, postular uma “ordem do universo” ou, na expressão de Marco Aurélio, “um mundo perfeitamente ordenado”.

»»»»» Enfim: é decerto contestável que a matéria que nos constitui e nos rodeia seja uma “massa” amontoada “sem ordem nenhuma”. Enquanto organismos integrados, podemos fazer tranquilamente a vida de todos os dias, mantendo a nossa regularidade, acreditando nas “leis naturais” que regem o nosso mundo, sem recearmos tropeçar num meteorito, ou sermos engolidos por um buraco-negro. Vivemos uma ordem, uma “harmonia universal” — mas só aparente. Esta ordem contém em si o caos, uma vez que tudo o que existe tende a ser desintegrado, reduzido a partículas, a nada… é o assunto de muita poesia escrita pelos séculos fora.

 

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) O parágrafo de Marco Aurélio foi colhido em Pensamentos (Livro IV, 27). Utilizei a edição que tinha mais imediatamente disponível, da Editorial Verbo / Livros RTP, 1971, tradução de João Maia.

»»»»» 2) O funcionamento dos buracos-negros é explicado no capítulo 11 da obra de Stephen Hawking Buracos negros e universos bebés, Edições ASA, 2ª ed. 1994 (1ª ed. em inglês: 1993).

 

 

António Sá

[08.03.2017/24.03.2017]

 

 

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