Monthly Archives: April 2017

A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético

A mulher de quem se fala e o irresolúvel patético

 

 

»»»»» Fala-se dessa mulher numa breve “comédia” de teatro Nô, ridicularizando-a por estar apaixonada por um jovem, estando ela já numa idade avançada. Essa mulher assiste à representação, e abandona a sala por se sentir visada. Um outro espectador, seu velho pretendente, sai também da sala e conforta-a, considerando “cruel” a sátira ali representada. De facto esta mulher, qualificada de “velha” no diálogo teatral, era a Madame de uma casa de gueixas, em Kyoto, e apaixonara-se pelo jovem médico que dava assistência àquelas profissionais do sexo. Este jovem aceita passivamente o envolvimento de que é alvo, encara com aparente agrado o projecto, a que ela o encoraja, de abrir uma clínica privada, num desafogado casarão, sob financiamento dela.

»»»»» Mas entretanto a filha desta empresária chega de Tokyo, terminado o curso universitário: é uma jovem problemática, recém-suicida, vindo a revelar-se que a fonte dos seus problemas provinha de escrúpulos morais por ser a beneficiária dos lucros do negócio de prostituição, que lhe custeara os estudos; a que acrescia o facto de que, devido à percepção socialmente negativa da profissão materna, a rapariga fora rejeitada pelo noivo, quando este e respectiva família tiveram conhecimento de tal profissão.

»»»»» A pedido da mãe, o jovem médico, com bastante tacto, ocupa-se da saúde mental da jovem universitária em depressão. Assim ela se abre, revela-lhe os problemas acima apontados, que a angustiam, e entretanto ele apaixona-se: ela é um ser amável, um carácter compassivo e solidário; amor partilhado, de que resulta um projecto de vida em Tokyo. Mas a Madame, ciumenta e possessiva, reage em grande perturbação. As conversas entre os três decorrem em tensão e conflito, e acabarão as duas mulheres em ruptura definitiva com o médico. A jovem rejeita-o, por dar-se conta do dano sentimental que ele provocara a essa mãe-empresária, dona da casa de gueixas, na linha da tradição familiar.

»»»»» Este pequeno emaranhado sinóptico, que se refere ao filme A mulher de quem se fala (Kenji Mizoguchi, 1954), serve-me para deslindar o patético, que reside na figura e destino do jovem médico. Num filme eminentemente feminista, desde logo pelo friso de gueixas que o povoam, e em que uma delas, num diálogo inicial, diz que só ganham o suficiente para os quimonos e a maquilhagem; e enfim pelo seu epílogo, no qual mãe e filha encontram um terreno de cumplicidade, herdando esta última a empresa familiar materna; num filme assim feminista, sobra, para o protagonista masculino, o papel de rejeitado, duplamente rejeitado, e a sua reacção é quase nula, no seu rosto lê-se inexpressividade, em confronto com a qual o espectador pode especular, imaginando-projectando emoções: ele sentir-se-ia injustiçado e em choque, não entenderia a dupla rejeição, porque nem com uma nem com outra teria agido de modo dúplice: no primeiro caso, não se furtando ao investimento afectivo da Madame, também não se compromete num projecto, encontra-se em estado de “hesitação” (palavra usada mais de uma vez); no segundo caso, quando lhe aparecera a jovem universitária, acreditava-se descomprometido, livre para com ela vir a construir um projecto de vida em Tokyo. Decepcionara-as a ambas: a primeira, embalada na crença de que ele aceitava tacitamente um compromisso de vida, o que se frustrou; a segunda, dando-se conta, entretanto, e acreditando-o de facto envolvido nesse compromisso, voluvelmente o traindo, e assim causando grande dano sentimental à mãe. Como ele não se percepciona enquanto culpado, porque não se sentira vinculado a uma, ficando portanto livre para se comprometer com a outra, reage à dupla rejeição com essa paralisia (de movimentos, propriamente, mas também de emoções); o underacting do actor não me permite avançar a palavra estupor; em todo o caso, encontro nesta paralisia emocional um traço possível do patético em arte. O personagem masculino encontra-se numa situação irresolúvel, num impasse; e não reage com despeito, nem se enfurece, o que decerto o tornaria ridículo; simplesmente não reage e, escorraçado pela jovem e suscitando a piedade da mãe desta, encontra-se circunscrito ao lugar do patético e, sem outro recurso, abandona a cena.

António Sá

[26.04.2017 / 29.04.2017]

 

Flash 7

Flash / 7

»»»»» Segurar o dia com a ponta dos dedos — com medo que ele se quebre. The day will break someday. Our daily bread.

»»»»» To hold the day with the fingers — like we hold the sand.

»»»»» Medo que o dia deslize entre os dedos, a estrada arenosa do dia. Areias movediças. Quick sands.

»»»»» Um dia perdia toda a vigilância sobre os dias, o tempo corria amorfo e homogéneo. I was not aware.

»»»»» No podia vigilar el día, así que el se iba para donde no lo podia ver.

 

»»»»» [Clues: o título do filme de King Vidor, Our daily bread.]

 

António Sá

[1996/24.04.2017]

Flash 6

Flash / 6

 

»»»»» As if time did not exists, que el tiempo no existe (o tempora !), qu’il n’existe pas.

»»»»» Como se o tempo não existisse, que o tempo não existe.

»»»»» Vive la vida como sin tiempo ! Vive sem tempo a vida, ou a vida sem tempo! Il faut aller vite! Il n’y pas de temps. No hay tiempo! Deprisa, deprisa! Il n’y a plus de temps! Date prisa!

»»»»» Comme si j’avais tout le temps pour moi, todo o tempo para mim — tout le temps pour moi, tout le temps…

»»»»» Tout à ma guise : tout ce temps qui n’existe pas. Todo o tempo que não existe, esse tempo que não existe. Comme si le temps n’existait pas ou moi n’existait pas pour le temps.

 

 

»»»»» [Clues: uma canção de Ricky Martin, Vive la vida loca ! ; e o título do filme de Carlos Saura, Deprisa, deprisa!]

 

António Sá

[1996/20.04.2017/22.04.2017]

 

notas & noções 10 (2ª série)

notas & noções 10 (2ª série)

 

a ameaça de desintegração física

»»»»» Na anterior destas notas, anotei a ameaça de desintegração psíquica numa canção de Lana del Rey, Born to die (2012), e derivei para os seus úteis, mas decerto juvenis, de algum modo pueris escapes. Escapes a uma eventual depressão? O ambiente da sua música envolve uma melancolia controlada, estilizada. Escapes a uma eventual depressão: este desagregador psíquico foi o motivo do telefonema de Lady Gaga ao Princípe William, ontem (18.04.2017) noticiado nas televisões.

»»»»» Numa canção da sua grande maturidade, Ready to begin again (Manya’s song) (1975), a cristalina Peggy Lee desenvolve uma espécie de renascimento, numa simbiose psico-física, contrariando a ameaça da progressiva ruína física. Esse renascimento consiste em sentir os dentes e o cabelo como se fossem os seus próprios dentes e cabelo; e a partir daí, munir-se dos seus adereços, caracteristicamente glamorosos e, assim equipada, acreditar-se “fresca e luminosa” (“fresh and bright”).

»»»»» Mas o lento acordar da canção, no seu moroso início, choca o auditório com imagens de um corpo já em despossessão de si mesmo: “Quando os meus dentes descansam num copo junto à cama, / e o meu cabelo pende algures num cabide” (“When my teeth are at rest in the glass by my bed, / and my hair lies somewhere in a drawer”). Se o início da melodia é moroso, como um despertar em depressão para o mundo, logo o ritmo se vai animando, ganha uma velocidade que evoca Jacques Brel e até uma diluída ressonância circense, como se enfim o corpo, ferido pelo tempo, mas por ele adestrado, se oferecesse mais uma vez ao circo da existência social.

 

»»»»» Apresento, em sequência:

»»»»» 1) a tradução para português das estrofes, uma pontuação normalizada da versão original;

»»»»» 2) e a cópia digital da página relativa do livrete que acompanha o CD, intitulado Mirrors.

 

»»»»» Pronta para começar de novo (canção de Manya)

Quando os meus dentes descansam num copo junto à cama,

e o meu cabelo pende algures num cabide,

aí o mundo não me parece um lugar muito agradável,

já não um lugar agradável.

 

Mas eu tiro os meus dentes do copo junto à cama,

e o meu cabelo de um cabide à entrada,

ainda aí o mundo não me parece um lugar muito agradável,

não de todo um lugar agradável.

 

Mas eu ponho os meus dentes e ponho o cabelo,

e uma coisa estranha ocorre quando os ponho,

porque os dentes começam a sentir como meus próprios dentes,

e o cabelo como meu próprio também.

 

E estou pronta para começar de novo,

pronta para começar de novo,

a caminho do romance,

o coração cheio de esperança,

de novo, de novo.

 

Estou pronta para começar de novo,

sentindo como se estivesse a começar.

Agora não receio

subir as persianas

e encarar o sol.

 

Ponho as minhas braceletes e broches,

meus anéis e pérolas e grampos,

e enquanto o novo dia se aproxima,

enquanto o novo dia começa…

 

Estou pronta para começar de novo,

parecendo fresca e luminosa eu confio.

Pronta para começar de novo,

como toda a gente tem de estar.

 

 

 

 Ready to begin again (Manya’s song)

When my teeth are at rest in the glass by my bed,

and my hair lies somewhere in a drawer,

then the world doesn’t seem like a very nice place,

not a very nice place anymore.

 

But I take out my teeth from the glass by my bed,

and my hair from a drawer in the hall,

still the world doesn’t seem like a very nice place,

not a very nice place at all.

 

But I put in my teeth and I put on my hair,

and a strange thing occurs when I do,

for my teeth start to feel like my very own teeth,

and my hair like my very own too.

 

And I’m ready to begin again,

ready to begin again,

I’m reaching for the soap,

my heart is full of hope,

again, again.

 

I’m ready to begin again,

feeling like I’ve just begun.

Now I’m not afraid

to raise the window shade

and face the sun.

 

I put on my bracelets and brooches,

my rings and my pearls and my pins,

and as the new day approaches,

as the new day begins…

 

I’m ready to begin again,

looking fresh and bright I trust.

Ready to begin again,

as every body must.

 

Peggy Lee 1 001

 

 

»»»»» NOTA:

»»»»» De Lana del Rey foi utilizado o CD Born to die, Polydor (UK) / Interscope Records (USA), 2012; de Peggy Lee, o CD Mirrors, A&M Records, Hollywood, 1975.

 

 

António Sá

[19.04.2017]

 

notas & noções 9 (2ª série)

notas & noções 9 (2ª série)

 

a ameaça de desintegração psíquica

»»»»» Acabei a última destas notas com a referência à longa vida poética das glosas à desintegração da matéria em geral, incluindo, claro, a matéria humana: “tudo o que existe tende a ser desintegrado”, escrevi. Não resulta difícil encontrar exemplos disso, associados ou não à temática amorosa, que tem sido, esta, a matéria mais tratada no lirismo. E a desintegração pode ser visada nas vertentes: física, a mais tradicionalmente corrente; e psíquica, mais modernamente recorrente.

»»»»» Encontro, na canção pop, um exemplo de alusões à desintegração psíquica em Born to die (Lana del Rey, 2012), alusões levadas a um terreno de explicitação não frequente no main stream da música pop-rock, mais dada a euforias ou a melancolias tipificadas. Mas é por meio de uma metáfora do corpo, dos pés que caminham, que surge a eventualidade da desintegração psíquica: “Pés, não me falhem agora. / Levem-me ao fim da linha. / Oh, o meu coração parte-se a cada passo / que dou.” E este “fim da linha” é partilhado com a pessoa amada, à qual se diz: “Escolhe as tuas últimas palavras. / Estes são os últimos tempos. / Porque tu e eu nascemos para / morrer.” A metáfora da caminhada, resolvendo-se acaso em alegoria representando o curso da vida, tem uma longa tradição em poesia, e sintetiza-se aqui nestes termos: “A estrada é longa, e aguentamos.”

»»»»» A desintegração psíquica aparece modalizada em sinais de dispersão (“Caminho ao longo das ruas da cidade, / será por engano ou desígnio?”); de insatisfação (“Algumas vezes o amor não basta e / a estrada torna-se árdua, / não sei porquê.”); de risco inerente à insatisfação (“Vem e dá um passeio no / lado selvagem.” E nestes tópicos ecoam canções de Lou Reed: o caminhar à deriva pelas ruas da cidade e a incursão pelo “lado selvagem” (“take a walk on the wild side”). Além deste eco, todas as imagens ressumam o estilo de vida norte-americano, tendência melancólica, e a memória cinematográfica, como em “Deixa-me beijar-te muito sob o / aguaceiro.”; ou em “Continua a fazer-me rir, vamos / pedrar-nos.”; ou ainda em “Sinto-me tão só numa Sexta / à noite.” Todo um repertório de situações comuns à vivência juvenil urbana.

»»»»» Nem tudo é perdição, no entanto: há este recurso salvífico: que o “fim da linha” seja partilhado com outro ser, cuja posse se reivindica: “Mas estou esperando frente aos portões, / que eles me digam que és meu.” Retenho esta imagem, “frente aos portões” (“at the gates”): portões que dão acesso a um mundo outro? ao além? Os “portões” instituem uma imagem forte, frequente nas alegorias religiosas e profanas. Lembro apenas os portões da alegoria kafkiana.

»»»»» E há outra salvação, que actua no presente: “agora me encontro” (“now I am found”); e encontra-se tendo vivido um satori, uma iluminação (sem embargo, de ressonâncias religiosas), essa mesma iluminação recorrente na música gospel da tradição afro-americana. Ela estava “tão confusa” (“I was so confused”) enquanto “criancinha” (“little child”), estava “cega” (“I was blind”), perdida, tentando agarrar o que podia, por temor de não encontrar todas as “respostas” (“answers”). Mas esta iluminação, neste contexto, reveste-se de conotações eróticas.

»»»»» E ainda outra salvação: a do omnipresente hedonismo-entretanto na nossa cultura: “Tentemos divertir-nos no entretanto.” (“Try to have fun in the meantime”). Hedonismo enraizado nas nossas agendas, mas persistentemente repreendido no discurso católico.

»»»»» Lana del Rey teve o talento, enquanto autora de lyrics, de reunir, num feixe alusivo, este complexo de tópicos intuitivamente entendíveis por um público urbano advertido. E com a evidência simples de não obliterar esse tabu da ocidentalidade padronizada, a morte. “Born to die”, diz ela.

 

»»»»» Apresento, em sequência:

»»»»» 1) a tradução das quatro primeiras estrofes da letra da canção, as outras são constituídas por versos recorrentes;

»»»»» 2) e a cópia digital da página relativa do livrete que acompanha o CD, intitulado justamente Born to die.

 

 

 

»»»»» Nascidos para morrer

Pés, não me falhem agora.

Levem-me ao fim da linha.

Oh, o meu coração quebra-se a cada passo

que dou.

Mas estou esperando frente aos portões,

que eles me digam que és meu.

Caminho ao longo das ruas da cidade,

será por engano ou desígnio?

Sinto-me tão só numa Sexta

à noite.

Podes sentir-te confortável,

se eu te disser que és meu,

é o que eu digo, querido.

 

Não me faças triste, não me faças

chorar.

Algumas vezes o amor não basta e

a estrada torna-se árdua,

não sei porquê.

Continua a fazer-me rir, vamos

pedrar-nos.

A estrada é longa, e aguentamos.

Tentemos divertir-nos no entretanto.

 

Vem e dá um passeio no

lado selvagem.

Deixa-me beijar-te muito sob o

aguaceiro.

Tu estás pelas raparigas selvagens.

Escolhe as tuas últimas palavras.

Estes são os últimos tempos.

Porque tu e eu nascemos para

morrer.

 

Perdida, mas agora me encontro.

Já posso ver mas antes estava cega.

Eu estava tão confusa quando

criancinha.

Tentava agarrar o que podia

por temor de não encontrar

todas as respostas, querido.

 

Lana del Rey 1 001

 

 

António Sá

[09.04.2017/12.04.2017]